OPINIÃO
16/05/2014 16:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Enquanto autistas brilham, a educação parece retroceder

Quem acha que professor auxiliar é só para atividades funcionais, sinto muito, não sabe o que é inclusão. Talvez a sugestão desses ditos 'educadores' seja voltarmos alguns anos no tempo e manter nossos queridos autistas em casa, escondidos da sociedade.

Escrevo sob o calor da indignação, o que nunca é muito seguro. Mas quem é mãe sabe como a indignação nos move, e há coisas que só saem no devido tom quando são ditas com a indignação ou braveza necessária. E as mães de crianças especiais sabem também o que é conviver com a indignação em boa parte de nossas vidas, infelizmente.

Pois bem, sou a feliz mãe - e feliz mesmo! - de um garotinho autista de seis anos, que está na primeira série. Uma adaptação que tem sido uma verdadeira montanha russa, com altos e baixos, pois se pra qualquer criança sair do mundo do faz-de-conta e das brincadeiras da creche já é difícil, para os autistas aprender a rotina escolar e entender as regras é um pouco mais complicado e demorado. Só não ando mais preocupada porque confio nos profissionais da escola onde ele está. A minha preocupação e indignação estão focadas em alguns níveis acima da sala de aula.

Vou explicar: o Enzo estuda numa escola municipal de Florianópolis. Depois de duas experiências muito ruins em escolas particulares, achei um oásis no ensino público florianopolitano. Em 2012, aos quatro anos e meio, meu filho finalmente foi incluso como manda o figurino - social e pedagogicamente. Adaptações foram necessárias e, ainda que com alguns percalços, numa turma com média de 20 crianças, o papel do auxiliar em educação especial foi essencial. Eu tive todo o apoio necessário, e nesses dois anos fui uma árdua garota propaganda da Secretaria Municipal de Educação, dando entrevistas e deixando meu filho aparecer na imprensa também. E não me arrependo.

Mas a situação mudou. Agora, o prefeito assinou uma portaria (e, não sendo ele um pedagogo, certamente a ideia não veio dele) dizendo que auxiliares só são necessários para crianças que precisem de ajuda para locomoção, higiene e alimentação. Ignora totalmente a questão pedagógica, alegando que é preciso incentivar a independência. Ora, acho que nenhum pai ou mãe em sã consciência - e muito menos qualquer profissional da saúde ou saúde mental - vá desejar que seu filho fique dependente de alguém para poder seguir na vida acadêmica. Eu mesma não vejo a hora do Enzo poder ficar sozinho. Acho, inclusive, que se a adaptação ao primeiro ano for bem feita, muito provavelmente ele não precise de auxiliar na segunda série. Mas estamos já em metade de maio e ainda enfrento questões difíceis em sala de aula - a turma do Enzo tem uma auxiliar, mas há outra autista, com necessidades pedagógicas bem diferentes das do meu filho e uma única auxiliar, por mais esforçada que seja, não tem dado conta (e mesmo essa auxiliar só foi obtida após duas solicitações da escola, depois que a responsável percebeu in loco que a situação estava crítica).

Na reunião da qual participei com o secretário de Educação, após a primeira solicitação ser negada, eles se apegaram ao texto da portaria que dizia que casos específicos seriam analisados, ou seja, eles não estavam negando nada, só queriam analisar antes. Mas me pergunto: e os pais que não tem conhecimento para exigir esse profissional? E os professores/diretores que estejam com preguiça, desmotivação, sei lá, para comprar a briga? Do jeito que a portaria foi publicada, o que se criou foi mais um entrave, mais um obstáculo, como se a vida de "famílias especiais" já não fosse suficientemente difícil.

Quem acha que professor auxiliar é só para atividades funcionais, sinto muito, não sabe o que é inclusão. Há necessidades pedagógicas e sociais muito além de conseguir fazer xixi, andar ou comer sozinhos. Se o professor auxiliar é uma muleta, é o professor que está fazendo isso errado, ou a escola, ou a Secretaria que não está capacitando adequadamente seus funcionários. Assim como um surdo precisa de um intérprete de libras, outros tipos de alunos precisam que alguém os ajude a interpretar o ensino para eles, pois eles não aprendem segundo a lógica geral de todos. Querer que um aluno autista, como o meu filho, aprenda sem auxiliar nenhum (pelo menos na etapa em que ele se encontra) é como dizer que um paraplégico não precisa de cadeiras de rodas, ele pode simplesmente mover-se pelo chão com o auxílio dos braços.

Vejam como está a situação: as escolas públicas (pelo menos aqui em Florianópolis) agora querem dispensar auxiliares, dizendo que os autistas precisam de independência (e precisam, mas não é assim que se consegue); as particulares lutam para poder recusar autistas, principalmente pela questão do auxiliar, e há um projeto federal para fechar Apaes e instituições do tipo para que a criança não fique num gueto. Ou seja, o sistema educacional como um todo parece estar retrocedendo e fechando as portas aos autistas, exatamente no momento em que mais e mais relatos apontam para a alta capacidade deles de entender o mundo, só não conseguem é se comunicar com ele (exemplos aqui e aqui). Talvez a sugestão desses ditos 'educadores' seja voltarmos alguns anos no tempo e manter nossos queridos autistas em casa, escondidos da sociedade. Quiçá desejem voltar alguns séculos e, em vez de escola, colocarem as crianças em celas...

Ah, o que causou a minha indignação justo hoje? Não foi a portaria em si, mas o fato de os responsáveis terem ido a Tribunal de Justiça para que agora as decisões judiciais sejam mais "seguras"