OPINIÃO
10/03/2014 16:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Itararé e o Leopardo, os patronos deste blog

Este não será um espaço para discutir a atualidade, mas buscar no passado as respostas para tentar solucionar a seguinte questão: por que a gente é assim?

Fui apresentado ao Huffington Post quando era editor executivo do Congresso em Foco. Imediatamente, o que me chamou a atenção foi a diversidade de blogs, assinados por uma variedade incrível de pessoas - artistas, celebridades, políticos, etc. Eu já conhecia o conceito, ouvido em vários discursos do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), da internet como a ágora virtual dessa imensa aldeia em que o mundo se transformou. Mas se havia alguma coisa que materializava de fato a ideia da ágora num único espaço, num único sítio na rede, essa coisa era a seção de blogs do Huffington. Quando surgiu a versão nacional do conceito, tornei-me logo leitor ávido da seção de blogs do Brasil Post, em busca daquela ágora virtual. Tornar-me agora também um cidadão desta Atenas enche-me de muito orgulho.

Recebido o convite para ser blogueiro aqui, comecei a pensar no que eu poderia fazer para que este não se tornasse apenas mais um blog. Eu não queria ser mais um a soltar opiniões sobre os assuntos da atualidade, uivando e rosnando contra todos aqueles que eventualmente não concordassem comigo, ao mesmo tempo somando um séquito de inteligências clonadas aplaudindo entusiasticamente a cada ataque desferido contra meus adversários. Desse tido de blog, a internet, infelizmente, já anda cheia.

Resolvi, então, que este não será um espaço para discutir a atualidade, mas o passado. Sem nenhuma pretensão acadêmica - até porque seria mera pretensão mesmo, porque confesso a inexistência da formação acadêmica -, a proposta que faço aqui é de criar um espaço para discutir, com base na história política do Brasil, o que nos faz ser como somos. Buscar no passado as respostas para tentar solucionar a seguinte questão: por que a gente é assim?

Posta, então, a tarefa, convoco como patronos deste blog o Barão de Itararé e o Leopardo, personagem do romance político escrito por Giuseppe Tomaso di Lampedusa. Comecemos pelo Barão.

Nem Chico Anysio, nem Jô Soares, muito menos um dos cassetas. Certamente, o maior humorista que o Brasil já teve foi Aparício Torelly. Tudo o que foram o Pasquim, o Planeta Diário ou a Casseta Popular, essas publicações devem à Manha, o jornal que Torelly criou parodiando no título A Manhã, o diário que pertencia a Mário Rodrigues, pai do dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues. Na Manha, Torelly criou frases incríveis, que ficaram para sempre, como: "Há mais coisas no ar, além dos aviões de carreira" ou "Mais leite! Mais água! Mas menos água no leite!".

Mas a tirada mais brilhante de Torelly - e a que o torna patrono deste blog - foi conferir-se o título de Barão de Itararé. Vivendo no começo da nossa república, Torelly ainda era do tempo em que títulos de nobreza significavam distinção. Para batizar o seu, ele escolheu um episódio da nossa história, a Batalha de Itararé. Ocorre que, assim como era falsa a sua nobreza, também era falsa a Batalha de Itararé. Ela entrou para a nossa história como "a batalha que não houve".

Em 1930, quando Getúlio Vargas marchou do Rio Grande do Sul para derrubar a República Velha, esperava-se uma grande resistência das tropas governistas na região de Itararé, cidade na fronteira entre São Paulo e o Paraná. A expectativa era que ali houvesse uma batalha sangrenta. Quando Getúlio chegou ali, porém, nada aconteceu. Porque antes disso, os generais Tasso Fragoso e Mena Barreto, juntamente com o Almirante Isaías de Noronha, depuseram o então presidente Washington Luís, e Oswaldo Aranha começou a negociar com a tríade militar a entrega do poder a Getúlio, que governou o país a partir dali por 15 anos.

Ao se nomear Barão de Itararé, a grande inteligência de Aparício Torelly foi perceber que aquele episódio de certa forma resumia a história do Brasil. Todos os nossos principais fatos históricos parecem ter como antecedente a expectativa frustrada de uma grande ruptura. Ao contrário dela, o que acontece de fato é uma espécie de transição negociada entre o passado e o futuro. Quem proclama a independência é o príncipe, filho do rei de Portugal. Quem proclama a república é um marechal monarquista. Quem conduziria - bem depois de Torelly - a redemocratização do país após vinte anos de ditadura militar seria o presidente do partido que dava sustentação ao regime.

Aí, chegamos ao nosso segundo patrono, talvez para dar um desconto: quem sabe esse tipo de negociação entre o passado e o futuro não seja uma exclusividade meramente brasileira. O Leopardo é o personagem principal de um clássico da literatura política universal, escrito por Lanpedusa em 1956. Antes da sua unificação, a Itália era formada por uma série de principados e ducados. O livro conta justamente o momento dessa unificação, a partir de Don Fabrizio, príncipe de Salina. Dom Fabrizio tinha um sobrinho, Tancredi (não é incrível que ele se chame justamente Tancredi?), que, contra a sua vontade, junta-se às tropas de Garibaldi para unificar a Itália. Quando Tancredi volta vitorioso, Dom Fabrizio promove, então, seu casamento, com a filha de um burguês que ascendia com a nova situação. Diante dos questionamentos sobre por que casar seu sobrinho com uma plebeia, e não com uma nobre, surge a frase que resume o livro e que se tornou famosa: "É preciso que as coisas mudem para que tudo permaneça como está". Alguém precisa listar os políticos brasileiros que, ao perceberem o cheiro da mudança, aliam-se ao novo com o propósito de fazer com que "as coisas mudem para que tudo permaneça como está"?

É assim que, sob a proteção de meus dois patronos, o Barão e o Leopardo, dou por inaugurado este modesto blog.