OPINIÃO
28/06/2015 20:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Quatro desejos para a turma de 2015

Eu mesma levei muito mais tempo para identificar o que queria fazer. Quando eu estava ali na minha beca, no dia de minha colação de grau, não teria podido pensar na possibilidade de trabalhar no Facebook, porque a Internet não existia - e Mark tinha apenas 11 anos de idade. Eu achei que só trabalharia para o governo ou para uma organização filantrópica, porque achava que essas instituições faziam do mundo um lugar melhor, enquanto empresas trabalhavam apenas pelo lucro.

Sheryl Sandberg

O discurso que segue foi feito em 27 de junho de 2015 na cerimônia de colação de grau da Tsinghua School of Economics & Management, em Pequim.

Tenho a honra de estar aqui hoje para me dirigir ao reitor Yingyi Qian, ao distinto corpo docente da Tsinghua School of Economics and Management, aos familiares orgulhosos, aos amigos e, o que é o mais importante, à turma de 2015.

Diferentemente de meu chefe, Mark Zuckerberg, não falo chinês. Peço desculpas por isso. Mas ele me pediu para transmitir a seguinte mensagem: zhuhe. Estou emocionada por estar aqui hoje para parabenizar esta turma magnífica em sua colação de grau.

Quando o reitor Qian me convidou para fazer um discurso aqui hoje, pensei: discursar para um grupo de pessoas muito mais jovens e bacanas que eu? Posso fazer isso.

Faço isso diariamente no Facebook, já que Mark é 15 anos mais jovem que eu, enquanto muitos de nossos funcionários são mais contemporâneos dele que meus.

Gosto de estar cercada por jovens, a não ser quando eles me perguntam "como era estar na universidade sem celular?" ou, pior ainda, me pedem "Sheryl, dá para você vir aqui um pouco? Precisamos ver o que gente velha acha disto".

Eu me formei na faculdade em 1991 e na escola de administração em 1995. Não faz tanto tempo assim. Mas posso dizer a vocês que o mundo mudou muitíssimo em apenas 25 anos.

Minha turma na escola de administração tentou fazer a primeira aula online da escola. Tivemos que distribuir uma lista de nomes que usaríamos na tela, porque usar nossos nomes reais na Internet seria impensável.

E a aula não funcionou porque o sistema ficava dando tilt. Simplesmente não era possível para 90 pessoas se comunicarem online ao mesmo tempo.

Contudo, por alguns instantes breves entre um tilt e outro, tivemos um vislumbre do futuro - um futuro em que a tecnologia nos ligaria a nossos colegas, parentes e amigos.

O mundo em que vivemos hoje é um mundo que eu não teria podido imaginar quando estava sentada onde vocês estão hoje. E daqui a 25 anos serão vocês que terão ajudado a moldar o mundo de sua geração.

Formados pela Tsinghua, vocês serão líderes não apenas na China, mas globalmente. A China é líder mundial em termos de conquistas educacionais e crescimento econômico.

Não são apenas os líderes políticos e empresariais que reconhecem a importância da China. Muitos pais americanos também a reconhecem; as escolas mais difíceis de se ingressar na região da baía de San Francisco, onde eu vivo, são as que ensinam chinês.

Mas o fato é que países não lideram. São pessoas que lideram.

Formando-se aqui hoje, você inicia seu trajeto rumo à liderança. Que tipo de líder você vai ser? Quanto impacto terá sobre outros? Qual será a marca que você deixará no mundo?

Temos pôsteres nas paredes do Facebook para nos recordar da importância de pensar grande - para desafiarmo-nos a fazer mais a cada dia. Há lições importantes de liderança refletidas nesses pôsteres.

Hoje, quero falar de quatro dessas lições que acho que podem ser importantes para vocês.

Primeiro: a sorte favorece os ousados.

O Facebook existe porque Mark acreditou que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas pudessem usar a tecnologia para se conectar como indivíduos.

Ele acreditava tanto nisso que abandonou a Universidade Harvard para trabalhar nessa missão, e ele lutou para continuar com ela ao longo dos anos. O que Mark fez não foi uma sorte. Foi uma ousadia.

É incomum encontrar aquilo que o apaixona quando se é tão jovem quanto Mark.

Eu mesma levei muito mais tempo para identificar o que queria fazer. Quando eu estava ali na minha beca, no dia de minha colação de grau, não teria podido pensar na possibilidade de trabalhar no Facebook, porque a Internet não existia - e Mark tinha apenas 11 anos de idade.

Eu achei que só trabalharia para o governo ou para uma organização filantrópica, porque achava que essas instituições faziam do mundo um lugar melhor, enquanto empresas trabalhavam apenas pelo lucro.

Mas, quando trabalhei no Departamento do Tesouro norte-americano, pude ver de longe o impacto que as empresas de tecnologia estavam tendo sobre o mundo, e mudei de ideia.

Por isso, quando meu emprego no governo chegou ao fim, decidi me mudar para o Vale do Silício.

Olhando em retrospectiva, parece uma iniciativa inteligente. Mas em 2001, era no mínimo questionável.

A bolha da tecnologia tinha estourado. Grandes empresas estavam demitindo em massa, e pequenas empresas estavam fechando. Eu me dei quatro meses para encontrar emprego.

Levei quase um ano. Em uma de minhas primeiras entrevistas de emprego, o CEO de uma firma de tecnologia me disse: "Sabe, concordei em entrevistá-la como um favor a um amigo, mas eu jamais contrataria alguém como você: pessoas do governo não sabem trabalhar com tecnologia".

Acabei convencendo alguém a me contratar, e hoje, 14 anos mais tarde, ainda adoro trabalhar com tecnologia. Não foi meu plano original, mas cheguei lá - com o tempo.

Espero que, se você se descobrir trilhando um caminho mas ansiando por outra coisa, encontre uma maneira de chegar lá. E, se a outra coisa não for a coisa certa para você, tente de novo.

Vá tentando até encontrar alguma coisa que o emocione, um emprego que é importante para você e para outros. Combinar o que nos apaixona com a contribuição que podemos fazer é um luxo.

E é também um caminho que conduz diretamente à felicidade.

Segundo: o feedback é uma dádiva.

No Facebook, eu sabia que o determinante mais importante de minha performance seria meu relacionamento com Mark.

Quando entrei na empresa, pedi a Mark que se comprometesse a me dar feedback todas as semanas, para que qualquer coisa que o incomodasse fosse trazida à tona e discutida rapidamente.

Mark não apenas concordou, como imediatamente acrescentou que queria que o feedback fosse recíproco.

Nos primeiros anos, criamos uma rotina e nos reunimos todas as sextas à tarde para expressar nossas preocupações, pequenas e grandes.

Com o passar dos anos, compartilhar reações francas virou parte de nosso relacionamento, e hoje nós o fazemos em tempo real, sem esperar até o fim da semana.

Obter feedback de seu chefe é uma coisa, mas tão importante quanto isso é obter feedback das pessoas que trabalham para você.

Isso não é fácil, já que funcionários muitas vezes querem agradar a seus superiores e não querem criticar ou questioná-los.

Um de meus exemplos favoritos disso vem de Wall Street. Em 1990, Bob Rubin se tornou o CEO do Goldman Sachs.

No final de sua primeira semana no cargo ele examinou a contabilidade da empresa e notou que havia grandes investimentos em ouro.

Perguntou a alguém o porquê disso. A resposta: "Foi o senhor". "Eu?", ele respondeu. Aparentemente, no dia anterior, andando pelo pregão, ele tinha comentado para alguém que "ouro parece interessante".

A frase foi repetida como "Rubin gosta de ouro", e alguém gastou centenas de milhões de dólares para deixar o novo chefe feliz.

Eu já enfrentei um desafio semelhante, em escala menor. Quando entrei para o Facebook, uma das coisas que precisava fazer era construir o lado comercial da firma, mas sem destruir a cultura movida pelo pessoal tec, que tinha tornado o Facebook tão especial.

Então uma das coisas que eu tentava fazer era desencorajar as pessoas de fazer apresentações formais em PowerPoint nas reuniões comigo.

Num primeiro momento, pedi com educação. Todo o mundo me ignorou e continuou a fazer suas apresentações. Então, depois de uns dois anos na empresa, eu falei: "Ok, de modo geral detesto regras, mas agora tenho uma regra: sem PowerPoint nas minhas reuniões".

Um mês mais tarde, mais ou menos, eu ia fazer um discurso para nossa equipe de vendas globais quando alguém me disse: "Antes de subir nesse palco é bom você saber que todo o mundo está super incomodado com a coisa de não usar PowerPoint com clientes".

Fiquei chocada. Eu não tinha proibido essas apresentações para clientes! Só não as queria em reuniões comigo.

Como poderíamos fazer apresentações para nossos clientes sem PowerPoint? Então subi no palco e falei: "Em primeiro lugar, eu quis dizer sem PowerPoint comigo. E em segundo lugar, da próxima vez em que vocês ouvirem uma má ideia - tipo não fazer apresentações boas para os clientes --, ponham a boca no trombone. Mesmo que vocês pensem que foi isso que eu pedi, me digam que estou errada!"

Um bom líder reconhece que a maioria dos funcionários fica pouco à vontade em contestar a autoridade, então cabe a quem está no cargo de autoridade pedir feedback.

Eu aprendi com meu erro ligado ao PowerPoint. Hoje pergunto a meus colegas: "O que eu poderia fazer melhor?" E sempre agradeço à pessoa que tem a coragem de me responder com franqueza; muitas vezes a elogio publicamente.

Acredito firmemente que você é um líder melhor quando caminha ao lado de seus colegas. E quando você não apenas fala, mas também ouve.

Terceiro: nada é problema de outra pessoa.

No início de minha vida profissional, eu observava pessoas em cargos de liderança e pensava "elas têm tanta sorte! Exercem tanto controle."

Imagine então minha surpresa quando fiz um curso de liderança na escola de administração e ouvi que, à medida que você chega a posições mais seniores, sua dependência de outras pessoas aumenta.

Na época, achei que meus professores estavam equivocados.

Eles tinham razão. Eu dependo de minha equipe de vendas, e não vice-versa. Se ela deixar de cumprir suas metas, o erro é meu.

Como líder, o que posso realizar não é apenas o que eu posso fazer eu mesma, mas o que fazem todos de minha equipe.

Em cada país, as empresas operam de maneiras que funcionam bem para essa sociedade.

Mas creio que existem alguns princípios de liderança que são universais, e um deles é que é melhor inspirar que dirigir. Sim, na maioria das organizações as pessoas fazem o que o chefe manda.

Mas o grande líder não quer apenas a obediência dos liderados. Ele quer suscitar entusiasmo genuíno, confiança total e dedicação real.

Não quer conquistar apenas as mentes de suas equipes, mas seus corações. Se os funcionários acreditam na missão da organização e acreditam em você, não apenas farão bem suas tarefas diárias, como as farão com entusiasmo real.

Ninguém conquistou mais corações que meu amado marido Dave Goldberg, que morreu de repente há dois meses.

Dave era um líder verdadeiramente inspirador. Era gentil. Era generoso. Tratava as pessoas com consideração. Ele elevou o nível de performance de todos que o cercavam.

Ele o fez como CEO da SurveyMonkey, uma companhia incrível que ele ajudou a construir. O fez comigo e com nossos filhos.

Um amigo nosso chamado Bill Gurley, importante capitalista de investimentos no Vale do Silício, escreveu um post em que encorajou outras pessoas a "Ser Como Dave".

Bill escreveu: "Dave mostrou a todos nós como é ser um grande ser humano. Mas nunca era frustrante, porque a grandeza de Dave não era competitiva ou ameaçadora. Era gentil, inspiradora e destituída de ego. Ele era o exemplo rematado da liderança pelo próprio exemplo."

Frances Frei, professora da Harvard Business School, diz que "a liderança é um esforço para fazer outras pessoas melhorar graças à sua presença e assegurar que esse impacto permaneça em sua ausência".

Como Dave, vocês poderão fazer isso por outros ao longo de suas vidas profissionais.

Quarto: faça acontecer.

Como diz o provérbio chinês, "as mulheres sustentam metade do céu". Esse ditado é citado em todo o mundo, e as mulheres exercem um papel especial na história e no presente da China.

Quando o mundo se reuniu para discutir o status e o progresso das mulheres, nós o fizemos aqui em Pequim. Em 1995, a Declaração e Plataforma de Ação de Pequim - que previu a participação plena e igual das mulheres na vida e na tomada de decisões - foi adotada por 189 governos.

No ano passado, no vigésimo aniversário dessa declaração história, líderes se reuniram novamente aqui para mobilizar-se em torno de algo que ficou conhecido como a promessa de Pequim: a igualdade entre homens e mulheres.

Contudo, ao mesmo tempo em que todos reconhecemos a importância e força das mulheres, quando olhamos para os papéis de liderança em todos os países, a grande maioria é ocupada por homens.

Em quase todos os países do mundo - incluindo os Estados Unidos e a China --, menos de 6% das maiores empresas é comandado por mulheres.

As mulheres exercem menos papéis de liderança em todos os setores. Isso significa que, quando se trata de tomar as decisões que afetam a todos nós, as vozes das mulheres não são ouvidas igualmente.

O abismo de gêneros na liderança se deve a muitas razões: discriminação pura e simples, responsabilidade maior em casa, falta de flexibilidade no trabalho e, o que é importante, nossas expectativas estereotipadas.

Enquanto as culturas em todo o mundo diferem, nossos estereótipos relativos a homens e mulheres são notavelmente semelhantes.

Embora o status das mulheres esteja mudando e evoluindo na China e em muitas partes do mundo, as expectativas e os estereótipos tradicionais ainda permanecem.

Até hoje, nos EUA, na China e em todo lugar, a expectativa é que os homens liderem, sejam assertivos e tenham sucesso.

Quanto às mulheres, espera-se que compartilhem, sejam comunitárias e cedam diante de outros. Esperamos liderança da parte de garotos e homens. Mas quando uma garotinha lidera, nós a descrevemos como "bossy" (mandona) em inglês, ou "qiang shi" em chinês.

Outras barreiras sociais também geram obstáculos ao avanço das mulheres.

As mulheres frequentemente são excluídas de redes profissionais, como o Guanxi, e dos contatos sociais formais e informais que são cruciais para o avanço na vida profissional.

Isso acontece também nos Estados Unidos, onde os homens muitas vezes escolhem ser mentores de outros homens, em vez de mulheres.

Eu acredito que o mundo seria um lugar melhor se os homens comandassem metade de nossos lares e as mulheres comandassem metade de nossas instituições.

E a boa notícia é que podemos mudar os estereótipos e conquistar a igualdade real. Podemos dar apoio às mulheres que lideram no mundo do trabalho.

Podemos encontrar mais equilíbrio em casa, com pais ajudando as mães com as tarefas domésticas e a criação dos filhos; casamentos com mais igualdade são mais felizes, e pais mais ativos criam filhos mais bem-sucedidos.

Podemos nos aproximar de alguém que está chamando uma garotinha de "mandona" e dizer, em vez disso: "Essa menininha não é mandona. Ela possui qualidades de liderança executiva."

E quero deixar muito claro: a igualdade não beneficia apenas as mulheres. Ela é boa para todos.

A participação feminina no trabalho é um dos grandes fatores que impulsionam o crescimento econômico.

As empresas que reconhecem os talentos da população como um todo superam o desempenho das que não o fazem.

Jack Ma, o CEO da AliBaba, que esteve neste pódio no ano passado, disse que "um dos molhos secretos do sucesso da AliBaba é que temos muitas mulheres. Sem mulheres, não haveria AliBaba."

Quarenta por cento dos empregos e 35% dos cargos seniores na AliBaba são ocupados por mulheres, muito mais que na maioria das empresas em qualquer lugar do mundo.

Os grandes líderes não promovem o desenvolvimento apenas de pessoas como eles, eles promovem o desenvolvimento de todos.

Se você quiser ser um grande líder, promoverá o desenvolvimento das mulheres, além dos homens, em suas empresas e suas equipes.

Nossos pares também podem nos ajudar a nos desenvolver. Quando Faça Acontecer (Lean In) foi publicado, em 2013, lançamos a organização sem fins lucrativos LeanIn.org, cuja missão é empoderar todas as mulheres a realizar suas ambições.

A LeanIn.Org ajuda a formar "Lean In Circles", grupinhos de pares que se reúnem regularmente para compartilhar e aprender juntos. Hoje existem mais de 23 mil círculos em mais de cem países.

O primeiro Lean In Circle internacional com quem me reuni foi em Pequim. Era um grupo de mulheres, profissionais jovens que se reuniam para dar apoio às ambições profissionais umas das outras e contestar a ideia das "shengnu", ou mulheres que sobraram.

Nos últimos dois anos elas construíram uma rede de Círculos em toda a China, que reúnem desde profissionais empregados até estudantes universitários, homens e mulheres, que se reúnem para fomentar a igualdade.

Um desses Círculos está na Tsinghua, e eu me reuni com ele hoje pela manhã. Me senti inspirada pela paixão de seus membros por seus estudos e suas carreiras.

Como uma participante me disse, "foi quando primeiro entrei para o Lean In Tsinghua que comecei a entender plenamente o ditado chinês segundo o qual 'uma causa justa tem apoio abundante'".

Acredito que a geração de vocês vai fazer um trabalho melhor que a minha em resolver o problema da desigualdade de gêneros. Por isso, recorremos a vocês. Vocês constituem a promessa de um mundo mais igualitário.

Hoje é dia de comemoração. Um dia para festejar as conquistas de vocês, o trabalho duro que trouxe vocês até este momento.

Este é um dia de gratidão. Um dia para agradecer às pessoas que os ajudaram a chegar até aqui: as pessoas que cuidaram de vocês, os ensinaram, os animaram e enxugaram suas lágrimas.

Hoje é um dia de reflexão. Um dia para refletir sobre o tipo de líderes que vocês querem ser.

Acredito que vocês são os líderes do futuro, não apenas da China, mas do mundo. E desejo quatro coisas para cada um de vocês:

1. Que você seja ousado e tenha boa sorte. A sorte favorece os corajosos.

2. Que você dê e receba o feedback de que necessita. O feedback é uma dádiva.

3. Que você empodere a todos. Nada é problema de outra pessoa.

4. Que você promova a igualdade. Faça acontecer!

Parabéns!