OPINIÃO
02/04/2014 17:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

O que é o autismo

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Segundo a Wikipedia, o autismo é uma disfunção global do desenvolvimento. É uma alteração que afeta a capacidade de comunicação do indivíduo, de socialização (estabelecer relacionamentos) e de comportamento (responder apropriadamente ao ambiente -- segundo as normas que regulam essas respostas). Esta desordem faz parte de um grupo de síndromes chamado transtorno global do desenvolvimento (TGD), também conhecido como transtorno invasivo do desenvolvimento (TID), do inglês pervasive developmental disorder (PDD). Entretanto, neste contexto, a tradução correta de "pervasive" é "abrangente" ou "global", e não "penetrante" ou "invasivo". Mais recentemente cunhou-se o termo Transtorno do Espectro Autista (TEA) para englobar o Autismo, a Síndrome de Asperger e o Transtorno Global do Desenvolvimento Sem Outra Especificação. Aqui, aqui e aqui você também achará boas explicações.

Mas eu vou lhe dizer o que é o autismo para uma mãe. O autismo, antes de tudo, é um susto. Porque você tem ali o seu bebezinho perfeito, com seus cílios longos (é um dos 'sintomas' aparentes), risonho, que repete palavras (ou não), o seu filhote amado a quem você quer cuidar, amar e proteger a vida toda. E aí, de repente, você começa a perceber que o seu amorzinho é um pouco diferente. Nossa, como ele é interessado no 'avesso' dos brinquedos! Como ele decora coisas, mas parece não saber muito bem o que fazer com essas informações. Que cisma ele tem com essa música, adora. Ops, no dia seguinte a mesma música já o assusta como se fosse um monstro, que deu nesse menino?

E aí a mãe vai atrás de respostas, porque sente que tem algo errado. Algumas tomam o susto, mas se negam a ouvir. No fundo, elas sabem, mas não querem admitir. Mas muitas mãezinhas sentem o baque e vão em frente, ainda desconfiadas (meu Deus, será isso mesmo? Ele nunca vai falar comigo? Mas ele é tão carinhoso, não fica se balançando num canto, sem querer ver ninguém!).

Para essas mãezinhas, o autismo passa a ser então um compromisso. Compromisso com pediatra, com gastropediatra (muitos têm alergia alimentar), com fisioterapeuta, com fonoaudióloga, com psicopedagoga, com psicóloga, com aula de natação, com escola, com a psiquiatra, com terapeutas. Horários, agendas, uma organização incrível (algumas mães, como eu, espantam-se com a própria capacidade de dar conta disso tudo). E o autismo vira cansaço.

E daí a mamãe tá lá, cansada, tentando equilibrar-se na corda bamba, e o filho que nunca a olhou nos olhos dá uma encarada. Do nada. Ou aquele filho que nunca, nunca pegava um objeto vermelho aparece com um nariz de palhaço. E aí o filho ri, espontaneamente. Ou fala a primeira frase com um verbo. Ou expressa um sentimento. Ou passa mais de cinco minutos na mesma atividade. Fica sentado durante a aula. Ou pega num pincel e pinta a figura mais sem sentido do mundo - e a mais linda do mundo ao mesmo tempo. As mamães dessa fase chamam o autismo de esperança.

E daí a mamãe está cheia de esperança e começa a perceber o quanto ela mudou nesse tempo em que virou 'mãe de autista'. Como ela é uma pessoa melhor, uma mãe melhor, até uma amiga e uma profissional melhor. Uma pessoa melhor. Porque aprendeu a respeitar o tempo do outro, aprendeu a esperar, aprendeu a lidar com expectativas e frustrações. Porque aprendeu a burilar o amor por aquele filho de uma forma tão especial, que tudo o que a mamãe passou - e ainda passará - vira um diamante brilhante demais. E as mamães acham o autismo uma bela lição para elas mesmas.

E daí a mamãe, com muita paciência e observação, começa a entender como seu filho pensa. Ela vai continuar na dúvida ainda na maior parte das vezes, mas vai começar a olhar as outras mães (porque, sabe, quando a mamãe descobre que é mãe de uma criança autista, ela se sente tão só no mundo que não percebe que é só uma mãe como outra qualquer), enfim, ela começa a olhar as mães das crianças não-autistas e ver que elas também não sabem, de verdade, o que os filhos sentem, ou pensam, 100% do tempo. Ela começa a perceber que talvez não seja algo tão absurdo assim, tão solitário assim. A mamãe começa a perceber o que funciona ou não para o seu filhote. Começa a perceber, inclusive, quando chega a hora de fazer com que ele alcance um novo desafio. Continua sendo cansativo, principalmente porque é uma fase de observação constante, atenção constante, preocupação ainda mais constante. E o autismo passa a ser uma missão dessa mãe com seu filho - a missão de ajudá-lo a lidar com essa característica de forma positiva, não a acabar com ela.

E aí o filho vai crescendo, os compromissos vão mudando, os aprendizados e conquistas continuam. Ele vira um adolescente meio quietão. Ou um músico de ouvido apurado. É o destaque da escola porque não tem problema de matemática que ele não resolva. Ou ainda vira um adolescente como qualquer outro, talvez com uma ou duas manias que ninguém entenda. Eu ainda não cheguei nessa fase, mas eu tenho certeza de que chegarei, junto com o Enzo. E acho que eu vou olhar para trás e descobrir que o autismo, meus caros, é um presente.

(Texto publicado originalmente no blog Uma Mãe como Outra Qualquer)


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