OPINIÃO
11/11/2015 21:46 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Você sofre da 'síndrome da mulher invisível' no seu trabalho?

Certa vez uma mulher almoçava com diretores e sócios da empresa na qual ela é head de uma área. Tratava-se de um almoço corriqueiro entre colegas de trabalho. Ela era a única mulher num grupo de seis pessoas.

Seu cargo na empresa era de gestora sênior -- assim como o de outras nove pessoas, sendo quatro mulheres além dela. Isso significava que eram responsáveis por uma equipe e seus resultados. No caso dessa mulher, especificamente, podia-se dizer que a equipe e o trabalho (que ultrapassava 54 horas semanais) estava indo bem e os clientes desta empresa reconheciam o valor do setor por ela liderado.

Pois bem, voltando ao tal do almoço, todos conversavam coisas do cotidiano: fim de semana, televisão, cinema, notícia quando um dos sócios checa o celular e anuncia que a sede da empresa estava organizando um encontro entre as mulheres de cargos de liderança do grupo. Foi quando um dos sócio-fundadores presente na mesa riu com desdém e falou: "líderes e gestoras, rá! Não temos".

Na sequência, outro sócio comentou "Na [nome da tal empresa], nunca vamos ter mulheres líderes". Todos os homens riram e por fim o CEO completa: "Eles querem mulheres? Mande a Fulana, que é casada e com filho, mulher mesmo, só pra não falar que não mandamos ninguém". Tudo isso com uma mulher líder e gestora da empresa à mesa que, de tão chocada com os comentários, se calou e foi engolida pela invisibilidade que a cercava.

O grau de surrealidade desse fato é triste, ainda mais se situarmos os acontecimentos em maio desde ano e não em 1930 ou 1877. Mais triste ainda é dizer que essa empresa é da área de tecnologia e comunicação, mercados de "vanguarda". Infelizmente relatos como estes acontecem com uma frequência intensa como temos registrado no projeto Liga das Heroínas.

Há muito que se discute a "síndrome da mulher invisível" nas empresas, onde as colaboradoras desempenham muito bem seu trabalho à espera de reconhecimento, que não acontece por motivos "políticos"/sexismo. Isso é reflexo de um trabalho enorme cultural e de longo prazo que a sociedade inteira está realizando, porém se você neste exato momento encontra-se numa situação de invisibilidade no seu trabalho, o que fazer?

Reflita: qual o seu grau de desconforto?

Este é o momento no qual você realmente deve ser sincera e realista: te incomoda estar invisível em seu trabalho? Essa insivibilidade é o principal obstáculo para atingir seus objetivos?

Alie-se

Não importa o seu grau de desconforto com a situação, é importante ter aliadas em ambientes de trabalho que não enxergam mulheres. (Na verdade tenha sempre aliadas em qualquer ambiente de trabalho). É importante que todas tenham conhecimento dos objetivos, sonhos, ambições de cada uma não para competir, mas sim se apoiarem. Você, por exemplo, pode sinalizar que uma colega está com uma ótima ideia para contribuir num projeto que está envolvida e articular para agregá-la ao grupo e o mesmo pode acontecer com você!

Busque diálogos maduros entre as mulheres e criem uma rede de compartilhamento e segurança para que aos poucos sejam capazes de aparecer com solidez.

Apareça

Muitas de nós pensamos que a hora de relevar aos nossos gestores nossos objetivos, ambições, planos para o futuro e sonhos é no momento da entrevista de emprego, porém a sua resposta à clássica pergunta "Como você se vê daqui cinco anos?" não está anotada em um post-it na mesa de seus chefes ou RH. Ou mesmo que "aparecer" seja um grande ato de rebeldia. Não é.

Aparecer como uma profissional com ambições, planos e sonhos acontece por meio de conversas. Do mesmo jeito que somos orientadas a pedir feedback sobre nosso desempenho na função que ocupamos, podemos aproveitar esse momento para fazer o mesmo sobre sua atuação frente ao seu objetivo de carreira. Por exemplo, algo a ser perguntado: "Para eu me tornar uma gerente daqui uns dois anos, quais habilidades devo desenvolver mais?"

Reforçar no dia-a-dia onde você quer chegar para seu gestor, pedir para aprender, observar, seguir, é uma ótima maneira de deixar claro que você tem um plano e que você ficará no emprego o qual te der mais suporte para você se tornar o que deseja.

Posturas assim quebram a falácia que "no fundo, toda mulher quer mesmo casar e ter filhos, por isso nem adianta oferecer promoções e grandes desafios pois há qualquer momento ela pode largar tudo e nos deixar na mão". Homens em especial ainda são criados para acreditar e este é o auge da conquista de uma mulher é o romance e a família. Pode até ser em alguns casos, mas como gestores, eles jamais podem assumir que esta é a regra que se aplica a todas as mulheres fazendo com que elas sejam meros recursos a serem geridos e em algum momento rotacionados, esmagando suas ambições.

Observe atentamente as novas oportunidades

Caso você perceba que está num ambiente cuja a invisibilidade torna impossível seu crescimento - como no caso da história acima - não tenha o menor medo de começar a buscar novas oportunidades. Pesquise, converse e busque referências de lugares e profissionais capazes de enxergar e reconhecer seus objetivos.

Essas quatro dicas são apenas o início de ações que podem te ajudar a sair da invisibilidade e acredite: ter consciência dela e tomar a decisão de como agir fará toda a diferença.

Tomando o exemplo da história acima, que é verídica, soube que a mulher que estava na mesa pediu demissão deste emprego para seguir outra oportunidade e, logo após, mais três das outras quatro mulheres extremamente competentes que também tinham cargos de liderança e gestão seguiram seu exemplo, mostrando que para empresas que se dizem "preocupadas com a retenção de novos talentos e que buscam atuar respeitando rigorosamente seus funcionários" é preciso sim ser feminista, atenta e sensível.

Post originalmente publicado no site MinasNerd.com.br

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