OPINIÃO
31/10/2014 16:01 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O que sobreviver a um câncer de mama aos 27 me ensinou sobre as rugas

Sarah Thebarge

Minha amiga foi a uma festa em Nova York há algumas semanas. Ela se apresentou a uma mulher tímida, bem vestida, que usava um lenço de seda em volta do pescoço e estava de pé em um canto. Minha amiga disse: "Eu só queria dizer - que esse lenço é lindo."

A mulher mexia no tecido e disse calmamente: "Eu só o estou usando até que eu possa me dar ao luxo de dar um jeito no meu pescoço."

Ela me disse que estava envergonhada com as rugas que tinham aparecido ao longo de seu pescoço nas últimas cinco décadas de sua vida. Estava tão envergonhada que preferia cobri-las, até que ela tivesse as dezenas de milhares de dólares que custaria o lifting do pescoço.

Quando minha amiga me contou essa história, eu pensei que era um incidente isolado, um exemplo extremo do que acontece com as mulheres em nossa cultura de beleza, onde a juventude é um bem e idade é uma obrigação.

Mas, alguns dias mais tarde, estava eu andando pela rua principal de Santa Barbara, quando um rapaz me puxou para uma loja bem iluminada, me sentou em um banquinho de couro branco e começou a aplicar produtos na metade do meu rosto.

Quando ele terminou, me entregou um espelho e pediu para comparar os dois lados do meu rosto. Do lado da influência do produto as linhas sob meus olhos eram sutilmente menos perceptíveis do que do outro lado.

Por causa desta "incrível diferença", ele insistiu que eu comprasse uma linha de produtos de cuidados da pele. Ele colocou quatro garrafas pequenas lado a lado. Para o tratamento de beleza, ele disse que sairia cerca de $700 dólares, e que duraria três meses.

Eu rapidamente fiz as contas. Perto de três mil dólares ao ano para deixar algumas linhas ao redor dos meus olhos um pouco menos perceptíveis.

Eu disse a ele: não, obrigada.

Poucos dias depois, eu tinha um cupom para um tratamento facial. Quando a esteticista terminou o vapor e de passar esfoliantes no meu rosto, ela me levou a uma mesa onde expunha nove passos para um tratamento de beleza diário que ela recomendava para a minha pele "sem vida", e que removeria os "sinais de envelhecimento" do meu rosto de 35 anos.

Mais uma vez, o total chegava a centenas de dólares para uma linha de cuidados da pele. Eu lhe disse que não estava disposta a pagar muito dinheiro, nem passar muito tempo cuidando da minha pele.

Eu não estou tentando aparentar mais idade do que tenho. Eu aplico protetor solar e hidratante todos os dias. Eu como bem e tento dormir bastante. Eu não faço bronzeamento artificial nem fumo ou faço outras coisas que fazem com que as rugas apareçam antes da hora.

Mas, além disso, eu não estou disposta a gastar milhares de dólares em produtos de pele ou cirurgia cosmética para disfarçar os sinais de envelhecimento do meu rosto - principalmente porque as linhas sutis que têm aparecido, e vão continuar a aparecer com o tempo, são, na verdade um presente para mim.

Eu fui diagnosticada com câncer de mama aos 27 anos de idade. Se você tivesse me dito naquela época, na sala de exame, onde eu recebi o meu diagnóstico pela primeira vez, que eu viveria tempo suficiente para ficar com linhas de expressão ao redor dos meus olhos, ou vincos ao longo dos meus lábios, eu teria chorado lágrimas de alívio.

Eu conheço mulheres jovens que morreram de câncer. Uma de minhas amigas morreu aos 39 anos, a outra aos 36. E muitas outras jovens mulheres morrem de câncer ainda mais jovens do que isso. Elas teriam dado qualquer coisa para viver até os 50 ou 60 anos e terem todas as linhas, rugas e manchas na pele que a idade acarreta.

Envelhecer não deveria ser algo que tivéssemos vergonha - e sim algo para se comemorar. Porque viver é uma honra. Porque o tempo é um dom.

Nós não deveríamos sentir mais vergonha de nossa idade do que uma árvore por possuir muitos anéis. Em vez de remover as linhas, que tal celebrá-las? E se a gente as honrasse?

  1. Eu não sei quanto tempo de vida eu tenho. Mas, se Deus é misericordioso, eu espero viver o suficiente para envelhecer. Espero ter tanta alegria na minha vida que as linhas em torno dos meus olhos e do meu sorriso fiquem gravadas no meu rosto.

E eu espero também que quando os outros me vejam, eles não pensem: "Essa é uma mulher que deveria se esconder até que ela possa ter condições de pagar por uma cirurgia para esticar o pescoço."

Espero que eles olhem para mim e vejam uma mulher que viveu.

Uma mulher que, com alegria, orgulho e contentamento, viveu.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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