OPINIÃO
25/09/2014 14:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02

Minha filha tem HIV e você não sabe

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Minha filha com HIV está brincando com o seu filho e você não sabe.

Ela brincou com seu filho na pré-escola particular local, levou caldos ao lado da sua filha nas aulas de natação e fica atrás do seu filho na fila na aula de ginástica. Minha filha é HIV-positiva e tem proteções jurídicas que significam que não precisamos lhe dizer -- às escolas, aos acampamentos, pais ou qualquer pessoa, com exceção de médicos e dentistas -- sobre sua condição de HIV-positivo.

Por causa da ignorância e do estigma que estão associados ao HIV, pessoas corajosas têm lutado pelo direito legal de mentir por omissão sobre a condição de HIV. Nosso assistente social nos avisou antes da adoção: "Não digam para ninguém. Existe muito estigma e ignorância por aí. Sua filha chinesa já se destacará na comunidade. Vocês realmente querem dar às pessoas mais um motivo para não aceitá-la?"

No jardim de infância este ano, minha doce menina tentou contar para a sua filha: "Natalie, sabe de uma coisa? Eu tenho um dragão no meu sangue. Eu nasci com ele e minha mãe chinesa também tinha. Quando eu tomo remédio, o dragão fica dormindo." Natalie e outros cinco amigos não acreditaram na minha filha. Na verdade, um deles disse: "Ora, eu nasci na China e também tenho um dragão!" Acho que ele se sentia excluído. Expliquei para ela que eles simplesmente não sabiam a história toda e não poderiam entender ainda.

Então por que eu não preciso dizer às escolas, igrejas e creches? Porque o HIV nunca foi transmitido nessas situações. Os medicamentos modernos tornam o vírus impotente. A cada quatro meses minha filha tem de fazer exames de sangue e todas as vezes os resultados são iguais: os testes de sensibilidade não detectam vírus em sua corrente sanguínea. Ela está saudável, feliz e risonha. Eu faço curativos em seus joelhos feridos; seco seu nariz quando sangra; compartilho comida, água e beijos -- tudo sem risco ou preocupação de contrair o HIV.

Veja, ela simplesmente nasceu com ele. Se sua mãe biológica tivesse a possibilidade de tomar as drogas antirretrovirais que modificam a vida enquanto estava grávida, minha filha não teria HIV. É possível que ela nem tivesse sido dada para adoção. Só para você saber, esses remédios caros que minha filha e outras pessoas HIV-positivas tomam todos os dias são grátis na China. Grátis! O governo paga por eles. Mas a maioria das pessoas HIV-positivas na China não os toma, porque admitir que você tem o HIV significa morrer para todos que você ama. Você será deserdado, expulso, banido.

Minha filha poderá namorar o seu filho quando ela for adolescente, e ela se casará e terá bebês HIV-negativos um dia -- se ela quiser. Por favor, colegas mães, saibam que já não é preciso ter medo do HIV. Por favor, pesquisem online e falem com seus pediatras. Aprendam e pesquisem para que vocês também saibam a verdade. Vocês não precisam aceitar minha palavra. Mas, para que saibam, minha filha é HIV-positiva e está brincando com o seu filho, e você nem sabe quem ela é. E tudo bem.

O HIV não é assustador, mas a ignorância e o estigma, sim.

Jenn Mosher é uma fotojornalista que vive no Texas. Depois de fotografar um orfanato de crianças com Aids na África e de ver três de seus amigos morrerem de doenças relacionadas à Aids, Jenn e seu marido se sentiram levados a adotar crianças HIV-positivas. Sua família mudou para sempre pelo trabalho der defensoria da organização www.elimkids.com. Ler blogs relacionados a adoção e HIV deu a Jenn coragem e ajuda comunitária. Para mais informações sobre adotar e ajudar crianças HIV-positivo, por favor visite www.positivelyadopted.com.

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