OPINIÃO
21/05/2014 14:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

"Brasileiros são improdutivos, perdem tempo e nem sequer vão ao trabalho"

Reprodução

Trabalhadores brasileiros são "gloriosamente improdutivos". Eles "perdem tempo" e, "metade nem sequer vai para o trabalho". Trabalhadores brasileiros também são "mal administrados". Estes são apenas alguns dos comentários feitos em um artigo da revista The Economist - assunto que tem causado uma reação furiosa em muitos brasileiros.

Alguns dos comentários na parte de baixo do artigo (e no Facebook, no Twitter, etc.) mostram como as pessoas no Brasil ficaram chateadas, e com razão, com o The Economist (lembram da capa com o Cristo Redentor de cabeça para baixo no início deste ano?). Por exemplo, "Ebitencourt" respondeu ao artigo dizendo: "Que vergonha desse seu racismo (do The Economist)". "Dr Alberto" disse para o autor: "Nós não vamos mais servir como escravos de gringos capitalistas. Nós não precisamos desse tipo de sanguessuga. Vão embora!". Ouch!

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Alguns desses comentários, para falar a verdade, são de brasileiros que não vêem problema em criticar o próprio Brasil, mas não gostam de ver qualquer outra pessoa fazendo o mesmo. No entanto, eu entendo completamente o porquê deles estarem chateados com o artigo e com o The Economist - já falei no meu blog como que ultimamente jornalistas de todo o mundo têm sido injustos ao escrever sobre o Brasil.

Em primeiro lugar, vou ter que defender o The Economist por uma única razão: temos que ter em mente quem são os seus leitores. São investidores internacionais. São pessoas que não se importam com os "porquês". O que realmente importa para eles são os lucros. Eles querem investir dinheiro em um país, e esperam lucrar com isso. Se eles não tiverem retorno é que vão perguntar o porquê. E tudo o que importa para o The Economist é que esses investidores estejam felizes - sendo assim, é muito fácil chegar a conclusões básicas, mesmo que imprecisas. A economia do Reino Unido (onde a revista é escrita) e a do Brasil produzem praticamente o mesmo PIB. Porém, a Grã-Bretanha tem uma população de cerca de 60 milhões de habitantes, e o Brasil tem 200 milhões. Estes números sugerem que cada um britânico cria o mesmo PIB que outros quatro brasileiros juntos. E esta é a simples conclusão do The Economist: que os brasileiros devem ser preguiçoso.

E claro, isso é um absurdo.

Os investidores que lêem a revista não estão muito contentes com o Brasil agora. Ano passado eles tanto não tiveram nenhum lucro com os seus investimentos no mercado de ações brasileiro, como teve gente que acabou mesmo é perdendo dinheiro. Qualquer país capitalista tem que aceitar a pressão de investidores fazendo perguntas. Mesmo assim, a avaliação do The Economist de que os brasileiros são "preguiçoso" está muito longe da verdade. A revista ignorou vários fatores sócio-econômicos e se baseou em equívocos injustos e inverídicos.

É claro que, assim como eu, todo mundo sabe da verdade. O brasileiro é um povo trabalhador. Os que eu conheço já estão no escritório desde as 8 da manhã, e não saem de lá antes das 8 da noite, enquanto a grande maioria do mundo relaxa no confortável horário das 9 às 17h. O brasileiro estuda mais, e mais pesado, do que qualquer outro povo que eu já conheci. A importância de ter uma boa formação universitária no Brasil para conseguir um emprego comprova isso. E aqueles que fazem o trabalho físico, o fazem num calor insuportável, e muitas vezes trabalham o dia todo em circunstâncias difíceis.

Pelo o que eu posso ver, o Brasil é uma nação de pessoas que realmente trabalham duro. O problema é que esses trabalhadores estão dando duro em um sistema que os mantém para baixo. As ineficiências, papeladas, burocracia e política no Brasil significam que as pessoas têm que trabalhar o dobro para conseguir fazer com que as coisas funcionem. Por exemplo, a quantidade de papel e números que pequenas empresas têm que juntar só para fazer uma simples declaração de imposto de renda é incompreensível. O The Economist certamente não entende - ou não se importa - com nada disso.

A chave para tudo isso é através da política, e foi também por isso que eu disse recentemente que pessoas como Romário poderiam ser uma estrela brilhante no futuro do Brasil. Se o governo brasileiro pudesse superar esses obstáculos, focar em projetos de infra-estrutura em vez de só ficar discutindo sobre eles, reduzir a corrupção e a ineficiência, e deixar cada um fazer o seu trabalho, aí sim essa nação de trabalhadores colocará o resto do mundo no chinelo - e eu mal posso esperar pelo dia que vocês calarão a boca do The Economist.

Este texto foi traduzido para o português pela minha esposa, a publicitária e blogueira Marielle Machado.

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