OPINIÃO
28/04/2015 15:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

O que diz a ciência social nos diz sobre o combate ao extremismo violento

Nenhum dos combatentes do ISIS que entrevistamos no Iraque tinha formação além do ensino básico. Alguns tinham mulheres e filhos pequenos. Quando questionados "o que é o Islã?", eles respondiam: "Minha vida".

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Esse post é adaptado de um discurso no Debate Ministerial no Conselho de Segurança da ONU sobre "O papel da juventude no combate ao extremismo violento e na promoção da paz".

Sou antropólogo. Antropólogos estudam a diversidade das culturas humanas para entender atributos comuns e diferenças, e para usar o conhecimento desses traços comuns para reduzir as diferenças.

Minha pesquisa tem o objetivo de ajudar a reduzir a violência entre as pessoas, primeiro tentando entender pensamentos e comportamentos tão diferentes dos meus quanto eu possa imaginar: ações suicidas que matam grandes números de inocentes que nunca fizeram mal a ninguém. A chave, como me ensinou Margaret Mead há muito tempo, quando trabalhei como assistente dela no Museu de História Natural de Nova York, é ter empatia com as pessoas sem necessariamente simpatizar com elas: participar das vidas delas até o ponto que você considere moralmente possível. E então fazer seu relato.

Passei muito tempo observando, entrevistando e conduzindo estudos sistemáticos junto a populações de seis continentes atraídas para a ação violenta em nome de um grupo e suas causas. Mais recentemente, estive com colegas em Kirkuk, no Iraque, entre jovens que mataram para o ISIS, e com jovens adultos nas periferias de Paris e de Barcelona que querem juntar-se à organização.

Com alguns insights da pesquisa de ciência social, vou tentar delinear algumas condições que podem ajudar a tirar esses jovens do caminho do extremismo violento.

Mas primeiro: quem são esses jovens?

Nenhum dos combatentes do ISIS que entrevistamos no Iraque tinha formação além do ensino básico. Alguns tinham mulheres e filhos pequenos. Quando questionados "o que é o Islã?", eles respondiam: "Minha vida". Eles não sabem nada do Corão, das Hadith ou dos primeiros califas, Omar e Osmã, mas aprenderam sobre o Islã pela propaganda da Al Qaeda e do ISIS - que ensina que muçulmanos como eles são alvo de eliminação a menos que eliminem antes os impuros. Essa não é uma ideia absurda para as circunstâncias desses jovens: eles falam de crescer depois da queda de Saddam Hussein, num mundo infernal de combates constantes, mortes na família, realocações forçadas e da sensação de estarem essencialmente presos durante meses em casa ou em abrigos.

Na Europa e em outros lugares da diáspora muçulmana, o padrão de recrutamento é diferente: cerca de 3 de cada 4 pessoas que entram para a Al Qaeda ou para o ISIS o fazem por intermédio de amigos. Os restantes entram por meio da família ou de outros viajantes em busca de um sentido para a vida. É raro, entretanto, que os pais saibam que seus filhos desejam entrar para o movimento: nas casas da diáspora, os pais muçulmanos relutam em falar dos fracassos da política externa ou do ISIS, enquanto seus filhos tentam desesperadamente entendê-los.

A maioria dos voluntários e apoiadores estrangeiros estão na média do que os cientistas sociais chamam de "distribuição normal" de atributos psicológicos como empatia, compaixão, idealismo e o desejo de ajudar em vez de machucar os outros. Eles são em sua maioria jovens em estágio de transição em suas vidas: estudantes, imigrantes, entre empregos ou amigos, tendo deixado ou prestes a deixar suas famílias nativas em busca de uma nova família ou de novos amigos e companheiros de viagem com quem possam encontrar um sentido para a vida (http://www.start.umd.edu/publication/quest-significance-model-radicalization-implications-management-terrorist-detainees).

A maioria não teve educação religiosa tradicional e muitas vezes "nasceu de novo" com um senso de missão religiosa socialmente fechado, ideologicamente estreito e com ambições globais. De fato, uma virada violenta é mais provável entre os jovens expulsos de mesquitas por expressar crenças políticas radicais.

No verão passado, uma pesquisa do ICM revelou que mais de um em cada quatro jovens franceses - de todos os credos - entre as idades de 18 e 24 anos têm uma atitude favorável em relação ao ISIS; em Barcelona, só neste mês, 5 dos 11 simpatizantes do ISIS presos por planejar atentados na cidade eram até recentemente ateus ou cristãos. A aliança entre nacionalismo xenofóbico e jihadismo militante, que se alimentam mutuamente, começa a desestabilizar a classe média europeia como o comunismo e o fascismo nos anos 1920 e 1930, incitando o desejo do sacrifício tanto entre os nacionalistas xenófobos como entre os jihadistas militantes. Em contraste, nossa pesquisa mostra que mesmo entre a juventude nativa do Ocidente, os ideais da democracia liberal não trazem mais à tona a disposição de fazer sacrifícios custosos em sua defesa.

A Europa tem uma taxa de natalidade de 1,4 filho por casal, o que significa que, sem uma imigração em massa, não há como sustentar uma classe média viável da qual depende toda democracia bem-sucedida. Ainda assim, a Europa está longe como nunca de uma solução aceitável no que diz respeito ao problema da imigração. Como nos disse uma jovem da periferia de Clichy-sur-Bois, ela, como tantos de seus amigos, não se sente nem francesa nem árabe. E, como sempre será vista com suspeita, ela escolherá o Califado para ajudar a criar uma pátria na qual os muçulmanos possam unir forças, ser fortes de novo e viver com dignidade.

Mas a noção popular de "choque de civilizações" entre o Islã e o Ocidente é terrivelmente equivocada. O extremismo violento não representa o ressurgimento de culturas tradicionais, mas sim seu colapso. Jovens desconectados de tradições milenares se debatem em busca de uma identidade social que lhes dê significado pessoal e glória. Esse é o lado sombrio da globalização. Eles se radicalizam para encontrar uma identidade firme em um mundo achatado: no qual linhas verticais de comunicação entre as gerações são substituídas por ligações horizontais entre pares que atravessam o globo. Jovens cujos avós era animistas da Idade da Pedra em Sulawesi, longe do mundo árabe, me disseram que sonham em lutar no Iraque ou na Palestina em defesa do Islã.

Apesar de vistos tipicamente em termos militares, a Al Qaeda, o ISIS e grupos relacionados representam a maior ameaça como o movimento contracultural mais dinâmico do mundo, um movimento cujos valores são contrários aos do estado-nação representados aqui na ONU e por sua Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ele atrai jovens de vários lugares para a maior e mais poderosa força de combate extraterritorial desde a Segunda Guerra. Assim como levou mais de uma década para a Al Qaeda se tornar uma ameaça global, pode levar alguns anos até sintamos o impacto real do ISIS, mesmo que ele seja expulso de sua base territorial atual.

Se não entendermos essas poderosas forças culturais, não conseguiremos lidar com essa ameaça. Quando, como agora, o foco é em soluções militares e interdições policiais, o problema já foi longe demais. Se esse foco persistir, vamos perder a próxima geração.

O que pode ser feito, então?

Em primeiro lugar, continuar o trabalho importante ligado a questões de desenvolvimento, imigração e integração, com o objetivo de aproveitar de modo positivo a energia e o idealismo inerentes à juventude.

Deixe-me propor três condições que acredito serem necessárias para a juventude, com breves ilustrações. Mas cada país terá de criar e mobilizar essas condições, adequadas às suas circunstâncias.

1. A primeira condição: oferecer aos jovens algo que os faça sonhar com uma vida significativa por meio da luta e do sacrifício em nome da camaradagem.

Isso é o que o ISIS oferece. Segundo o Idaraat at-Tawahoush ("O Gerenciamento da Selvageria"), o manifesto da Al Qaeda na Mesopotâmia e agora do ISIS, um plano global de mídia deveria incentivar a juventude a "voar para as regiões que controlamos... [para que] a juventude da nação esteja mais próxima da natureza inata [dos humanos] por conta do espírito de revolta dentro dela, que... os grupos islâmicos inertes [apenas tentam suprimir]".

Quando ouço outro apelo batido ao "Islã moderado", geralmente de pessoas muito mais velhas, pergunto: Vocês estão brincando? Nenhum de vocês têm filhos adolescentes? Quando foi que qualquer coisa "moderada" teve apelo para uma juventude que anseia aventuras, glórias e significado?

Pergunte a si mesmo: que sonhos podem advir das políticas governamentais atuais que ofereçam mais que promessas de conforto e segurança? Os jovens

NÃO vão escolher sacrificar tudo, incluindo suas vidas - a totalidade de seus interesses - somente em troca de recompensas materiais. Na verdade, pesquisas mostram que oferecer recompensas materiais ou punições tende a empurrar os verdadeiros "Atores Devotados" a extremos ainda maiores.

Pesquisas também mostram que o maior indicador de disposição ao sacrifício é unir-se a camaradas em uma causa sagrada, que lhes dá um senso de destino especial e o desejo de lutar.

Isso é o que faz grupos insurgentes pouco poderosos e movimentos revolucionários resistir e muitas vezes prevalecer sobre inimigos mais fortes, que dependem de incentivos materiais, tais como exércitos e polícias, que dependem essencialmente de salários e promoções, em vez de um senso de dever de defesa da nação. Valores sagrados devem ser combatidos com outros valores sagrados, ou com a quebra das redes sociais nas quais esses valores estão embutidos.

2. A segunda condição oferecer aos jovens um sonho pessoal positivo, com chances concretas realização.:

O apelo da Al Qaeda ou do ISIS não tem a ver com sites jihadistas, que na maioria são apenas tagarelice, apesar de eles poderem ser um atrativo inicial. O que importa é o que vem depois. Existem quase 50 000 contas de Twitter apoiando o ISIS, com uma média de 1 000 seguidores cada uma. Elas fazem sucesso porque oferecem oportunidades de engajamento pessoal, audiências com as quais os jovens podem compartilhar e refinar suas queixas, esperanças e desejos. Em contraste, os programas governamentais para atingir essa população costumam oferecer "contranarrativas" genéricas de caráter religioso e ideológico, aparentemente alheias às circunstâncias pessoais da audiência. Elas não conseguem criar as redes sociais íntimas que os sonhadores procuram.

Além disso, a mensagem dessa contranarrativa é basicamente negativa: "Então DAESH quer construir um futuro, bem, decapitações são o futuro que você quer, ou então alguém controlando o que você come ou veste?"

Será que alguém ainda não sabe disso? Será que isso realmente importa para aqueles atraídos pela causa, apesar, ou talvez justamente por causa, dessas coisas? Como respondeu uma adolescente de um subúrbio de Chicago a agentes do FBI que a impediram de ir para a Síria: "Bem, e os bombardeios que matam milhares? Talvez as decapitações ajudem a acabar com eles". Para alguns, a obediência estrita significa liberdade da incerteza em relação ao que se espera de uma pessoa de bem.

Além disso, uma vez estabelecida a virtude da missão moral, a violência espetacular não é um desincentivo, mas sim um elemento sublime e empoderador, como notou Edmund Burke a respeito da Revolução Francesa, que introduziu a noção moderna do Terror como uma forma de defesa de emergência em nome de mudanças políticas radicais.

E não se engane: poucos - talvez nenhum - daqueles que se juntam à causa da jihad militante, ou até mesmo do nacionalismo xenofóbico, são niilistas. Essa é uma acusação feita por aqueles que se recusam a considerar o apelo moral, e portanto o perigo real, desses movimentos. Estar disposto a morrer para matar outras pessoas exigem uma profunda convicção de virtude moral.

Em Singapura na semana passada, pessoas que falaram em nome dos governos ocidentais argumentaram que o Califado é um mito, encobrindo a política tradicional em busca do poder. Pesquisas com aqueles que são atraídos pela causa mostram que esse é um equívoco perigoso. O Califado ressurgiu como uma causa mobilizadora na mente de muitos muçulmanos. Como nos disse um imã de Barcelona: "Sou contra a violência da Al Qaeda e do ISIS, mas eles colocaram no mapa nossa situação na Europa e no resto do mundo. Antes, éramos simplesmente ignorados. E o Califado... Sonhamos com ele como os judeus sonharam com Sion. Talvez possa ser uma federação das populações muçulmanas, como a União Europeia. O Califado está aqui, em nossos coração, mesmo que não saibamos qual forma ele terá".

Se não reconhecermos essas paixões, corremos o risco de incentivá-las.

E qualquer envolvimento sério deve estar sintonizado com os indivíduos e suas redes, não com o marketing massivo de mensagens repetitivas. Jovens empatizam uns com os outros; eles geralmente não dão lições uns aos outros. Da Síria, uma mensagem de jovem para outra:

"Sei que é difícil deixar para trás a mãe e o pai que você ama e não contar para eles até que você chegue aqui que você vai amá-los para sempre, mas que você foi posta nessa terra para fazer mais que estar com seus pais ou honrá-los. Sei que vai ser provavelmente a coisa mais difícil que você vai fazer na vida, mas deixe-me ajudar a explicar para você mesma e para eles."

3. Uma terceira condição: oferecer aos jovens a chance de criar suas próprias iniciativas locais.

Pesquisas da ciência social mostram que iniciativas locais, que começam com envolvimento de pequena escala, são melhores que programas nacionais de larga escala quando se trata de reduzir a violência. Não importa qual seja a agência do governo envolvida. Deixe os jovens encontrarem juntos maneiras significativas para encontrar sentido em suas agendas pessoais, seja a questão a opressão e a marginalização política, o trauma da exposição à violência ou problemas de identidade e exclusão social. E, acima de tudo, apoie envolvimento pessoal por meio de ajuda mútua e de mentores da própria comunidade - porque o extremismo radical quase sempre procura uma circunstância pessoal, compartilhada com amigos, e tenta transformá-la num ultraje moral e universal, que deve ser respondido com violência.

Considere:

Com apenas 16 anos, Gulalai Ismail e sua irmã Saba criaram a rede Sementes da Paz com um grupo de amigos da escola. O objetivo era mudar as vidas de jovens mulheres em Khyber Pakhtunkhwa, no noroeste do Paquistão. Elas começaram pelo lugar das mulheres na sociedade. Com mais adeptas, elas agora treinam jovens ativistas para que elas sejam agentes da paz, desafiando a violência e o extremismo. Elas treinaram 50 jovens nos últimos dois anos para promover a tolerância, a não-violência e a paz. A iniciativa tem sido tão popular que no último ano elas receberam mais de 150 inscrições.

As 50 voluntárias treinadas agora fazem contato com as pessoas de suas comunidades vulneráveis à radicalização. Elas criam grupos de estudo e realizam encontros individuais para promover ideias de um futuro pacífico. Ainda em fase inicial, o programa vai atingir quase 1 500 jovens nos próximos três anos, criando um movimento de ativistas contra o extremismo religioso e político. Os resultados são muito mais notáveis, mas Gulalai Ismai não quer reivindicá-los publicamente.

Imagine um arquipélago global de ativistas da paz: se você conseguir encontrar maneiras concretas de ajudá-los sem tentar controlá-los, eles podem ser os vencedores do futuro.

Em suma, o que é mais importante é qualidade e acompanhamento regular dos jovens pelos jovens, que entendem que a motivação pode variar muito de acordo com o contexto, apesar dos fatores comuns - seja um jovem pai de Kirkuk, uma adolescente de Paris, vizinhos de Tetuan Marrocos, ou companheiros de um time de futebol da escola de Fredrikstad, Noruega. É necessário um movimento dinâmico que seja ao mesmo tempo intimamente pessoa e global - envolvendo não só ideias empreendedoras, mas também atividades físicas, música e entretenimento - para combater a crescente cultura global do extremismo violento.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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