OPINIÃO
25/04/2014 07:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Talvez você esteja assistindo a <em>Mad Men</em> pelos motivos errados

Mad Men não é sobre um personagem e não é uma série de publicitários.

Divulgação

No domingo passado Mad Men começou sua última temporada. Teremos mais 2 anos de série, já que eles adotaram a estratégia Breaking Bad e dividiram o fim em duas etapas.

Prestes a me despedir da série, comecei a perguntar a algumas pessoas se elas assistem ou não à serie, sobre o que se trata, porque gostam dela, etc. Lógico, por ser publicitária, as pessoas ao meu redor sempre respondem: "porque é a era de ouro da publicidade!", "Don Draper, queria ser ele. Puro Talento, sem frescura. O cara é f***". E quando eu encontrava pessoas que não assistem à serie as justificativas eram: "Cara, é muito parada", "Vou ver o quê? Um cara trabalhando, bebendo e pegando umas minas?", "É uma série extremamente machista! Não dá!"

Somado a essas respostas que existiram durante todas as temporadas da série, após o fim da sexta temporada, com Don Draper demitido da agência porque os sócios descobriram que ele é um estelionatário, muitos me responderam "Ah, ficou chata. Vou ver o quê? Draper desempregado?".

Pra todos vocês que respondem algo parecido quando se trata de Mad Men, queria dizer que eu acho que você assistiu à série pelos motivos errados, e não prestou atenção no que realmente importa.

Esse cara aí estava te distraindo

Mad Men é um Zeitgeist

Mad Men não é sobre um personagem e não é uma série de publicitários. A série é um retrato de uma mudança sociológica da sociedade americada entre as décadas de 60 a 70. Você deveria ter pego essa dica acompanhando a trilha sonora da série: a primeira temporada termina com Bob Dylan na época revelação, as demais vão evolulindo de The Beatles novinhos, Sony & Cher, Roy Orbison, The Beatles com Tomorrow Never Knows até David Bowie no trailer desta nova temporada.

Do mesmo jeito as mortes passam a interferir diretamente nas reações dos personagens: desde de Marilyn Monroe, que fez Joan ficar em prantos no escritório, até o assassinato de Bob Kennedy, que fez Megan ficar chocada e assustada em casa. Nesta nova temporada, John Lennon deve ser assassinado em NY em algum momento.

A política também influencia. Na primeira temporada, JFK estava concorrendo, terminamos a última com fim da família Kennedy, além da Guerra do Vietnã, que levou o marido da Joan, e as revoltas raciais, que fazem a secretária atual de Don, negra, dormir na casa da Peggy e revelar o preconceito da personagem.

No contexto social, vimos na terceira temporada o divórcio ser realmente uma opção para a mulher, libertando Betty Draper de uma casamento infeliz com Don. O que também abriu espaço para lidar com filhos de pais separados, com Sally e seu amigo Glen.

Ok, até o momento eu não dei um assunto concreto para ser acompanhado até a sétima temporada da série. Mas quer um? As mulheres. Assunto em evolução totalmente de acordo com o contexto social do momento, fazendo apontamentos extremamente atuais sobre a questão de gêneros. Como você acompanha essa questão? Parando de prestar atenção no Don, no Peter, no Roger e cia e prestando atenção na Peggy e na Joan.

Recentemente os criadores de Mad Men falaram que Peggy é tão protagonista quanto Don. São duas histórias paralelas. Sim, vemos Peggy ir de secretária à nova Don Draper em 7 anos. E acompanhamos toda a sua luta para ser reconhecida pelo seu talento entregando-se ao trabalho sem limites. Natal na mesa do escritório, relacionamentos terminados. Ela é a estrela ali. Frente ao declínio de Don, Peggy desponta, porém só como um cérebro, não como um personagem completo, com vida pós-escritório. O ponto interessante entre a ascensão da Peggy vs do declínio do Don é o seguinte: para Don brilhar, ele tinha que viver: casamento, filhos, amantes, festas, bares. Enquanto Peggy, para receber e garantir o reconhecimento de seu talento, tão grande quanto o de Don, precisou abrir mão de filho (ela o faz na primeira temporada), relacionamento, festas, amigas, casa, etc. Se ela quisesse viver essas coisas, ela que ficasse como secretaria. É uma dinâmica do mercado de trabalho que se estabeleceu: se promove homens casados e com filhos porque ele é o provedor, mas se pensa em afastar ou não colocar em cargos que exijam alta disponibilidade mulheres porque elas são cuidadoras de família.

Peggy: a ascensão de uma mente, não de uma pessoa

Entre Don e Peggy encontramos Joan, a secretária geral da agência, a amante fiel de um dos sócios que evoluiu para sócia da agência, após de ter um filho do tal do sócio e não revelar que é dele, nem usar seu relacionamento para chegar à posição que merecia. A trajetória profissional de Joan sempre me incomodou. Quando é ela alocada para ajudar Craig na Mídia, ela se empolga, entrega um bom trabalho e na sequência descobre que nem foi considerada para ficar no cargo por ser secretária, e nem pode reclamar abertamente. Joan acabou casando-se e para desconectar de vez de seu caso com Roger, pediu demissão, foi trabalhar como gerente de uma grande loja de departamento e até achou que sua vida ia ser isso até que Roger, Don, Peter e cia decidem abrir uma nova agência e a convocam. Ali Joan percebe que ela entende do negócio, ela sabe fazer - agora ela só precisa ser reconhecida.

Porém a sua ascensão foi pra mim o golpe mais duro de toda a série: um potencial cliente que a agência estava negociando pede para dormir com Joan para fechar o negócio e os 4 sócios fazem a proposta para ela. E com isso ela negocia sua entrada na sociedade da agência - não por oportunismo, mas por ter recebido uma proposta tão ultrajante das pessoas a que ela se dedicou, que isso a faz colocar um preço, qualquer um, para abrir mão da sua dignidade temporariamente. Agora como VP de operações da SCDP, ela abre mão de relacionamentos e conta com a ajuda da mãe para cuidar do filho. O surgimento da mãe solteira executiva vem dá ali também.

Toda essa pintura que a série faz nos propõe um exercício: o quanto os seus valores, conceitos, preconceitos, atitudes evoluiram desde a época de Mad Men até agora. O machismo, sua percepção de família e casamento, ética no trabalho. O que você concorda, consente, idolatra, repugna e ignora nesta série forma um retrato em alto relevo de seus valores hoje, em 2014. E por isso, para fazer este exercício que você deveria está assistindo à Mad Men.

Sylvia, ainda estamos falando de uma série de publicidade, não?

Para formatar uma série que irá abordar todas as mudanças que a sociedade americana sofreu ao longo do 2 década, nada melhor do que escolher uma agência de propaganda como cerne da ação. Mas não para mostrar a vida dentro dela e sim para mostrar como a vida passa por dentro dela e chega a uma página dupla de revista ou em 30 segundos na TV. Aqui o publicitário aparece como um grande tradutor do contexto para fazer valer uma argumentação de vendas do produto do seu cliente, senão o produto não vende. Logo, você não deveria prestar atenção no que acontece na agência, mas sim no que passa pela agência - e nesta temporada você tem uma última chance de fazer isso porque Don, o cara que mais te distraiu durante esses seis anos de série, não estará por lá.

Do you believe in life after Don?

(Texto originalmente publicado no blog Spoilers.tv.br)

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