OPINIÃO
07/07/2015 17:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Quando percebi que é difícil ser mãe nos Estados Unidos

Na América, sorrisos forçados disfarçariam o grito silencioso da mãe ou do pai de primeira viagem, e quem poderia criticá-los por isso? As mães não têm tempo de formar vínculos fortes com seus filhos. Forçadas a voltar ao trabalho semanas apenas depois de seu corpo ter expulso um ser humano que levou nove meses para se formar ali, elas rapidamente afundam em uma guerra hormonal e de estilo de vida.

Ruth Fowler

Acho que só entendi como é terrível ter um filho nos EUA quando uma criancinha pequena se aproximou do carrinho do meu filho, num parque de Santa Monica, agarrou a garrafinha d'água de meu filho e bebeu. Eu não dei importância ao fato e apenas sorri, mas a mãe do menino, horrorizada, tirou a garrafinha das mãos dele na mesma hora. "Não tem problema", eu lhe disse. "Acontece. Tudo bem."

Ela começou a fazer sons estranhos de nojo, fazendo um gesto para indicar alguém que faz um esforço para cuspir um catarro. "Cospe fora, Apollo! Cospe fora!" Seu filho a ignorou, terminou de engolir a água e então saiu correndo para bater em alguma criança no tanquinho de areia com algum brinquedo Melissa & Doug de madeira. A mãe voltou-se para mim com o rosto branco de susto, olhando a garrafinha d'água como se estivesse contaminada por ebola. Por um instante, tive medo de ela ser uma daquelas mães (ou dos pais) que se orgulham de andar com armas de fogo escondidas. Mas depois lembrei que estávamos em

Santa Monica e que o único perigo que eu corria era alguém tentar me vender um macacão Kickee Pant falsificado em algum bazar de roupas usadas.

A mãe voltou seu olhar aflito sobre mim e perguntou em tom urgente: "Seu filho come glúten? Porque glúten não entra na nossa casa."

Trigo, açúcar, sódio, transgênicos, leite em pó infantil, televisão, plásticos, medicina moderna, balões: esses são os terrores que atormentam as crianças americanas. Nunca em toda minha vida pensei em um balão como algo que encerra perigo de morte para uma criança, mas, desde que tive um bebê nos Estados Unidos, muita gente já me disse que qualquer balão que não seja examinado de perto pode penetrar malevolamente na garganta de meu filho e sufocá-lo. No Reino Unido, temos medo de que nossos filhos morram de câncer infantil, asfixiados por saquinhos plásticos de compras, por tomar água sanitária ou entrar em alguma obra em construção e machucar-se com cabos elétricos desgastados ou pregos enferrujados espalhados pelo chão. Já os balões são relativamente inócuos. Em Los Angeles, os balões são o que dividem os pais e mães em duas categorias: os responsáveis e os britânicos.

"Na América já me disseram para ir amamentar meu filho no banheiro, para não correr o risco de alguém ver um mamilo exposto e então tudo virar caos e anarquia."

Talvez os pais britânicos tenham uma atitude mais laissez-faire porque têm mais apoio do governo e de seus empregadores. Na América, os pais de bebês recebem menos apoio em todas as áreas. Mesmo o programa de licença familiar paga que existe na Califórnia, que garante salário parcial para mães e familiares que cuidam de um recém-nascido por até seis semanas após o nascimento, está muitíssimo atrás em relação ao que é dado no Reino Unido: licença de seis semanas com 90% dos vencimentos normais e depois assistência do governo por mais seis meses.

No Reino Unido, a mãe tem a garantia de ter seu emprego de volta por até um ano após o nascimento de seu filho, e seu parceiro tem a opção de tirar seis meses de licença, simultânea ou consecutiva à dela. Uma amiga minha em Kentish Town estava na posição incomum de ser casada com um britânico que trabalhava para uma firma americana. Quando ela teve seu primeiro filho, seu marido não teve direito à licença-paternidade, diferentemente de seus pares que trabalhavam para firmas britânicas. Ela precisou recorrer à ajuda dos avós, e hoje em dia essa é uma opção que cada vez menos pessoas têm. Meus avós, por exemplo, apesar de adorarem seu netinho, acharam o trajeto de ida e volta de quase 10 mil km um pouco longe demais.

No Reino Unido, a pré-escola é gratuita por 15 horas por semana e está à disposição de quem quiser. A maioria de meus amigos paga um pouco para que seus pimpolhos possam passar mais tempo que isso na creche ou pré-escola. É verdade que alguns amigos meus relatam que é difícil encontrar lugar na escola de sua preferência, que gastaram uma fortuna para se mudar para bairros ou cidades com escolas melhores e que levam seus filhos de 2 anos a aulas de música pelo método Suzuki. Mas, de modo geral, a ideia de criar os filhos dentro de uma "bolha protetora" é malvista, e incentiva-se o aprendizado através da brincadeira. É claro que em Los Angeles, a terra da "não escola", a ideia de "aprender brincando" assume todo um outro significado. Pais bem-intencionados tiram seus filhos da escola, caso alguém perceba que eles não foram vacinados, e bolam seu currículo escolar próprio baseado no que pegam da Internet.

Acho que as diferenças na criação dos filhos começam ainda na gestação. Existe nos Estados Unidos um viés puritano que encontra sua expressão no movimento em favor do parto natural e do aleitamento. As mães britânicas amamentam seus filhos mais que as americanas. Todas as gravidezes e os partos saudáveis ficam a cargo das parteiras do Serviço Nacional de Saúde britânico; as parteiras dão Entonox (um gás analgésico composto 50% de oxigênio e 50% de óxido nitroso) às mulheres em trabalho de parto, desse modo reduzindo consideravelmente a necessidade de outras formas de anestesia. Assim, o parto natural no Reino Unido parece ser muito mais comum que nos EUA, chamando menos atenção. E as mães não parecem sentir culpa ou remorso quando o parto na água que planejaram dá lugar a uma cesárea, se elas resolvem não amamentar seus filhos ou quando elas os desmamam, geralmente com entre seis e nove meses de idade.

"A maioria das mães de classe média no Reino Unido fica um ano sem trabalhar depois de dar à luz. Voltar ao trabalho depois de seis meses é visto como algo extremo e incomum."

Já os americanos, em seu esforço para injetar novo ânimo na arte moribunda do parto natural e do aleitamento, parecem quase policiar as mães com cada decisão que tomam, desde o obstetra que escolhem até a marca de fralda, passando pela decisão entre peito ou mamadeira. Eles chegam a ter uma rede enorme de grupos de apoio para ajudar as mães que não puderam ter o parto que queriam a recuperar-se do "trauma".

De repente isso tem alguma razão de ser: afinal, os Estados Unidos tem um dos índices de cesárea mais altos do mundo, 34%, e a maioria dos partos realizados em hospital é acompanhada por intervenções médicas (com frequência desnecessárias) como anestesias peridural ou outras, aplicação de oxitocina e indução do parto. Nos EUA, depois de dar à luz você só tem direito a algumas semanas para se recuperar e só se tiver sorte tem direito a seis semanas de salário-invalidez. No Reino Unido, a maioria das empresas deixa a mãe se afastar por um ano, boa parte desse tempo com vencimentos. A maioria das mães de classe média no Reino Unido tira um ano de licença-maternidade. Voltar ao trabalho depois de apenas seis meses é visto como algo extremo e incomum.

Amamentar seu filho - coisa que eu fiz e ainda faço, 17 meses desde o nascimento de meu pimpolho - é como um esporte competitivo nos Estados Unidos. Isso se deve em parte, provavelmente, ao ambiente esdrúxulo que cerca o ato da amamentação. Os americanos ainda não aceitaram a ideia de que a amamentação reduz os seios a objetos que não são sexy, mas servem para alimentar seu filho. Os britânicos parecem aceitar isso numa boa. Nunca vi uma mãe britânica usando um daqueles horríveis aventais de amamentação. As americanas, quando dão de mamar em público, costumam esconder seus recém-nascidos debaixo desses aventais.

Na América, já me mandaram ir amamentar meu filho no banheiro (como se dar o almoço a ele no lugar onde pessoas defecam fosse algo aceitável), para não correr o risco de alguém enxergar um mamilo exposto e então tudo virar caos e anarquia. Contrastando com isso, na semana passada eu estava fazendo compras na loja Whole Foods, em Camden (Londres), quando meu filhote começou a chorar de fome. Eu me sentei no chão em um canto e comecei a lhe dar de mamar, torcendo para ninguém me ver e me expulsar dali ou então me dizer que eu teria que me sentar sobre uma privada para alimentar meu filho. Uma funcionária de meia-idade se aproximou. "Com licença", ela começou a dizer, e eu já me preparei para brigar. "Quer que eu lhe traga uma cadeira para você ficar mais confortável?"

"É raro ouvir alguém dizer um 'não' firme a uma criança americana - não sem a palavra ser acompanhada de uma longa explicação em tom de pedido de desculpas."

Em Los Angeles, o método favorito de disciplinar uma criança parece consistir em a mãe adotar uma voz queixosa e se lançar numa longa discussão filosófica que envolve a razão, o raciocínio, a lógica, a compaixão e o bom-senso, tudo isso para explicar por que não é certo bater na cabeça da mamãe com uma vassoura. Na Inglaterra, dizemos apenas "não", ou "pare com isso" ou até "merda, isso dói". E deixamos a filosofia para quando nossos filhos tiverem um vocabulário que não se resuma a " quero mais" e "bola".

Exemplo ouvido hoje à tarde no London Fields Lido: "Não, você não vai ganhar chocolate. Pare de choramingar. Você está enchendo meu saco", dito em tom de voz cordial, embora um pouco irritado. É um tom de voz que, se fosse usado nos EUA, com certeza resultaria em várias visitas do Serviço de Proteção Infantil. Deus me livre se uma mãe perder a paciência com seu filho. Não estou falando de raiva patológica ou do tipo em que a pessoa atira coisas contra alguém - mas raramente vi um pai ou uma mãe americanos ceder à irritação que as crianças inevitavelmente provocam sem ser dominados por um tremendo sentimento de culpa e ficar se atormentando por isso.

Parece haver uma ideia generalizada de que a criança americana é um ser frágil e precioso. As crianças nos EUA têm que usar capacete para qualquer atividade que envolva rodas (algo que faria a maioria dos pais britânicos gargalhar, excetuando apenas os mais neuróticos), elas não podem ser vacinadas, como as crianças do resto do mundo, e os meninos precisam ter seus prepúcios removidos ao nascer, caso mais tarde eles se mostrem incapazes de lavar seus próprios pipis ou praticar sexo seguro.

"Talvez os pais britânicos tenham uma atitude mais laissez-faire porque recebem mais apoio do governo e de seus empregadores."

Por outro lado, as crianças britânicas têm muita caca de nariz, muita. Nos Estados Unidos seria impensável levar seu filho para brincar com um amiguinho se ele apresentasse os sintomas de qualquer tipo de doença. Quando isso acontece, sua casa é colocada em quarentena e você vira pária, sendo obrigada a combater a doença com sugadores de caca nasal, óleo descongestionante Olbas, Umckan, homeopatia e soluções naturebas diversas compradas da Whole Foods, antes de sequer chegar perto de um médico. Na Inglaterra, os pais simplesmente ignoram os sinais de doença infantil ligeira e levam a vida adiante, até enxergarem risco de morte iminente.

Pouco tempo atrás eu apareci na casa de uma amiga na zona leste de Londres depois de um longo voo internacional de L.A. durante o qual meu filho e eu tínhamos contraído o pior resfriado em anos, violento, congestionado e febril. Apesar de ter dois filhos com menos de 4 anos, minha amiga não demonstrou a menor preocupação quando chegamos à porta dela. Seus filhos sorriram animados em meio à tosse e ao ranho verde e comprido que insistia em escorrer de seus narizes e de vez em quando ser limpado na manga de alguém (ou até em algum móvel), sempre que havia alguma coisa à mão. "Não tem nada", ela falou. "Faz bem para o sistema imunológico deles."

Na América, sorrisos forçados disfarçariam o grito silencioso da mãe ou do pai de primeira viagem, e quem poderia criticá-los por isso? As mães não têm tempo de formar vínculos fortes com seus filhos. Forçadas a voltar ao trabalho semanas apenas depois de seu corpo ter expulso um ser humano que levou nove meses para se formar ali, elas rapidamente afundam em uma guerra hormonal e de estilo de vida. Sobrevivendo com poucas horas de sono, elas trabalham em período integral e entregam seus filhos para ser criados por desconhecidos pagos para isso ou por familiares irritantes, vivendo sob os constantes olhares críticos de seus pares igualmente traumatizados, disfuncionais e que adoram passar julgamento. Eu sou mãe celibatária, estou passando por um divórcio litigioso e uma disputa litigiosa pela guarda do meu filho. No Reino Unido, seria tratada com chá, bolachinhas e apoio. Nos EUA, ninguém quer saber de nada, porque a situação disfuncional pode ser contagiosa e essa história de criação de filhos já é complicada demais sem isso.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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