OPINIÃO
15/09/2015 17:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Fechar as fronteiras é uma ilusão política, e vai provocar uma catástrofe

Se as fronteiras abertas só valem para que europeus tirem férias sem precisar usar passaportes e para que produtos sejam exportados sem barreiras comerciais, o Acordo de Schengen terá virado um belo pedaço de papel

ATTILA KISBENEDEK via Getty Images
A young girl of a migrant's family is helped by her father as they creep under a barbed fence near the village of Roszke, at the Hungarian-Serbian border on August 27, 2015. As Hungary scrambles to ramp up defences on its border with Serbia, refugees continued to surge into the country in record numbers, police figures confirmed. AFP PHOTO / ATTILA KISBENEDEK (Photo credit should read ATTILA KISBENEDEK/AFP/Getty Images)

Imagine que você tenha vendido sua casa e seus valiosos pertences para pagar um contrabandista duvidoso, que você nem sequer conhecia pessoalmente. Agora imagine que você tenha arriscado sua vida e a de pessoas queridas para atravessar o Mediterrâneo no meio da noite.

Você se defendeu dos brutais guardas de fronteira na Macedônia, aguentou a desolação da estação de trem de Belgrado e fugiu da penúria que lhe foi infligida em Budapeste.

Sinceramente: você seria detido por uma estrada na fronteira da Alemanha com a Áustria? Ninguém seria tão estúpido.

Mas obviamente o governo alemão parece acreditar ter encontrado uma saída para os problemas que vêm se acumulando há anos na periferia da Europa. A volta das patrulhas de fronteira no sul da Alemanha não será capaz de conter o fluxo de refugiados.

Especialmente porque isso não resolve o problema original que provocou o fluxo de refugiados.

Thomas de Maizière, o secretário do interior alemão, pertence à União Cristã Democrática da Associação Nacional Alemã (CDU), na Saxônia, um partido que não é exatamente conhecido por suas políticas visionárias em relação à imigração.

De Maizière está praticando uma política de "ilusionismo" para os direitistas de seu partido. Ele quer demonstrar sua disposição de agir face à crise dos refugiados. Mas ele está brincando com fogo.

Consequentemente, Bernd Lucke, diretor do AfD, demonstrou seu contentamento com a decisão. Ele disse ao HuffPost Germany: "Essa decisão demorou para ser tomada".

A diretora do Partido Verde Simone Peters argumenta contra esse sentimento. "Novas patrulhas de fronteira e um caminho que leva ao suicídio nacional são o completo oposto da política humanitária essencial da União Europeia", disse ela ao The Huffington Post.

Mas esta não é a primeira vez que um país europeu declara que o Acordo de Schengen é uma massa de manobra política. A Dinamarca, por exemplo, mostrou o caminho. Entretanto, na história europeia não há precedentes de um país colocando em jogo com tanta ousadia as conquistas da integração europeia.

Seria verdadeiramente interessante ouvir o que o ex-primeiro-ministro Helmut Kohl teria a dizer sobre os titubeios de seus herdeiros políticos. Mas, depois de uma operação na bacia, Kohl, de 85 anos, está internado em um hospital de Heidelberg. De lá, ele assiste o trabalho de toda uma vida sendo colocado em risco.

Se as fronteiras abertas só valem para que europeus tirem férias sem precisar usar passaportes e para que produtos sejam exportados sem barreiras comerciais, o Acordo de Schengen terá virado um belo pedaço de papel - que um dia desses vai acabar juntando pó no Museu da História da Alemanha, em Bonn.

A loucura dessa decisão pode ser lida na íntegra no apelo de De Maizière em favor da Regulamentação de Dublin. Durante semanas, era consenso em Berlim que, em relação à enxurrada de imigrantes na fronteira sul do país, o acordo não era nada além de desperdício de papel - afinal de contas, Grécia e Itália nem sequer conseguem lidar com o registro de centenas de milhares de refugiados.

Angela Merkel ofereceu garantias pessoais de que os refugiados sírios - se eles chegassem à Alemanha - não seriam impedidos de entrar no país. Ela foi comendada no mundo inteiro por sua "humanidade". Muitos afirmaram que ela mereceria o Prêmio Nobel da Paz.

E agora isso tudo tem de ser esquecido? No domingo (13) à noite, De Maizière afirmou que a Regulamentação de Dublin ainda está em vigor. "Exijo que todos os países-membros da União Europeia o cumpram daqui por diante", disse o ministro do Interior.

Isso mostra o quanto a CDU tem medo de seus eleitores. Esse partido está tentando fugir dos problemas. Seus integrantes não contavam com o aumento do número de refugiados nem demonstraram ter uma receita à mão para solucionar a crise.

Se De Maizière fosse sincera, teria de dizer que não tem ideia do que fazer neste momento.

As raízes da situação atual estão no passado. A União Europeia está há muito tempo olhando para o que se desenrola às suas portas. Em Berlim, a guerra da Síria foi considerada um "conflito esquecido" por tempo demais. Agora cobra-se o preço desse desprezo.

E talvez seja só o começo. Será que De Maizière vai querer fechar as fronteiras com a Polônia em caso de agravamento da situação na Ucrânia? Há duas vezes mais habitantes lá do que na Síria pré-guerra. E o país está há meses à beira da falência.

Queremos nos isolar ainda mais no futuro próximo, se as consequências da inação de Angela Merkel em relação à política do clima se tornarem visíveis?

A resposta para os problemas atuais tem de ser uma tomada de responsabilidade da Alemanha em relação à política internacional. Do contrário, os problemas do mundo continuarão vindo até nós -- exatamente o que está acontecendo agora.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost Germany e traduzido do alemão.

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