OPINIÃO
17/07/2014 17:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Quanto custa mentir?

Getty

Quem já mentiu sabe: faltar com a verdade pode ser custoso. Você pode sofrer algum tipo de punição externa -- que pode ser reputacional -- ou mesmo ter que lidar com o desconforto psicológico de estar fazendo algo em desalinhamento com sua identidade moral, seus valores.

Dia desses, por exemplo, a hostess de um restaurante me perguntou o que achei da comida do chef. "Muito boa", disse eu. Baita mentira. Achei sem graça. Até que bem enfeitada, mas sem alma, sem aquele "soco" de sabor. Me senti mal pelo feedback insincero.

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Custoso como possa ser, o fato é que as pessoas mentem. E, diz a teoria padrão, mentirão sempre que for materialmente benéfico assim agir. Isso tem de fato sido sistematicamente documentado em experimentos de laboratório sobre o tema (ver, por exemplo, Gneezy (AER 2005) e Houser et al. (EER 2012)). Johannes Abeler, Anke Becker e Armin Falk sugerem, no entanto, que a aversão a mentir é maior do que esses experimentos em laboratório sugerem. O estudo está aqui.

O experimento é simples. Eles ligam para os participantes -- uma amostra representativa da população alemã -- e pedem que joguem uma moeda e relatem o resultado: se der coroa, ganham 15 Euros (em dinheiro ou na forma de um vale-presente da Amazon). Se der cara, levam nyet, nada, zilt. Os incentivos para mentir aqui são claros: rende uns bons trocados, é impossível de ser detectado e dificilmente vai ter alguma consequência reputacional, já que o entrevistador é um completo estranho com quem o participante não espera interagir. Mesmo assim, os resultados são intrigantes: 44.4% dos participantes disseram ter observado coroa (que rendia 15 Euros), o que é ligeiramente menos do que o que seria esperado. Em um outro experimento, no qual os participantes tem agora que reportar o resultado de 4 jogadas consecutivas da moeda, os resultados são os mesmos: os números agregados seguem de perto a distribuição esperada sob a hipótese de completa honestidade. Très admirable.

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Não é claro saber o que exatamente está acontecendo aqui. Preocupação com auto-reputação? Preferências sobre seu "identity type" (à la Benabou e Tirole)? Força de normas sociais?

É provável que essas coisas estejam todas misturadamente interagindo aqui. O fato é que tomado à luz das outras dezenas de estudos sobre mentira, esse estudo sugere que o contexto parece ativar alguma norma social cujo custo de violação é não trivial.

Uma coisa é clara: Quando mentir tem custos, talk is not cheap.

Texto publicado originalmente no blog Economista X.

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