OPINIÃO
11/07/2014 14:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Gaza edição 2014

A razão para o fracasso do acordo de paz está no fato de que Israel não está disposto a fazer qualquer concessão e prefere acreditar que o tempo trabalha a seu favor.

JAAFAR ASHTIYEH via Getty Images
A Palestinian burns tires during clashes with Israeli security forces following a protest in the village of Kfar Qaddum, near the northern city of Nablus, in the occupied West Bank on July 11, 2014. Israel's aerial bombardment of Gaza claimed its 100th Palestinian life as Hamas pounded central Israel with rockets and Washington offered to help broker a truce. AFP PHOTO/ JAAFAR ASHTIYEH (Photo credit should read JAAFAR ASHTIYEH/AFP/Getty Images)

Voltamos a contar os mortos em Gaza. Já passam dos 80, entre os quais ao menos 20 crianças. Os feridos contam várias centenas e as casas destruídas mais de duzentas. Depois da passagem de 2008 para 2009 e depois de 2012, a aviação israelense oferece mais um capítulo trágico que vem se somar ao drama cotidiano do cerco vivido por Gaza há anos.

Ainda assim, deste lado do mundo, tendemos a ouvir apenas as sirenes de alarme que assustam os israelenses e o terror que lhes causam os foguetes palestinos. E tendemos a acreditar que o começo e a explicação para os fatos está no seqüestro e morte de três colonos israelenses. De algum modo, vai se destilando a ideia de que a punição coletiva imposta pelos bombardeios - criminosa de acordo com o direito internacional - é resposta apenas razoável para o crime isolado. E inverte-se a ordem das coisas, transformando os foguetes em causa e as bombas israelenses em consequência.

Cabe quebrar o encanto desses mantras tantas vezes repetidos.

É preciso, para ver mais claramente, voltar ao menos até o momento em que a morte desde sempre anunciada da última rodada das chamadas negociações de paz se concretizou, trazida pelas mãos do governo israelense. A razão para o fracasso, fundamentalmente, está no fato de que Israel não está disposto a fazer qualquer concessão e prefere acreditar que o tempo trabalha a seu favor permitindo-lhe ampliara a tomada de territórios por meio dos assentamentos, aceitando o risco decorrente de manter indefinidamente o controle sobre os palestinos e seus territórios.

O que se seguiu ao fracasso foi a reconciliação entre Fatah e Hamas e a decisão de constituírem um governo de unidade nacional. O primeiro vinha se enfraquecendo por conta de ter apostado tanto na via da negociação sem poder entregar nada aos palestinos além da continuidade da ocupação e sua expansão. O segundo lidava com uma fragilização decorrente das revoltas no mundo árabe e de apostas errôneas que fizera em relação às consequências dos processos revoltosos. Acreditaram, com razão, que só havia esperança na unidade nacional.

Israel não tardaria a atacar essa unidade - e o pretexto, que seria encontrado de qualquer modo, acabou sendo o sequestro dos colonos. O ataque começou na Cisjordânia e logo transferiu-se para Gaza.

Com esta campanha, Israel pretende, pela enésima vez, desenraizar o Hamas e liquidar a capacidade de resposta dos grupos da resistência armada palestina.

Não é certo ainda, mas é bem possível, apesar de toda a destruição que ainda choverá sobre os palestinos, que esses objetivos israelenses se vejam mais uma vez frustrados. Tudo indica que a capacidade palestina de lançar foguetes mais capazes e mais certeiros foi incrementada nos últimos tempos. Também já se concebe a possibilidade de que o Hamas e outros possam até mesmo levar a batalha, também por mar ou por terra, ao próprio território israelense.

A afirmação do poder militar pode, assim, servir também a revelar os seus limites.

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