OPINIÃO
14/04/2015 10:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

O flamenco tem a força

"Mas rápido! Flamenco es como la vida. No espera!", diz Juana, entre um passo e outro. Mais tarde, na sala espelhada em que nos encontramos para a entrevista, menciono meu pensamento de que os fracos não têm vez nessa dança. "O flamenco é para todos", golpeia Juana. "Para todos os que o recebem de coração aberto."

Foto: Ignácio Aronovitch

Francisca, minha avó paterna, era de Almería, na ponta do Sul da Espanha. Veio para o Brasil mocinha. Nunca soube se ela sabia bailar flamenco. Quando a conheci, já estava bem velhinha, na cadeira de rodas. Lembro dela com longos cabelos brancos presos num coque. Nas mãos trêmulas, ela apertava notas de dinheiro bem dobradinhas, em oito partes, que dava aos netos para comprar sorvete. Mas penso, intuitivamente, que é pelo lado dela que o flamenco tanto me emociona e atrai. Talvez também porque minha família sempre mudou muito de cidade, o que me fez sentir um pouco cigana e sem raízes. Fincar os pés no chão, no sapateado flamenco, não deixa de ser uma forma de "aterrar". Só sei que o som da guitarra flamenca fisga meu coração. O cante toca minha alma. E, como paixão não se explica, essa foi a dança que escolhi aprender do zero, depois dos 40 anos, e que me desafia diariamente.

A Cia Cuadra Flamenca no espetáculo América Flamenca, Teatro Folha, 2014. Foto: Ignácio Aronovitch

No flamenco não existe meio termo. É tudo ou nada. Não consegue tomar uma decisão? Comece a aprender flamenco e com o tempo vai ver... tudo fica mais claro. "Esta dança é a coragem. Outras danças são alegres. A alegria desta é séria. É o triunfo mortal de viver o que importa." O trecho do texto Espanha, de Clarice Lispector, traduz a urgência do flamenco e me lembra do que pensei, exausta e feliz, ao fim de uma aula com la gran maestra Juana Amaya: flamenco não é para os fracos. A bailaora espanhola, uma das maiores de sua geração, esteve no Brasil no final de março, por curta temporada, para algumas classes, na Cuadra Flamenca, escola que escolhi por ser um dos centros de estudos de flamenco mais genuínos de São Paulo.

Sob a batuta da maestra Vera Alejandra Biglione, precursora do flamenco contemporâneo no Brasil e uma das grandes culpadas por eu cair de amores por essa dança, a Cuadra é um pedacinho do Sul da Espanha no bairro de Pinheiros. Um ponto de encontro de guitarristas, cantaores, bailaores dos bons, além de promover cursos internacionais como o da Juana Amaya. Nem nos sonhos mais loucos imaginei que, com pouco mais de um ano de aulas, conseguiria sapatear no ritmo da bailaora espanhola, o que me fez ver o quanto a base que ganhei na Cuadra faz a diferença. "Mas rápido! Flamenco es como la vida. No espera!", diz Juana, entre um passo e outro. Mais tarde, na sala espelhada em que nos encontramos para a entrevista, menciono meu pensamento de que os fracos não têm vez nessa dança. "O flamenco é para todos", golpeia Juana. "Para todos os que o recebem de coração aberto."

A energia de Juana Amaya em cena. Foto: Divulgação

Juana Amaya vem uma dinastia cigana, do povoado de Morón de la Frontera, perto de Sevilha, no coração da Andaluzia --o berço do flamenco. Leva nas veias o sangue das famílias Vargas e Amaya. Sua avó Francisca (como a minha!), tinha o sobrenome "Amaya Amaya". O célebre guitarrista flamenco Diego Amaya Flores, mais conhecido como Diego Del Gastor, era o tio que embalava os encontros da família festeira e dançante. Juana começou a dançar tão chiquita, que as primeiras lembranças que tem de si mesma, bailando, são de brincadeira. "Havia um pátio cheio de flores, no bairro de Santa Cruz. Eu e meu primo Ramón (Barrull), um pouco mais velho, bailávamos ali. Me recordo de bailar brincando e de estar todo dia bailando", diz. Aos 9 anos, já era a estrela mascote das peñas de Morón e de Alcalá, com seu baile selvagem e doce, como o flamenco que ela traduz e ensina. "Hay que tener ganas, mas sem perder a sensibilidade. O flamenco, como a música, vive do sentimento humano: alegria, tristeza, morte, amor, desamor. Acima de tudo, é uma forma de vida. Vives com ele e morres com ele. O flamenco é uma religião", ela diz.

Com a guitarra mágica de seu tio Diego, Morón de la Frontera passou a atrair gente de todas as partes do mundo e de todos os cantos da Espanha. Gente como o bailador e coreógrafo Mario Maya que, encantado com a pequena Juana, fez dela, aos 13 anos, a primeira bailarina de sua companhia. Foi quando ela se deu conta de que bailava profissionalmente. "Naquela época não havia tantas escolas, tanta comunicação. Os artistas se formavam trabalhando. Hoje, é uma sorte ter tanta informação e formação", diz. Pelo mundo afora, Juana Amaya, assim como seu primo Ramón Barrull, se tornaram ícones do flamenco. Barrull, contudo, morreu cedo e ela seguiu bailando com todos os grandes: Joaquín Cortés, Antonio Canales, Manolete, Farruquito... Mais fácil, talvez, dizer com quem Juana Amaya não bailou.

O fogo do flamenco de Ana Marzagão. Foto: Maria D'Cajas

A maestra veio p​ela primeira vez ​ao Brasil, graças a iniciativa das flamencas Vera Alejandra (Cuadra Flamenca, na foto abaixo) e Ana Marzagã​o (na foto acima) --duas apaixonadas pe​lo trabalho de ​​​Juana Amaya. Vera Alejandra​, minha atual maestra,​ iniciou​ com a​ bailarina espanhola Ana Esmeralda, rodou o mundo com sua arte​, ​com passagens por Espanha e Argentina​, ​e dirige a sua querida Cuadra Flamenca, com ​fuerza no tacón​​!, há dez anos."O Flamenco é uma força avassaladora, e quando você é ​'​fisgado​'​ por essa força​,​ não há como não entregar-se. ​Para mim, essa dança deve vir sempre acompanhada de verdade, a sua verdade, a sua história pessoal, pois ​afinal ​nasceu contando a história desse maravilhoso povo andaluz​ e​ dos gitanos​,​ especialmente​. É o que procuro fazer na Cuadra Flamenca, um trabalho sincero e com paixão​, ​tentar tirar o melhor de cada um e traduzi-lo para a linguagem flamenca​.​ ​T​er feito essa parceria para trazer a Juana Amaya foi como reafirmar essa busca do flamenco verdadeiro e puro, pois​ é o flamenco que ela carrega em sua arte​", diz Vera Alejandra.

O baile arrebatador de Vera Alejandra Biglione, no espetáculo América Flamenca, Teatro Folha, 2014. Foto: Tomas Kolish

Se o Flamenco é uma religião, a Cuadra é minha igreja, onde aprendo também com professores incríveis como Maissa Bakri e Ulisses Ruedas, com estilos inconfundíveis e talento único. Ana Marzagão, minha primeira professora na Cuadra (onde​ ela ​iniciou sua vida profissional como bailaora), quando a escola ficava numa casa antiga e poética, em frente a um cemitério, tem uma longa e linda trajetória, que envolve ​um ano ​em Sevilha e aulas no estú​​dio de Juana Amaya. Sobre o Brasil, Juana se declarou encantada com as pessoas, o sol, a rítmica, o ca​lor humano.​​ "Aqui é muito parecido com a Andaluzia", diz. Para quem está nos primeiros passos da dança, como eu, la gran maestra deixa o recado: "Insista, não desista. O flamenco é um aprendizado eterno. Quando pensas que conquistou algo, vem outra fase, outro desafio. Ensaiando, se dedicando e tendo 'ganas', tudo sai." Até mesmo a lembrança de uma letra de cante, que Juana hesita em puxar da memória. "O cante não se trata da letra, mas da maneira de cantar. São letras de pena, de lágrimas, por que nasceram do sofrimento de gente pobre, marginalizada, pessoas que não têm mais nada, mas saem bailando e cantando", segue ela, ensinando. Por fim, se lembra de quatro frases de uma soleá, "a mãe de todos os palos (nome que recebe cada cante)", que diz mais do que mil palavras sobre a força "avassaladora" do flamenco:

"Fui piedra y perdí mi centro

y me arrojaron al mar

ya fuerza de mucho tiempo

mi centro volvió a encontrar"

Saiba mais:

Cuadra Flamenca

Rua Teodoro Sampaio, 1035, Pinheiros

tel. 11 -3088-0291

www.cuadraflamenca.art.br

Para ler: Histórias de Flamenco e Outras Cenas Ciganas, de Cristina da Costa Pereira, editora Tinta Negra