OPINIÃO
03/06/2015 18:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Escolhendo a vida e encontrando sentido 30 dias depois da morte de Dave

Acho que, quando acontece uma tragédia, uma escolha se apresenta. Você pode se entregar ao vazio que enche o seu coração, seus pulmões, restringe sua capacidade de pensar ou mesmo de respirar. Ou você pode tentar encontrar um significado.

Hoje é o fim do sheloshim para o meu amado marido -- os primeiros 30 dias. O judaísmo pede um período de luto intenso, conhecido como shiva, que dura sete dias depois do enterro de um ente querido. Depois do shiva, a maioria das atividades normais pode ser retomada, mas é o fim do sheloshim que marca o término do luto religioso por um cônjuge.

Um amigo de infância que é agora rabino me disse recentemente que a mais poderosa oração que ele já leu é: "Que eu não morra enquanto ainda estiver vivo". Nunca teria entendido essa oração antes de perder Dave. Agora entendo.

Acho que, quando acontece uma tragédia, uma escolha se apresenta. Você pode se entregar ao vazio que enche o seu coração, seus pulmões, restringe sua capacidade de pensar ou mesmo de respirar.

Ou você pode tentar encontrar um significado. Nestes últimos 30 dias, passei muitos dos meus momentos perdida nesse vazio. E sei que muitos momentos futuros também serão consumidos por esse imenso vazio.

Mas, quando puder, quero escolher a vida e o significado.

E é por isso que estou escrevendo: para marcar o fim do sheloshim e para retribuir um pouco do que outros me deram. Embora a experiência do luto seja profundamente pessoal, a coragem daqueles que compartilharam as suas próprias experiências me ajudou a atravessar esse período. Alguns dos que abriram seus corações eram meus amigos mais próximos. Outros eram completos estranhos, que compartilharam publicamente sua sabedoria e seus conselhos. Então estou compartilhando o que aprendi, na esperança de que isso ajude alguém. Na esperança de que possa haver algum significado nessa tragédia.

Vivi 30 anos nesses 30 dias. Estou 30 anos mais triste. Me sinto 30 anos mais sábia.

Ganhei uma compreensão mais profunda do que é ser mãe, tanto pela profundidade da agonia que sinto quando meus filhos gritam e choram quanto pela conexão que minha mãe tem com minha dor. Ela tentou preencher o espaço vazio da minha cama, me abraçando todas as noites até eu dormir de tanto chorar. Ela lutou para conter suas próprias lágrimas para dar espaço às minhas. Ela me explicou que a angústia que sinto é tanto minha como dos meus filhos, e entendi que ela estava certa, pois vi a dor nos olhos dela.

Aprendi que nunca realmente soube o que dizer para outras pessoas numa hora de necessidade. Acho que tinha entendido tudo errado; tentei reassegurar as pessoas de que estava tudo bem, achando que esperança era a coisa mais reconfortante que eu poderia oferecer.

Um amigo meu com câncer em estágio final me disse que a pior coisa que as pessoas poderiam lhe dizer é: "Vai ficar tudo bem". Aquela voz na cabeça dele gritava: "Como você sabe que vai ficar tudo bem? Você não entende que eu poderia morrer?"

Aprendi neste último mês que ele estava tentando me ensinar. Às vezes, empatia real é não insistir que vai ficar tudo bem e sim reconhecer o contrário. Quando as pessoas me dizem: "Você e seus filhos vão encontrar a felicidade novamente", meu coração me diz: "Sim, acredito nisso, mas sei que nunca vou sentir alegria tão pura de novo". Aqueles que disseram: "Você vai encontrar um novo normal, mas nunca será tão bom" me confortam mais, porque conhecem e falam a verdade.

Até mesmo um simples "Como você está?" - uma pergunta quase sempre feita com a melhor das intenções - seria melhor se fosse substituído por "Como você está hoje?" Quando me perguntam "Como você está?", tento não gritar: "Meu marido morreu há um mês, como você acha que eu estou?" Quando ouço: "Como você está hoje?", percebo que a pessoa sabe que o melhor que posso fazer agora é chegar ao final de cada dia.

Aprendi algumas coisas práticas que importam. Embora agora saibamos que Dave morreu imediatamente, não sabia disso na ambulância. O caminho até o hospital foi insuportavelmente lento.

Ainda odeio todos os carros que não abriram caminho, cada pessoa que se preocupava mais em chegar ao seu destino alguns minutos mais cedo do que em abrir espaço para que pudéssemos passar. Tenho reparado nisso quando dirijo em vários países. Vamos todos sair da frente. O pai ou parceiro ou filho de alguém pode depender disso.

Aprendi como tudo pode parecer tão efêmero -- e talvez tudo seja efêmero. Que todo tapete sob seus pés pode ser puxado, sem absolutamente nenhum aviso.

Nos últimos 30 dias, conversei com muitas mulheres que perderam o cônjuge e, em seguida, tiveram o tapetes puxados sob seus pés. Algumas não têm redes de apoio e enfrentam sozinhas o sofrimento emocional e a insegurança financeira. Parece tão errado para mim abandonar essas mulheres e suas famílias quando elas estão numa hora de tamanha necessidade.

Aprendi a pedir ajuda -- e aprendi o quanto preciso de ajuda. Até agora, sempre fui a irmã mais velha, a COO, o executora e a planejadora. Não planejei isso e, quando aconteceu, não fui capaz de executar nada.

Aqueles mais próximos a mim assumiram a responsabilidade. Eles planejaram. Eles coordenaram. Eles me disseram onde sentar e me lembraram de comer. Eles ainda estão fazendo muito para apoiar a mim e a meus filhos.

Aprendi que resiliência pode ser aprendida. Adam M. Grant ensinou-me que três coisas são fundamentais para a resiliência, e posso trabalhar as três.

Personalização -- perceber que não é minha culpa. Ele me disse para banir a palavra "desculpe". Para repetir para mim mesma sem parar: "Não é minha culpa".

Permanência -- lembrar que não vou me sentir assim para sempre. As coisas vão melhorar.

Compartimentalização -- isso não tem de afetar todas as áreas da minha vida; a capacidade de compartimentalizar é saudável.

Para mim, começar a transição de volta ao trabalho foi uma salvação, uma chance de me sentir útil e conectada. Mas descobri rapidamente que até mesmo essas conexões haviam mudado. Muitos dos meus colegas tinham medo em seus olhos quando eu me aproximava. Sabia o motivo -- eles queriam ajudar, mas não sabiam como. Devo tocar no assunto? Devo não tocar no assunto? Se tocar no assunto, que diabos eu digo? Percebi que para restaurar essa proximidade com os meus colegas, algo que sempre foi tão importante para mim, precisava deixá-los entrar. E isso significava ser mais aberta e vulnerável do que sempre quis ser.

Disse a aqueles com quem trabalho mais de perto que eles poderiam fazer perguntas honestas; eu as responderia. Também disse que tudo bem se ele quisessem falar como se sentiam. Uma colega admitiu que passava de carro na frente da minha casa com freqüência, mas não tinha certeza se deveria entrar. Outro disse que se sentia paralisado quando eu estava por perto, por medo de dizer alguma coisa errada.

Falar abertamente substituiu o medo de fazer e dizer a coisa errada. Um dos meus desenhos animados favoritos de todos os tempos tem um elefante atendendo o telefone, dizendo: "É o elefante". Quando lidamos com o elefante, conseguimos chutá-lo para fora da sala.

Ao mesmo tempo, há momentos em que eu não posso deixar as pessoas entrarem. Fui a um evento na escola dos meus filhos em que as crianças mostram para os pais os trabalhos pendurados nas paredes da sala de aula. Muitos dos pais -- todos têm sido muito amáveis - tentaram fazer contato visual ou dizer algo que eles achavam que seria reconfortante. Eu olhei para o chão o tempo todo. Não queria cruzar o olhar com ninguém, por medo de cair no choro. Espero que eles tenham entendido.

Aprendi gratidão. Gratidão verdadeira pelas coisas que dava de barato no passado -- como a vida. Apesar de estar com o coração partido, olho para os meus filhos a cada dia e me alegro por eles estarem vivos. Aprecio cada sorriso, cada abraço, cada dia. Quando um amigo me disse que odeia aniversários e que não iria comemorar o seu, olhei para ele e disse, às lágrimas: "Comemore seu aniversário. Você conta com a sorte de ter cada um deles". Meu próximo aniversário será superdeprimente, mas estou determinada a comemorá-lo no meu coração como nunca comemorei um aniversário antes.

Sou realmente grata aos muitos que ofereceram a sua simpatia. Um colega me disse que sua esposa, que nunca conheci, decidiu mostrar o seu apoio voltando à escola para obter seu diploma - algo que ela vinha adiando havia anos. Yes! Quando as circunstâncias permitem, acredito como nunca que devemos fazer acontecer. E tantos homens - dos que eu conheço aos que nunca vou conhecer -- estão honrando a vida de Dave passando mais tempo com suas famílias.

Não consigo nem sequer expressar a gratidão que sinto pela minha família e pelos amigos que tanto fizeram e me asseguraram de que vão continuar à disposição. Nos momentos brutais, quando estou tomada pelo vazio, quando os meses e anos se estendem infinitos e vazios diante dos meus olhos, só seus rostos para me tirar do isolamento e do medo. Meu apreço por eles não tem limites.

Estava conversando com um desses amigos sobre uma atividade pai-filho que Dave não está aqui para fazer. Bolamos um plano para substituir Dave. Chorei com ele: "Mas eu quero Dave. Eu quero a opção A". Ele colocou o braço nos meus ombros e disse: "A opção A não está disponível. Então, vamos botar pra fuder com a opção B".

Dave, para honrar a sua memória e criar seus filhos como eles merecem ser criados, prometo botar pra fuder com a opção B. E, mesmo que o sheloshim tenha terminado, ainda estou de luto pela opção A. Sempre vou chorar pela opção A. Como cantou Bono: "Não há fim para o sofrimento... e não há fim para o amor". Te amo, Dave.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.