OPINIÃO
06/07/2015 18:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

7 de julho de 2005 - o dia que abalou o Reino Unido

Eu era uma típica jovem de 22 anos de idade trabalhando em Londres. Estava curtindo a vida e, como toda garota, sonhava com o futuro. Naquela manhã de 7 de julho, estava a caminho do trabalho, mas lembro que estava atrasada. Entrei na estação Turnpike Lane.

Oli Scarff via Getty Images
LONDON, ENGLAND - JULY 07: The memorial in Hyde Park commemorating the victims of the July 7, 2005 London bombings, on July 7, 2014 in London, England. The memorial, made up of 52 steel pillars, each representing a victim of the bombings, was defaced last night with graffiti reading: '4Innocent Muslims' and 'Blair Lied Thousands Died'. (Photo by Oli Scarff/Getty Images)

Para marcar os 10 anos dos ataques terroristas de 7 de julho em Londres, o HuffPost UK está publicando Beyond The Bombings (além dos atentados), uma série de entrevistas, blogs, artigos aprofundados e pesquisas exclusivas para entender como o Reino Unido mudou desde então.

Uma década se passou desde 7 de julho de 2005, quando quatro bombas foram detonadas na hora do rush no metrô e em um ônibus no centro de Londres, deixando 52 mortos e mais de 700 feridos.

A tragédia que vivi aquele dia está gravada na minha memória. Foi o dia que mudou minha vida.

Eu era uma típica jovem de 22 anos de idade trabalhando em Londres. Estava curtindo a vida e, como toda garota, sonhava com o futuro. Naquela manhã de 7 de julho, estava a caminho do trabalho, mas lembro que estava atrasada. Entrei na estação Turnpike Lane. Eu sempre entrava no primeiro vagão - pode chamar de TOC ou de ritual, mas era o que eu sempre fazia. Mas, como estava com pressa, naquele dia não consegui entrar no primeiro vagão. Se tivesse conseguido, não estaria viva hoje, escrevendo esse artigo. Germaine Lindsay, um dos homens-bomba, estava naquele primeiro vagão. Dez segundos depois de sairmos da estação King's Cross, houve a explosão.

A primeira coisa que ouvi foi um barulho enorme, o som mais alto que já ouvi. Depois, silêncio. As luzes se apagaram, e uma fumaça preta densa começou a encher o vagão. As pessoas à minha volta começaram a entrar em pânico, gritando e socando as paredes do trem para tentar sair. Elas choravam e imploravam por suas vidas.

Inicialmente pensei que o trem tinha descarrilado. Como era hora do rush, achei que outro trem sairia de King's Cross e bateria na traseira do nosso, provocando uma enorme bola de fogo. Morreríamos queimados. Realmente achei que fosse morrer. Comecei a pensar em tudo que não tinha feito ainda: não tinha casado nem tinha tido filhos, não tinha me despedido das pessoas queridas. Realmente achei que era isso... 7 de julho de 2005 seria o dia da minha morte. Não estava pronta para morrer. Depois de longos e agonizantes 45 minutos de pânico, ansiedade e terror, ouvi uma voz distante dizendo: "É a polícia, estamos chegando". Ainda lembro o enorme alívio que senti naquele momento. Foi a maior sensação de alívio em 22 anos de vida. Quando saí, achei que tinha ganhado uma segunda chance.

Logo o noticiário anunciou que os autores dos ataques eram quatro muçulmanos. Saber que foram bombas, e que os responsáveis eram muçulmanos, foi o que mais doeu, pois achei que era um ataque contra o Islã. Muitas perguntas tomaram conta da minha cabeça: Quem os manipulou? Por que eles fizeram aquilo? Onde estavam suas mães e famílias, que jamais desejariam perder seus filhos de tal maneira, machucando civis inocentes?

Demorou um bom tempo, mas me recuperei e voltei a trabalhar. Mas essas perguntas não saíam da minha cabeça. Eu procurava as respostas.

Foi quando eu percebi: não há melhor lugar para começar do que trabalhar com quem pode fazer diferença - mulheres e mães. Elas podem proteger seus filhos e, no fim das contas, podemos proteger a sociedade. Larguei meu emprego e entrei para o JAN Trust, uma ONG premiada que ajuda mães e mulheres marginalizadas a ter vidas melhores e a servir de exemplo para seus filhos.

Em 2011, fizemos uma consulta com a comunidade e detectamos uma necessidade. Ouvimos 350 mães muçulmanas de Londres e descobrimos que 93% delas não tinham habilidades básicas de informática, tais como ligar o computador, e 92% não sabiam o que era a radicalização online. Elas diziam: "Queremos saber mais, mas precisamos de ajuda".

Nós da JAN Trust desenvolvemos o único programa do mundo que ajuda mães a combater a radicalização online - o programa Web Guardians. As mães aprendem a entrar na internet, são expostas à radicalização online e aprendem a canalizar as queixas de seus filhos de forma positiva.

Tivemos muito sucesso. Várias mães dizem que "salvamos" seus filhos. As mães de uma área do Reino Unido disseram:

"Seu programa salvou nossas famílias. Por favor, salvem outras mais!"

Como sobrevivente, nunca esquecerei o que aconteceu em 7 de julho - quando todo tipo de gente foi afetada: negros, brancos, marrons, jovens, velhos, crentes ou descrentes. Lembrarei desse dia para sempre - o dia que abalou o Reino Unido. Como você, não quero outro 7 de julho, e é por isso que programas como o Web Guardian são vitais.

Seu apoio ao JAN Trust e a programas como o Web Guardians significa que podemos proteger nossos jovens e evitar futuras tragédias. Para saber mais e para apoiar nosso trabalho, visite nosso site.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US=K e traduzido do inglês.