OPINIÃO
08/07/2014 13:32 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Campos de Carvalho e o cânone literário

Apesar do seu talento, Walter Campos de Carvalho é praticamente um anônimo comparado aos mais conhecidos nomes da literatura brasileira. Deixou 6 romances e só recentemente o teatro se interessou por ele.

Aos dezesseis anos matei meu professor de Lógica. Invocando a legítima defesa - e qual defesa seria mais legítima? - logrei ser absolvido por 5 votos contra 2, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.

Esta é uma das frases iniciais mais arrebatadoras entre todos os romances já escritos e os que ainda estão para ir ao prelo, "A Lua vem da Ásia", do escritor Campos de Carvalho.

Um dia desses, eu tomava café com amigos numa livraria, dessas em que podemos folhear qualquer exemplar confortavelmente em sofás sem a (quase) obrigação da compra. Citei o Campos, e eles, que leem bastante, jamais haviam ouvido falar dele.

Insisti, e procurei um atendente. Ele me disse que "Obra Reunida", uma edição da José Olympio, está esgotada, sem previsão de relançamento.

Comparado aos nomes mais conhecidos da literatura brasileira, Walter Campos de Carvalho é praticamente um anônimo. Pouco se escreveu sobre ele: uma googlada dá 132 mil resultados, o que é pouco comparado a Machado de Assis (mais de um milhão). Não é estudado nas escolas, tampouco tenho registros se caiu no vestibular. Sequer foi cogitado para vestir o fardão e tomar chá na ABL. Deixou seis romances, dos quais teria renegado dois - "Tribo" e "Banda Forra". Os quatro remanescentes formam a "Obra Reunida" que pedi no balcão da livraria, e ele deveria considerar isso suficiente. São, além do já citado "Lua", "A Vaca de Nariz Sutil", "Chuva Imóvel" e "O Púcaro Búlgaro".

Só recentemente o teatro se interessou por ele.

Sobre sua biografia, sei que ele era parente do também escritor Mario Prata, era mineiro, foi advogado, ateu e iconoclasta, não necessariamente nessa ordem. Gostava do seu senso de humor, beirando o nonsense por vezes.

"Chegou o professor Radamés, com mala e tudo.

- Vi que o sr. morava sozinho e resolvi morar sozinho com o senhor.

- Só que há a Rosa, que também mora sozinha. Assim seremos três a

morar sozinhos."

Há ainda poucos artigos ou estudos sobre ele - muito bons, aliás. Eu sei mais sobre a obra de Campos de Carvalho lendo a própria. Campos está fora do cânone literário , ou talvez o cânone literário estivesse fora dele.

E quem escreveu :

Já me vai aborrecendo a inconsciência com que essa gente se alimenta e

se espairece ao sol, como se estivesse apenas numa estação de veraneio e a mil milhas de qualquer perigo iminente.

...talvez não se importasse com isso mesmo.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.

Para ver as atualizações mais rápido ainda, clique aqui.