OPINIÃO
08/10/2014 09:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Paratodos

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Meus avós eram baianos. Julio Cesar, pai do meu pai, era de Dom Basílio. Ele e os irmãos vieram para o sul, e o norte do Paraná e a região de Catanduva, interior paulista, devem um pouco de seu desenvolvimento ao trabalho dos Bomfim nas empreitadas, quando as hoje cidades eram terrenos gigantescos cobertos de mato e isolados dos grandes centros.

Francisco , pai da minha mãe, veio de Senhor do Bomfim. Também desceu o Brasil com os irmãos, em busca de oportunidades. Com muito trabalho, os Silveira fincaram raízes e a família cresceu de Itaquera, zona leste de São Paulo, a Santos, no litoral.

Vô Chico - ou tio Fazinho, como era chamado pelos meus primos - trabalhou como cuidador dos cavalos de uma indústria de bebidas (cervejas e refrigerantes eram transportados em carroças, na São Paulo dos anos 40), foi gerente de cinema e funcionário de cartório. Dormia sentado numa cadeira de frente à janela do quarto, em busca da quantidade possível de ar na luta contra a asma.

Em abril de 1993 a saúde se deteriorou e fui visitá-lo no hospital onde agonizava. Ele me mostrou um pedaço de papel no qual redigiu seu último desejo: que o genro Milton (meu pai), o levasse para votar no plebiscito do presidencialismo/parlamentarismo.

Meu avô argumentou que jamais tinha deixado de votar - apenas no período da nefasta ditadura militar - e, mesmo doente, não seria desta vez que abriria mão, ameaçando até acionar a justiça.

Não foi preciso: o hospital liberou e no feriado de Tiradentes ele fez o derradeiro contato com as urnas.

Escrevo este post enquanto leio as pesadas manifestações contra nordestinos nas redes sociais, mais uma vez, pelo 'crime' de votar num dos (as) candidatos(as) à presidência da República.

A quem pensa assim, o meu pesar. Sem o Nordeste, este país seria infinitamente mais pobre, em todos os sentidos. E talvez muitos dos que se expressam desta forma não estivessem aqui.

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