OPINIÃO
19/11/2017 02:27 -02 | Atualizado 19/11/2017 02:30 -02

O espetáculo de dança que exalta a cultura da América do Sul

Guitarrista e violonista Victor Biglione traz a São Paulo o espetáculo "Mercosul – Música e Movimento".

"No atual cenário mundial, mais do que nunca é importante lembrar da riqueza e da força do nosso continente", diz o compositor, guitarrista e violonista argentino Victor Biglione, idealizador do espetáculo Mercosul – Música e Movimento. Ele estreia nesta terça-feira (21) no Teatro Folha, em São Paulo, trazendo as "paisagens sonoras" da América do Sul.

Paulo César Lima|Divulgação

Um dia desses, o músico Victor Biglione andou por cinco quarteirões na avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio, parando as pessoas aleatoriamente no calçadão e perguntando: "você sabe quem é Tom Jobim?". Ninguém soube responder quem era um dos nossos grandes compositores e maestros de todos os tempos. Foi uma maneira de comprovar que "o Brazil não conhece o Brasil", como já cantava Elis Regina, na canção de Aldir Blanc Maurício Tapajós.

"Se não sabemos nem sobre o que é nosso, sabemos menos ainda da América do Sul! Somos um continente com uma diversidade incrível e uma cultura riquíssima, mas não nos damos o devido valor", diz Biglione.

Divulgaçnao

O bairro portenho de San Telmo, onde o músico nasceu e viveu até os cinco anos, é uma das paisagens recorrentes nas composições de Biglione, mescladas à influência do Brasil, país em que se naturalizou, e do Rio de Janeiro, cidade que escolheu para viver. Daí a mistura fina que faz o crítico Nelson Motta defini-lo dessa maneira: "um mestre de dois mundos, com seu talento e maestria de tocar e arranjar tango e MPB através do jazz".

Ignácio Aronovich| Divulgação

O Monte Aconcágua, a Cordilheira dos Andes, os morros cariocas, o mangue do Recife, são alguns lugares que inspiraram as composições do espetáculo que mistura várias linguagens de dança, especialmente o flamenco e o tango, com abordagem contemporânea.

Para coreografar as composições, o músico, finalista do Grammy Latino 2016, na categoria "Melhor Álbum Instrumental", convidou as bailarinas Vera Alejandra, com sua companhia Cuadra Flamenca, e Luciana Mayumi, com a Tangará Cia. de Dança. O encontro desses artistas, a partir do violão virtuoso de Victor Biglione, conduz a um passeio fascinante pelas paisagens sonoras do Cone Sul, explorando formas, figuras e elementos de cada região. "Mercosul é espetacular! E chega no momento em que a América do Sul mais precisa", recomenda o pianista Wagner Tiso.

Paulo César Lima | Divulgação

No intervalo de um dos ensaios, em um bar em Pinheiros, entre "um queijinho e uma azeitoninha", em bom sotaque carioca, Victor Biglione mais uma vez ressaltou a beleza e a força dos nossos ritmos latinos, lembrou da boa fase do cinema argentino, e brincou com a dualidade de sua origem. "Os brasileiros amam odiar os argentinos, e os argentinos odeiam amar os brasileiros", diverte-se ele, antes de enumerar algumas razões para assistir Mercosul e (re)valorizar o nosso rico continente:

1. A diversidade étnica

"Temos tudo: índios, negros, asiático, franceses, russos, italianos... São Paulo que o diga! Essa diversidade étnica é importante, gerou uma riqueza cultural única. Isso sem falar no tamanho e na fertilidade da América do Sul. Somos dois continentes em um, pois o Brasil é 'gigante pela própria natureza'. Imagine que temos a Amazônia, a Cordilheira dos Andes... Não devemos nada a América do Norte, a América Central ou a Europa. Principalmente no atual cenário mundial, temos que nos valorizar. Por isso, esse espetáculo vem num momento oportuno e necessário."

2. A riqueza musical

"Tango, bolero, salsa, cumbia, música andina, samba, mangue beat, tudo isso é 'Mercosul'! A música brasileira é das melhores do mundo, embora pouco divulgada para o seu próprio povo. A música poderia nos unir muito mais, como já aconteceu nos anos 80, em encontros como o de Milton Nascimento e Mercedes Sosa (cantora argentina), por exemplo. Esse é o poder dos anglo-saxões. Eles sabem se unir e se divulgar para o mundo. Bob Dylan ganhou o Prêmio Nobel (2016). E não chega ao dedo mindinho do Chico Buarque."

3. A grandeza da literatura

Somos grandes! Temos (Jorge Luis) Borges, na Argentina, (Mario)Vargas Llosa, no Peru, (Gabriel) García Márquez, na Colômbia, Eduardo Galeano, no Uruguai, Jorge Amado, (João) Guimarães Rosa e José Lins do Rego, no Brasil, só para citar alguns. O Galeano, autor do clássico "Veias Abertas da América Latina", eu conheci pessoalmente, em Montevidéu. Em 1994, tocando com João Bosco, tive essa alegria. Galeano era tão fã da dobradinha Bosco e Aldir Blanc, que fez questão de nos receber no aeroporto. Tocamos no Teatro Solís e ele ficou colado na gente os dias todos em que passamos na cidade. Lembro da gentileza dele e de um país que, ainda hoje, há quem diga que parou no tempo, o que não é verdade. De qualquer maneira, aquele era um momento em que o Uruguai tinha cara de Uruguai, a Argentina tinha cara de Argentina... A América do Sul tinha mais personalidade cultural, antes de globalizar demais. Mas não perdemos a personalidade, ainda somos fortes. Só temos de nos lembrar e nos orgulhar de nossas raízes."

Mais sobre o espetáculo Mercosul

Toda a mescla que marca a América do Sul é ricamente brindada na interação entre as composições de Victor Biglione e as sofisticadas coreografias concebidas e interpretadas pelas Cia. Cuadra Flamenca e Tangará Cia. de Dança. Neste caldeirão de imagens, sons e movimentos, os bailarinos integram as linguagens do tango, do flamenco, do samba, de ritmos sul-americanos e folclóricos.

"Com a globalização, tanto a dança flamenca, como o tango, o samba e os ritmos folclóricos, vão se fusionando numa leitura moderna e atual, incluindo Chico Science, em menção ao movimento Mangue Beat", diz a coreógrafa Vera Alejandra.

Nesta leitura contemporânea, Vera Alejandra faz uso de elementos como o abanico, o mantón e as castanholas, enriquecendo a cena com tudo o que o flamenco tem de mais belo e característico. Luciana Mayumi, por sua vez, inspira-se nas paisagens sonoras de cada lugar, trabalhando com linguagens características como o samba e o tango, em um entendimento moderno e ousado, sem perder as raízes.

Assim, o espetáculo alcança momentos de rara beleza, com referências sonoras e espaciais, propondo uma fusão perfeita entre corpo e música e alcança momentos de ápice, como quando Victor Biglione, com seu violão de aço, interage com todos os bailarinos e, juntos, brindam o público com momentos únicos de grande beleza e sintonia.

Assista ao teaser do espetáculo:

Mercosul – Música e Movimento

Teatro Folha| Shopping Higienópolis

21 de novembro, 21h

Ingressos e informações:

email cuadra@cuadraflamenca.art.br

WhatsApp: (11) 98809-6336 ou (11) 3088-0291

Valor do ingresso cheio: R$120,00

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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