OPINIÃO
29/07/2014 17:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Como Israel pode escapar da armadilha de Gaza

Por mais terrível que seja a devastação em Gaza, o Hamas sobreviverá, no mínimo porque Israel o deseja. A alternativa -- a anarquia jihadista que transformaria Gaza em uma Somália palestina -- é simplesmente insuportável de se imaginar.

DAVID BUIMOVITCH via Getty Images
A missile is launched by an 'Iron Dome' battery, a short-range missile defence system designed to intercept and destroy incoming short-range rockets and artillery shells, on July 15, 2014 in the southern Israeli city of Ashdod. Israel will expand its week-long military campaign in the Gaza Strip if Hamas refuses to accept an Egyptian ceasefire plan, Prime Minister Benjamin Netanyahu warned. AFP PHOTO/DAVID BUIMOVITCH (Photo credit should read DAVID BUIMOVITCH/AFP/Getty Images)

TEL AVIV -- A "Operação Borda Protetora" contra o Hamas em Gaza é o tipo de guerra assimétrica que caracterizou quase todos os conflitos no Oriente Médio nos últimos anos. As vitórias nessas guerras são sempre elusivas.

Sejam quais forem as conquistas do exército superior de Israel e seus sistemas antimísseis, e por mais terrível que seja a devastação em Gaza, o Hamas sobreviverá, no mínimo porque Israel o deseja. A alternativa -- a anarquia jihadista que transformaria Gaza em uma Somália palestina -- é simplesmente insuportável de se imaginar.

A retórica arrogante do líder do Hamas Khaled Meshal não consegue esconder o fato de que o poderio militar do Hamas sofreu um golpe devastador. Mas, a menos que Israel esteja disposto a pagar um preço excepcionalmente alto em termos de sua posição internacional, ocupando Gaza e destruindo toda a sua hierarquia militar e seu arsenal, o Hamas ainda pode clamar vitória, por ter sobrevivido a mais uma ofensiva da colossal máquina militar israelense.

Em um conflito assimétrico, o poder superior sempre tem problemas para definir seus objetivos. Neste caso, Israel pretende alcançar a "tranquilidade" com poucas baixas civis palestinas para minimizar as críticas internacionais. Mas o fracasso em alcançar esse objetivo é exatamente onde o poder superior é derrotado em conflitos assimétricos. Além disso, "tranquilidade" não é um objetivo estratégico; e a maneira de Israel persegui-la -- uma guerra a cada dois ou três anos -- não é especialmente convincente.

A verdadeira questão é: supondo que Israel consiga a tranquilidade que deseja, o que pretende fazer com Gaza no futuro? E o que pretende fazer com o problema palestino do qual Gaza é parte integral?

A questão da Palestina está na raiz das guerras assimétricas que Israel tem enfrentado nos últimos anos, não apenas contra o Hamas, cliente palestino do Catar, mas também contra o Hizbollah, o representante do Irã na região. Essas guerras estão criando um novo tipo de ameaça para Israel, porque elas acrescentam à dimensão estritamente militar dos conflitos os domínios da diplomacia, política regional, legitimidade e direito internacional, em que Israel não leva vantagem.

Em consequência disso, nos conflitos assimétricos Israel vê sua superioridade militar corrompida. Estas são batalhas políticas que não podem ser vencidas por meios militares. A assimetria entre a natureza das ameaças e a reação de Israel acaba colocando o poder militar superior em posição de inferioridade estratégica. A disseminação da violência para a Cisjordânia -- e o apoio do presidente palestino, Mahmoud Abbas, aos objetivos do Hamas -- significa que Israel não pode evitar as consequências políticas do conflito. O Hamas, um adversário negligenciado da estratégia diplomática de Abbas, está se tornando gradualmente a vanguarda na luta pela libertação da Palestina.

Ao contrário do que acredita o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, a principal ameaça existencial que o país enfrenta não é o Irã com suas armas nucleares. O verdadeiro perigo está em casa: o efeito corrosivo do problema palestino sobre a posição internacional de Israel. A devastação causada pelos confrontos assimétricos periódicos de Israel, combinada com a constante ocupação de terras palestinas e a crescente expansão dos assentamentos, alimentou uma campanha crescente para minar a legitimidade de Israel.

Texto publicado originalmente em inglês no Project Syndicate

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