OPINIÃO
05/02/2014 14:59 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

As palavras são insuficientes e tudo o que temos

Passado um ano desde a noite trágica do incêndio da boate Kiss, me parece que a pergunta que muitos se fazem é: como estamos vivendo aqui, na cidade de Santa Maria, após o ocorrido? Como estamos lidando com nosso luto?

As respostas são muitas e ao mesmo tempo extremamente singulares. Elas dizem respeito a cada um, a cada perda e a cada forma de lidar com ela. Há os que perderam um filho, um pai, um irmão, um amigo. Para estes um ano é um tempo muito curto frente à dimensão da dor da saudade.

Há muitos que, como eu, não perderam diretamente alguém conhecido, mas que poderiam ter perdido porque identificam seus amigos e familiares àqueles que se foram. Eu tenho um amigo que perdeu a filha e o vejo lidando, a seu modo, com essa perda, mas toda vez que ele vem à minha casa sinto vontade de lhe dizer uma palavra, um carinho, algo que possa lhe dar algum conforto. As palavras são insuficientes e, ao mesmo tempo, tudo o que temos.

Aqueles que morreram estavam fazendo o que deveriam estar fazendo, rindo, brincando, se divertindo, trabalhando, vivendo segundo suas idades e momentos de vida. Só não deviam ter morrido por isso.

Minha cidade não é a mesma, jamais será. Perdemos uma parte importante de uma geração que vai carregar essa marca em sua história.

Santa Maria é historicamente um lugar de jovens, uma cidade de passagem que recebe pessoas que também estão em um momento de passagem: passagem do colégio para faculdade, da adolescência para vida adulta. Essa característica faz parte da nossa identidade.

Após o dia 27 de janeiro de 2013 essa perda também faz parte da nossa história e é importante que seja assim. O texto de Fabrício Carpinejar, o mais compartilhado nas redes sociais naquele dia, fala disso: eu morri em Santa Maria, todos morremos.

Para aqueles que cobram a necessidade de que a vida siga seu rumo e se incomodam com a continuidade das manifestações das associações de pais e familiares dos mortos, é importante lembrar que vivemos num período que suporta pouco a presença do sofrimento como parte da vida.

As reivindicações dos pais, por mais distintas que sejam, têm em comum o pedido de que seus filhos não sejam esquecidos, de que as responsabilidades sejam apuradas e punidas. Esquecer o que aconteceu é o caminho mais próximo de nos vermos de novo em uma situação semelhante.

Esquecer é diferente do que poder lembrar sem dor. E repito, um ano é um tempo muito curto pra isso.

Dia 27 de janeiro de 2014, um ano de luto. As datas tem essa função e esse valor de serem momentos marcados para que não nos esqueçamos da nossa história.