OPINIÃO
02/03/2016 11:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

A analista do Mick Jagger

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Os sonhos são realizações de desejos, dizia o velho e bom Freud. Então, vamos ao meu: fui analista do Mick Jagger, ao menos, por uma noite.

Estava entrando no estádio, procurando meu lugar, quando avisto meu amigo Marcio Grings, produtor cultural, que está realmente levando uma galera de Santa Maria para o show. Ele me vê e me chama:

- Sílvia, que bom te ver, preciso urgente de um favor: Mick Jagger está deprimido, alguém tem que falar com ele. Tu topas?

- Certo que sim.

Sou conduzida pelo backstage até uma sala, lá está ele, the old stone, sentado na cabeceira de uma longa mesa. Mas não está sozinho. Uma amiga minha, psicóloga, troca carinhos com o roqueiro.

Bom, vamos lá:

- O que está acontecendo?

Mick me olha e diz:

- Estou cansado, sempre esperam demais de mim e acho que não sou bom o suficiente......não sou nenhum Keith Richards... diz com lágrimas nos olhos...

Depois Borgeou: "... todas as coisas querem perseverar em seu ser, a pedra quer eternamente ser pedra e o tigre, um tigre." O que dele restaria - se é que era alguém - entre a pedra e o tigre?

Minguou-se o desejo no bardo: I can't get no satisfaction...

Quase que me salta da boca a seguinte frase: - Você, sem desejo? Cara, milhares de pessoas, há milhares de anos, pensam radicalmente o contrário e estão lá fora só esperando por ti...

(Engulo a frase na ponta da língua: intervenção errada, seria pressão demais, tudo que ele não precisa no momento...)

Então,sem saber muito bem como, consigo falar outra coisa. Mick se surpreende, se mexe um pouco na cadeira e começa a falar sobre como é hard ser um stone.

Aos poucos, a cor vai voltando ao rosto do vocalista, ele beija minha amiga e fala que terá uma festa ao fim da noite.

My work is done.

Saio de fininho. Do lado de fora, todos me esperam:

- Ele está bem, ao menos por hoje, mas aconselho seriamente que procurem um analista em Londres, essas coisas levam tempo, vocês sabem como é...

O irmão do Mick Jagger me pega pelo braço e sussurra um segredo: Mick está falido, gastou demais, mora com ele, de favor, num quartinho nos fundos...

Fazer o quê? Sonhos são assim, têm uma lógica própria, uma significação inconsciente, que sempre nos escapa. Mas duas perguntas vou carregar para o resto dessa vida: que raio de intervenção foi essa que acordou o Mick Jagger e por que mesmo eu tinha que ser logo a analista?