OPINIÃO
04/03/2015 18:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Convidando os homens para o debate: liderança feminina gera lucro

Vários estudos realizados após a crise do setor financeiro, em 2008, indicaram que empresas com mulheres em posições de liderança tinham superado mais rapidamente as consequências da crise. Entre outras coisas, os estudos indicaram, que a visão da mulher, muitas vezes mais conservadora e adversa ao risco, tinha sido extremamente valiosa em momentos de crise.

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Eu tenho enorme admiração por inúmeros executivos e empresários brasileiros, grandes líderes, homens, que muito me inspiraram ao longo de minha carreira.

Justamente por isso, me sinto absolutamente confortável para enviar essa carta aberta aos executivos e empresários brasileiros e convidá-los a esse debate tão relevante, que não poderia vir em momento mais apropriado, nesse dia internacional da mulher, marcado por um cenário de crise e instabilidade econômica e politica no país.

A meu ver, o debate e a persuasão dos homens, que são hoje os grandes detentores dos poderes decisórios empresariais no país, de que a mulher está atualmente mais do que preparada para assumir cargos de liderança, e, de que, uma maior presença feminina em altos cargos é, efetivamente, um instrumento eficaz para atingir melhores resultados, é o caminho a ser traçado para que possamos mudar o cenário que vivemos hoje.

Os fatos

Pois bem, analisemos diretamente alguns fatos relevantes:

• De acordo com o IBGE, o Brasil possui uma população de maioria feminina. São 51,5% de mulheres e 48,5% de homens.

Independentemente das variações que possam existir entre as varias faixas etárias, e, uma eventual prevaleça da população masculina entre os jovens de até 20 anos,

um debate sobre a posição da mulher, não é certamente um debate sobre a posição de uma minoria;

• Diversos dados revelam que existe uma maioria de mulheres concluindo graduação acadêmica no Brasil, em diversas áreas.

Na América Latina como um todo, temos atualmente uma proporção de 55% de mulheres concluindo os cursos universitários;

• A mulher brasileira também se destaca pelo empreendedorismo. Estudos revelam que cerca 55% das pequenas e médias empresas no Brasil são hoje de propriedade de mulheres. Nesse ponto, a mulher brasileira está à frente, por exemplo, da mulher em outros países emergentes como a Turquia, a Rússia e a Coreia do Sul (Fonte: IFC "Enterprise Finance Gap Database", Goldman Sachs, The Banker/FT.)

• Em contrapartida, estatísticas demonstram que a proporção de mulheres nos cargos de alta administração das companhias de capital aberto brasileiras é de cerca 8% somente. (Fonte: Fundação Getúlio Vargas, Grupo de Pesquisas de Direito e Gênero: " Participação de mulheres em cargos de alta administração: relações sociais de gênero, direito e governança corporativa"),e, hoje não temos uma mulher CEO sequer dentre as companhias que compõem o principal índice de ações da Bolsa Brasileira, o Ibovespa;

• Segundo estudos realizados no Brasil e em outros países da América Latina, que tem uma situação muito semelhante à nossa, a proporção da participação de mulheres se reduz drasticamente, na medida em que tomamos em consideração cargos mais altos.

Assim sendo, temos 55% de graduandas universitárias; 43% de mulheres em cargos operacionais, 35% em cargos de gerencia júnior e media; 16% em cargos de gerencia sênior, e, 8% em cargos de alta administração Fonte: McKinsey database.

• No quesito remuneração, talvez o mais controverso de todos, a mulher também se encontra em grande desvantagem no Brasil e no mundo.

No Brasil, estudos revelam que a mulher recebe salários 28% menores do que os dos colegas homens, para cargos equivalentes. Fonte: IBGE

A titulo de exemplo, essa diferença cai para 19% nos Estados Unidos, mas ainda é bastante assustadora.Fonte: IBGE.

Potencial ignorado

Gostaria de retornar ao primeiro dado mencionado acima, a nossa população prevalentemente feminina, para refletirmos a respeito do enorme potencial feminino que vem sendo ignorado tanto em termos de potencial de consumo, como em termos de geração de riquezas.

Empresas produtoras de produtos de consumo e até mesmo instituições financeiras, vem reconhecendo o potencial da mulher na economia global.

A renda da mulher no mundo chega a $12.500 bilhões de dólares, mais do que a soma dos PIBs da China (cerca $9.181 de dólares) e Índia (cerca $1.871 de dólares) somados.

Esse grande mercado consumidor requer produtos e serviços que reconheçam as suas características próprias. Ora, nada melhor do que envolver mulheres nas decisões estratégicas a respeito desses produtos e serviços, para que eles possam ter as características adequadas a esse mercado.

A mulher, além de ser uma parcela importante do consumo mundial, é reconhecidamente uma grande influenciadora do consumo global. De acordo com representantes da indústria automotiva, a mulher compra 45% de todos os automóveis e influencia a compra de 85% da compra de todos os automóveis no mundo, o que representa negócios na ordem de 20 trilhões de dólares.

A maioria dos executivos, empresários e formadores de opiniões globais parece reconhecer que empresas com mulheres em cargos de alta administração têm resultados financeiros melhores.

Vários estudos realizados após a crise do setor financeiro, em 2008, indicaram que empresas com mulheres em posições de liderança tinham superado mais rapidamente as consequências da crise.

Entre outras coisas, os estudos indicaram, que a visão da mulher, muitas vezes mais conservadora e adversa ao risco, tinha sido extremamente valiosa em momentos de crise.

Parece que estamos chegando a um consenso de que homens e mulheres, com formação e preparo semelhantes, tem visões diferentes que, combinadas, podem agregar muito valor às decisões estratégicas de uma empresa.

Existe e existirá no mundo, principalmente nos mercados emergentes, uma crescente demanda por profissionais altamente qualificados. Essa falta de mão de obra altamente qualificada poderá ser preenchida pelas mulheres que hoje estão em maioria concluindo os cursos universitários e ingressando no mercado de trabalho.

O suprimento dessa carência tem um potencial de grande geração de riquezas, principalmente em países emergentes, como o Brasil, que não pode ser ignorado.

É fundamental que nós mulheres reconheçamos o potencial econômico feminino e convidemos os homens, que são hoje a maioria absoluta dos líderes empresariais e políticos, para esse importante debate.

Somente com um diálogo aberto e claro e com o apoio dos homens conseguiremos atrair e reter o talento feminino para o mercado de trabalho, em todos os níveis, e fazer com que a mulher finalmente aspire e conquiste mais posições em cargos de liderança.