OPINIÃO
12/05/2015 09:40 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Supercivilizações: o que elas querem de verdade?

Onde estão os aliens superavançados? Num estudo recente, astrônomos da Penn State University procuraram num enorme pedaço de espaço - cerca de 100 000 galáxias - e não conseguiram encontrar evidências claras de impérios alienígenas.

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Onde estão os aliens superavançados? Num estudo recente, astrônomos da Penn State University procuraram num enorme pedaço de espaço - cerca de 100 000 galáxias - e não conseguiram encontrar evidências claras de impérios alienígenas.

À primeira vista, é um resultado extraordinário, uma vez que o Universo tem mais de 13 bilhões de anos. Com certeza é tempo mais que suficiente para que pelo menos umas poucas espécies alienígenas estabeleçam um império daqueles tão amados pelos fãs de ficção científica.

Será que não tem mais ninguém no Universo? Estamos livres para nos declarar os maiorais do poder cerebral nessas partes do cosmos e garantir que não há Klingons em um raio de 50 milhões de anos-luz?

Pode ser um pouco de exagero. Vamos considerar o que o pessoal da Penn State realmente fez. Em um trabalho muito inteligente, eles usaram o telescópio especial WISE (Wide-Field Infrared Survey Explorer), da NASA, para medir a luz infra-vermelha vinda de todas essas galáxias. O infra-vermelho é produzido por qualquer coisa quente - pelo calor.

A segunda lei da termodinâmica diz que o calor é o produto final de qualquer tipo de atividade. Seu carro solta gases quentes pelo escapamento, sua TV esquenta... O calor residual é o cemitério de todos os processos que usam energia, ou seja, todos os processos. Até mesmo gravar um byte em seu disco rígido gera algum tipo de calor. Assim como apagá-lo.

Onde há calor há luz (pelo menos luz infra-vermelha), portanto os astrônomos da Penn State estava caçando galáxias que gerassem muito mais que as quantidades normais de infra-vermelho. Poderia ser um indicador do que se chama uma civilização Tipo III - as civilizações faixa-preta --, capaz de reunir os recursos energéticos de uma galáxia inteira para servir de combustível para os estilos de vida ultra-avançados de seus residentes. Toda essa atividade geraria quantidades prodigiosas de calor residual. Era isso o que os astrônomos estavam procurando.

Mas a busca foi infrutífera. Em nenhuma das galáxias pesquisadas a energia de calor era comparável à energia total da luz irradiada pelas estrelas. Droga.

Mas calma lá. O que isso quer dizer, na verdade?

Permita-me te aborrecer com alguns números. Primeiro, considere o que os astrônomos poderiam ter detectado. Se você somar todo o brilho das estrelas de uma galáxia típica, o total é cerca de 10 bilhões de vezes mais do que é emitido pelo nosso Sol, ou 4 trilhões trilhões trilhões de watts. Então, os pesquisadores da Penn State estavam procurando galáxias que produzissem mais ou menos essa quantidade (ou mais) de energia residual.

Provavelmente esse número está além de sua experiência cotidiana. Mas considere as implicações. Hoje sabemos que uma galáxia semelhante à nossa poderia conter até 100 bilhões de planetas habitáveis. Mesmo que cada um desses mundos contivesse uma civilização avançada, cada um deles teria de queimar até 1 trilhão de vezes a energia de todos os Homo sapiens juntos para que essa galáxia aparecesse na pesquisa dos astrônomos da Penn State. Isso mesmo: 1 trilhão de vezes o número de kilowatts de toda a iluminação, aquecimento, transporte, guerras e outros entretenimentos - por planeta.

É pedir muito, e obviamente essas supercivilizações alienígenas teriam de ser muito diferentes da nossa. Talvez cada um de seus planetas tenha 1 trilhão de vezes mais gente que a população da Terra. Ou, no outro extremo, talvez seus estilos de vida sejam 1 trilhão de vezes mais perdulários que o nosso. Pode me chamar de conservador, mas nenhuma das alternativas parece muito razoável.

O verdadeiro problema aqui (se você achar que temos um problema) é que nosso conceito de supercivilizações presume que elas tenham a mesma mentalidade que a nossa; que elas querem o que nós queremos. Acreditamos que existe uma lei universal que insiste que as sociedades avançadas estão sempre numa fúria colonizadora, tomando controle das galáxias. Quanto maior, melhor.

Mas, embora essa visão de aliens combine com o plano de Darth Vader, será que é isso mesmo o que fazem as sociedades sofisticadas? Manter um império que se estenda por 100 000 anos-luz representa vários problemas - começando com a velocidade finita de foguetes e das ondas de rádio.

Além disso, considere isso: nas últimas décadas, finalmente começamos a explorar o fato de que há muitos benefícios em fazer as coisas menores, em vez de maiores (pense nos seus aparelhos eletrônicos). Como disse certa vez o físico Richard Feynman discutindo a escala das coisas: "Há muito espaço para baixo".

Também temos a tendência de achar que os extraterrestres vão aumentar seu consumo energético per capita de maneira implacável - um dado que há muito representa o padrão de vida em nossa sociedade: quanto mais energia consumimos, mais desenvolvidos somos. Mas talvez o que aconteça é que a tecnologia se torne muito eficiente, e o consumo de energia parece de crescer.

Em outras palavras, a ideia de que ser altamente avançado implica ter mais coisas consumindo mais energia pode ser uma aberração antropocêntrica.

E, a propósito, caso os números aqui mencionados tenham anestesiado seu neocórtex, vamos deixar as implicações deles bem claras: o estudo da Penn State afastou a existência de um certo tipo de sociedade. Mas ele não limita as possibilidades de uma miríade de outros tipos de civilizações extraterrestres. Essas 100 000 galáxias podem com certeza estar cheias de seres inteligentes - sejam biológicos ou artificiais - que vivem felizes da vida com orçamentos energéticos nem um pouco extremos.

Portanto, ainda é plausível que tenhamos companhia. Não, as novas observações não condizem com o que se retrata na ficção. Mas o que nossa espécie considera desejável hoje - 200 000 anos depois do Homo Sapiens 1.0 - com certeza vai parecer tolo se chegarmos ao ponto de colonizar a galáxia. Guerra nas Estrelas representa nossa visão de futuro de hoje, não necessariamente a de nossos descendentes ou de outras espécies.

Recomendo ter perspectiva: os outros habitantes do universo são alienígenas - ou seja, são diferentes de nós.

Esse post é parte de uma série que comemora os 10 anos do The Huffington Post. Especialistas olham para a próxima década em suas respectivas áreas. Para ler todos os posts da série, clique aqui.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.