OPINIÃO
10/04/2014 17:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Nossa sopa de letrinhas - o galho dos caciques

O site do Tribunal Superior Eleitoral registra a existência de 32 partidos políticos no Brasil. É muito partido, especialmente se tentarmos descobrir o que cada um faz exatamente. Haverá alguma substância nessa vasta sopa de letrinhas brasileira?

O site do Tribunal Superior Eleitoral registra a existência de nada menos que 32 partidos políticos no Brasil. Nem o mais radical e insano defensor da pluralidade ideológica deixará de concordar que é partido demais. Especialmente se tentar descobrir o que exatamente boa parte desses partidos defende. Haverá alguma substância nessa vasta sopa de letrinhas brasileira?

Se é complicado falar exatamente em substância, o que dá para perceber é que, excluindo-se aquelas legendas menores e sem expressão, é possível enxergar uma certa evolução na formação das nossas agremiações partidárias desde o início da República até os dias de hoje. Algumas das siglas atuais são claramente herdeiras das mais antigas. Há uma certa lógica que a história explica. O esforço aqui será mais ou menos montar essa árvore genealógica partidária brasileira. Para não entediá-los com textos muito longos, resolvi ir publicando separadamente cada um dos galhos. Segue, então, a primeira ramificação da árvore. Mais tarde, eu vou publicando as outras.

O ramo dos caciques - Quando a República instituiu-se no Brasil, forjou-se numa lógica que hoje pode nos parecer um tanto quanto estranha. Os partidos políticos não tinham caráter nacional, mas regional. Os partidos defendiam os interesses das suas províncias (na época, as unidades regionais não eram os estados). Essa gênese regional da política partidária brasileira fez com que o poder no Brasil fosse exercido pelos chamados caciques, ou coronéis (tomando um termo que vem do império) regionais. Em cada província - e depois, em cada estado - formou-se um grupo de famílias que dominavam o cenário político. Depois, quando após a ditadura de Getúlio Vargas, os partidos ganharam conformação nacional, os velhos caciques passaram a ocupar espaço nas novas siglas.

E, naquele mundo partidário após 1945, os principais destinos dos velhos caciques foram o PSD e a UDN. Em seu livro "PSD, de Raposas e Reformistas", Lúcia Hippolito aponta o partido como o maior garantidor da estabilidade democrática naquele período entre o fim da era Vargas e o golpe militar em 1964. De fato, foi depois que o PSD retirou seu apoio a João Goulart que ele caiu e a ditadura militar instalou-se, há 50 anos.

A força do PSD estava em manter-se no centro e na defesa da democracia. Enquanto isso, a UDN, quase sempre na oposição, era estridente e de viés bem menos democrático. Aliados a setores da burguesia e da classe média urbana, caciques mais conservadores, como o baiano Antonio Carlos Magalhães, encontraram na UDN o seu espaço.

Com a ditadura e o bipartidarismo, a maior parte dos caciques do PSD optou pelo partido oposicionista, o MDB. E a turma da UDN foi parar na legenda governista, a Arena.

Com a volta do pluripartidarismo, o grupo mais de centro do velho PSD inicialmente buscou fazer um partido só seu, o PP, mas acabou logo em seguida aposentando a ideia e indo se abrigar no novo PMDB. A Arena foi para o PDS. Mas sua turma mais expressiva mais tarde optou por ajudar a derrubar a ditadura, formando com o PMDB a Aliança Democrática e fundando o que chamou inicialmente de Frente Liberal, base do PFL. Nos primeiros governos após a redemocratização, tanto PMDB quanto PFL cresceram, dividindo o destino dos caciques. Após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, o PFL, na oposição, foi se esvaziando. Mudou seu nome para DEM, e hoje abriga apenas um poucos caciques. Na conformação atual, o grande porto dos caciques regionais tornou-se mesmo o PMDB.