OPINIÃO
07/03/2014 18:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Minha bolha, minha música: o quanto você explora outros nichos musicais?

O grande paradoxo que cerca a internet hoje, e que tem feito alguns pensadores modernos chegarem à conclusão de que a web tem contribuído para a formação de indivíduos cheios de déficit de atenção e incapazes de consumir informação em um patamar mais aprofundado, trata justamente do quanto apesar de termos fácil acesso à informação, estamos cada vez mais fechados em bolhas que refletem nossas próprias características: o Facebook mostra em nosso feed apenas os amigos com quem mais temos assuntos em comum e as páginas que convergem com o nosso gosto pessoal, a timeline do Twitter é formada pelas informações daqueles que nos propomos a seguir e que, obviamente, achamos interessantes. E por aí vai.

Essa bolha sociocultural também atinge a esfera musical: o YouTube sabe exatamente quais artistas te indicar, assim como outras plataformas que possibilitam a audição de músicas online, como o Grooveshark, ou ainda os aplicativos que apresentam artistas semelhantes aos de sua biblioteca do celular. Os "rastros" que você deixa na internet ao procurar por determinada música ou ouvir certo disco fazem com que suas preferências sejam identificadas nos posteriores acessos àquela plataforma. E o ciclo de sugestões não costuma variar tanto ao ponto de algo completamente novo e desconhecido alcançar seus ouvidos.

Um artigo de Andrés García De La Riva, publicado no site do jornal espanhol El País no ano passado, destacava os números de uma pesquisa feita entre estudantes da Universidade de La Rioja, dos quais 72% desconheciam completamente a banda Wilco, 52% o Radiohead e 49% o Depeche Mode. Para os fãs ou para quem acompanha de perto o trabalho dessas bandas e sabe de suas contribuições para o mundo da música ao longo dos anos, esses números chegam a soar absurdos. Mas o contrário também não deixa de ser uma realidade -- nos fechamos tanto em estilos e/ou determinados artistas que acabamos consumindo sempre mais do mesmo, sem darmos abertura para o diferente, o novo, as pérolas não descobertas.

Não custa ficar de olho: se no âmbito intelectual grande parte dos usuários da internet tem se tornado superficial, consumindo informações rápidas e sem maiores especificações sobre determinados assuntos, formando um grande grupo de "leitores de manchete", no lado musical tem muita, muita gente perdendo a oportunidade de explorar e descobrir sons interessantes, de lugares e artistas distintos, simplesmente por não ultrapassarem a barreira que os próprios criaram sobre o que é bom e digno de ser ouvido, e que limita-se ao que ele mesmo encontra em seu iPod.

Conhecemos Wilco, mas podemos estar perdendo um universo de outras bandas.

(Texto originalmente publicado no Rock n Beats)