OPINIÃO
03/07/2014 15:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Afinal, "o que querem as mulheres" nessa Copa?

Entre a clássica reação de chamar de "vagabunda" àquelas que se aventuraram com os estrangeiros - reação infelizmente ainda rotineira e esperada quando qualquer mulher se coloca no exercício da sexualidade - e entre as perguntas sobre "o que esses gringos têm que nós não temos?", talvez possamos incluir alguns apontamentos.

FERNANDO NEVES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Um resultado aparentemente inusitado dessa Copa do Mundo vem provocando reações e questionamentos por parte da população, pelo menos no Rio Grande do Sul, lugar onde vivo.

A passagem de turistas estrangeiros por Porto Alegre, uma das sedes da Copa, gerou um mal-estar na torcida masculina, afinal as gurias recepcionaram os visitantes de forma bem mais acolhedora do que esperavam os gaúchos.

Holandeses, australianos, argentinos e outros fizeram a festa pelas noites porto-alegrenses e ganharam atenção das moças. O amor estava no ar, e os estrangeiros e as brasileiras se deram bem. Mas é claro que isso não foi sem consequências, logo a indignação e os questionamentos masculinos se fizeram ouvir.

Entre a clássica reação de chamar de "vagabunda" àquelas que se aventuraram com os estrangeiros - reação infelizmente ainda rotineira e esperada quando qualquer mulher se coloca no exercício da sexualidade - e entre as perguntas sobre "o que esses gringos têm que nós não temos?", talvez possamos incluir alguns apontamentos.

"Por que esse encantamento com os gringos?", perguntam-se os guris, segundo matéria de um jornal de grande circulação no RS, o que motivou um repórter a se fantasiar de turista francês pra ver se isso teria efeito na população feminina, e confirmar que sim, seu disfarce lhe rendeu sorrisos, olhares e possibilidades que ele não teria (segundo ele) conseguido, sem seu alter-ego estrangeiro. Seria a capa de gabardine, os óculos, ou "pardon" lançado aqui e acolá nos corredores o que gerou o interesse das brasileiras?

Parafraseando Freud, "o que querem as mulheres" nessa Copa?

Talvez a surpresa gerada pelo comportamento feminino na Copa esteja no fato de que, até então, a preocupação, no que diz respeito aos efeitos da sexualidade nesse evento, ficava exclusivamente restrita ao turismo sexual, ou seja, o uso e o abuso que poderia ocorrer por parte de estrangeiros homens sobre nossas meninas e mulheres. Preocupação importante, ainda extremamente legítima, mas na qual a mulher figura exclusivamente como objeto a ser comercializado, e protegido.

A possibilidade de que as mulheres - que há um bom tempo participam do mercado de trabalho, pagam suas contas, e cuidam de suas próprias vidas - possam ter escolhido fazer destes homens, estrangeiros ou não, objetos de seus desejos sexuais e amorosos parece ainda acusar espanto. Que as gurias da classe média resolvessem explorar o fato, que dessa vez o jogo estava pra elas, pode ter ressentido o ego da torcida masculina e ofendido a tradicional moral gaúcha.

Durante séculos as mulheres entraram no jogo da fantasia masculina e se permitiram ser recortadas (seios, pernas, bunda), entendendo que isso faz parte da cena sexual e que é necessário um certo despojamento de si para que a sexualidade viva. Talvez este seja um bom momento para os homens aceitarem que uma capa, uns óculos, um sotaque, podem sim fazer a diferença na fantasia feminina, e que as mulheres também podem, finalmente, abrir mão da necessidade de recorrer sempre ao amor como única possibilidade de se autorizarem a uma vida sexual, ou seja, de que elas também estão aprendendo que é possível distinguir "amor" de "sexo".

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