OPINIÃO
12/11/2014 08:46 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

Eu lembro do dia em que conheci meus pais

É OK refletir. É OK voltar. Às vezes ao voltar, você acaba em um restaurante com um pedaço de bolo enorme na sua frente e uma pequena nota que lhe dará boa sorte no seu bolso.

Shutterstock / Irina Mozharova

Eu lembro do dia exato em que conheci meus pais. Não são muitos que podem dizer isso.

Eu estava fazendo aniversário de 10 anos. Dia 23 de fevereiro de 1979, para ser preciso. Danielle, a assistente social encarregada do meu caso desde que eu havia me tornado órfão quatro anos antes, me dirigiu até um restaurante onde me apresentou a um jovem e simpático casal. Eles me presentearam com um pedaço de bolo enorme e me deram uma nota de dois dólares novinha para celebrar. Na época, eu estava feliz por causa do efeito do açúcar e pela minha nota que me trairia boa sorte. Hoje porém, após uma reflexão longa e intenso sobre o meu passado, a cena que ocorreu 35 anos atrás é uma memória reconfortante, não só porque coincide com o verdadeiro começo da minha vida, mas porque também serve como um lembrete de tudo o que teve que acontecer nos anos que antecederam aquele encontro, só para que eu pudesse me sentar com aquelas pessoas boas, naquela mesma mesa, naquele mesmo dia.

O caminho que me levou até aquele restaurante foi longo e peculiar, sem dúvida. Eu nasci na pobreza, tirado da minha família biológica aos seis anos por um homem de terno em um carrão branco e levado até um orfanato. Ninguém me deu uma razão até hoje. Descobri mais tarde que meus irmãos e minha irmã foram todos enviados para morar com famílias diferentes, todos ao mesmo tempo, mas voltaram a morar com nossa mãe alguns meses depois. Só posso especular que como ela nos criava sozinha, como eu era o mais jovem dos cinco filhos e nós éramos tão pobres, minha mãe queria me dar uma chance de ter uma vida melhor. Não deve haver nada além de explicações ruins e essa era a única que me deixei contemplar durante os anos.

Então eu fui deixado no orfanato, que se chamava Ville Joie, ou Vila Feliz, e ali é onde a busca para encontrar uma família para mim começou.

Os adultos do orfanato chamavam-se educadores, um grupo de pessoas tão boas e dedicadas quanto um menino no meu lugar poderia desejar encontrar nesse tipo de estrada. Até hoje não consigo superar o romantismo deste fato: havia um orfanato chamado Vila Feliz que na verdade fez jus à seu nome. Logo após minha chegada, fui apresentado a Danielle. Ela era tão boa e não se parecia em nada com os burocratas que algumas vezes gerenciam casos como o meu. Eu amei Danielle imediatamente. Durante nosso primeiro encontro, ela me disse que seu trabalho não era encontrar um lar para mim; mas sim encontrar uma família onde eu iria ser feliz. Logo ali, eu sabia que ela estava sendo verdadeira. Ela também me deu bolas de gude. Aquilo fechou o acordo entre nós.

Se este orfanato era tão perto da perfeição quanto possível, isto certamente não era o caso na era em que eu cresci. Naquele tempo, crianças que estavam essencialmente na mão do governo como eu eram tratadas como cobaias de alguma forma. Eu sei com certeza absoluta que não foi feito com más intenções, mas isso tem suas conseqüências. E então eu nunca morei em "lares adotivos". Em vez, fui morar com famílias de "pré-adoção". Pessoas me pegavam no orfanato e meu mundo mudava completamente até chegar na casa delas. Eu tinha que me adaptar a suas vidas: novos hábitos, novas regras, nova comida, nova escola e novos amigos. Um novo nome também. Era assim naquela época: quando eu me juntava a uma família, eu pegava o seu nome. Isso seria um detalhe inconseqüente se tivesse acontecido apenas uma ou duas vezes. Eu não tinha esse tipo de sorte. Considerando que eu tinha que reverter ao meu nome de nascimento todas as vezes que eu voltava para o orfanato quando não dava certo com uma família, eu tive que mudar meu nome nove vezes em pouco mais de quatro anos.

Alguns garotos são solitários. Eu era solitário. Famílias podiam me provar. Se elas não estivessem completamente satisfeitas, podiam apenas me devolver, sem serem questionadas. De vez em quando eu brinco dizendo que eu já vinha com uma torradeira grátis de garantia. Os clientes podiam me devolver para o orfanato e ficar com a torradeira.

Quando eu decidi escrever meu livro, Citizen of Happy Town: An orphan remebers [Cidadão da Vila Feliz: Um órfão relembra], eu explorei bem aquele período da minha vida. Eu vi o momento em que cheguei no orfanato e Alain, o grande amigo que eu fiz lá. Eu vi Danielle e os educadores. Na minha cabeça, também voltei para as famílias que me acolheram, começando pela biológica é claro. Daí tem a primeira família com quem eu fui enviado para morar. Eu só passei três meses lá. Acontece que três meses é uma eternidade quando você passa a maioria do tempo no inferno. Felizmente, na minha reflexão, não foi a maldade destas pessoas horríveis que eu consegui avaliar,mas sim a bondade das outras famílias que me acolheram.

Como a "família P" por exemplo.

Eles eram um casal lindo com duas filhas generosas. Mas eles tiveram a má sorte de me receber após minha estadia no inferno. Levando em consideração meu estado de espírito, nunca ia ter funcionado com os P. Por fim, fui eu quem os rejeitei e o Sr. P me dirigiu de volta para o Vale Feliz. Suas despedidas, na porta do orfanato, permanecerão comigo para sempre.

Teve a "família B", que eram um povo simples e comum. Eu estava começando me abrir um pouco e deixar que as pessoas se aproximassem de mim. Danielle estava doente na época e foi substituída por um dos burocratas de quem eu falei mais cedo. Eu suavizo isso no meu livro, mas a verdade é que este homem insensível causou imensa tristeza para muitas pessoas. Ele confirmou sua falta de compaixão, e bom senso, quando negou a família B um pedido bem simples que eles fizeram. Então eles também tiveram que me largar. Eles também tiveram que me dirigir até o orfanato.

Eu tinha oito anos e já estava começando a imaginar se tinha um lugar para mim lá fora no mundo.

Teve um outro casal cujo o nome eu não vou revelar porque não quero arruinar para aqueles que decidirem ler meu livro. Podemos dizer que eles eram minha família dos sonhos e que a maneira que nos conhecemos já é material para os filmes de Hollywood. Eu estava finalmente pronto para ser amado, mas não sabia como retribuir nem um pouco. Havia sido um órfão por tempo o suficiente para esquecer o que envolvia ser um filho. Aquela família tomou a decisão de não ficar comigo na mesma época que outra concordou em me acolher. Desta vez, não teve retorno para a Vila Feliz. Eu iria deixar uma família e me mudar com a outra imediatamente.

Aquela "outra família" ia acabar sendo a certa para mim. Eles eram a que eu conheci naquele restaurante no meu 10o aniversário. Aquilo com certeza não foi uma adaptação fácil e considerando tudo que havia me acontecido antes de me unir a eles, tiveram que começar demonstrando muita paciência e compreensão. Algumas pessoas até perguntavam o que eles tinham na cabeça acolhendo um garoto de 10 anos com um passado daqueles. Fico feliz que o desejo deles de dar uma família para a criança era mais forte que as dúvidas expressadas por alguns.

Eu tentei escrever minha história algumas vezes durante os anos. Sabia que era diferente. Sabia que era uma história que "podia contar". Só não conseguia encontrar as palavras certas para contá-la. Faltava algo na minha abordagem do processo de composição e conseqüentemente, faltava algo nas páginas. Um capítulo ou dois de palavras sem sentido e foi tudo para a lixeira.

Eu precisava voltar. Eu precisava de uma reflexão. A que eu fiz para finalmente poder escrever meu livro, que levou TRÊS anos para ser completo, foi um alerta poderoso. Invés de somente ver momentos difíceis como eu tinha feito nas minhas tentativas anteriores, lembrei-me da bondade demonstrada pela maioria das pessoas que eu conheci no meu caminho. Eu também fui surpreso por algumas lágrimas que chorei; não pela presença delas, mas porque eram guardadas para aqueles que me trouxeram uma luz bem necessária na minha vida em uma época que facilmente podia ter sido lembrada somente pela escuridão.

Quanto mais eu mergulhava nas emoções da época, menos amargura senti e menos arrependimento encontrei. E com a finalização de meu livro, não só fui capaz de encontrar a maioria das imagens da minha vida como um órfão, mas também fui capaz de recolocá-las na ordem certa, que é atrás das imagens da minha vida como filho adotado. Não posso, nem por um segundo, imaginar uma vida sem as memórias que tenho da minha infância porque elas agora me levam até minha vida com a minha família.

É OK refletir. É OK voltar. Às vezes ao voltar, você acaba em um restaurante com um pedaço de bolo enorme na sua frente e uma pequena nota que lhe dará boa sorte no seu bolso.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost Canada e traduzido do inglês.

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