OPINIÃO
08/08/2014 16:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

Escrever é desacontecer

PAULO IANNONE/ESTADAO CONTEUDO

O novo livro de Eliane Brum, Meus desacontecimentos - a história da minha vida com as palavras, me olhou desde a prateleira da livraria. Eu já havia lido o seu primeiro romance Uma, duas, além de acompanhar com frequência seus textos nas redes sociais. Sabia da qualidade do trabalho, o que me indicava uma boa leitura, mas também uma jornada árdua: nada é superfície nos textos de Eliane Brum, tudo corte, profundidade, esburacamento.

De cara, fiquei capturada com essa palavra: descontecimentos. O que seria desacontecer?

Eliane, negando, inventa uma palavra, e faz um lopping no tempo e em nossas convenções.

Está bem, eu entendo que esse desejo não é novo; ao contrário, o cinema há algum tempo brinca de desacontecer, temos uma boa quantidade de filmes que retrocedem a narrativa, na tentativa de apagar o vivido e escrever uma nova história, com um novo final. Quem não lembra do gesto temeroso do super-homem de fazer girar a terra ao contrário, para impedir a tragédia e salvar a vida de Lois Lane, em uma cena que nos faz, simultaneamente, temer as consequências do ato desesperado, que quebra a regra fundamental de sua existência na Terra, e também torcer pela vitória do amor, desse "super" mais humanizado nesse gesto do que antes do descumprimento da lei. Gesto que nos toca justamente porque fantasiamos muitas vezes ter o poder de fazer desacontecer. Quem, no cotidiano, não reviu muitas vezes a mesma cena, o mesmo diálogo, buscando desfechos diferentes do original, numa tentativa completamente vã, porque imaginária, de se sair melhor na foto?

Seria disso que Eliane trata? Não me parece. A potência, ou o poder - se seguimos com a imagem do super - do livro de Eliane Brum está justamente no fato de que não se trata disso, não se trata de voltar o tempo e apagar o acontecido, mas de narrar. Escrever é desacontecer. Só a escrita interrompe o fluxo daquilo que insiste em não se representar. Escrever é encontrar um lugar para as coisas e, principalmente, um lugar para si. Nas palavras da autora: a palavra salva da morte. São as palavras que suportam o corpo e ordenam uma lógica para vida, que antes delas é caótica.

Ao narrar as histórias de sua infância em Ijuí, ou a história de seus antepassados, Eliane Brum nos dá a sua ficção sobre o vivido (sobrevivido), como ela diz, "de dentro para dentro". Lendo, de alguma forma participamos da relação íntima que a escritora estabelece com as palavras, uma proximidade por vezes quase incômoda (os bons autores nos desacomodam), como um desnudamento que acontece sob os nossos olhos e que nos remete à nossa própria relação com as palavras, naquilo em que também precisamos nos inventar, nos salvar, nos desacontecer.

Se nos sentimos tocados pelo livro é porque todos temos uma relação mais íntima com as palavras do que supomos, e é isso que a autora nos revela.

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