OPINIÃO
28/12/2014 17:23 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

7 musas da MPB que não são a Garota de Ipanema

Se a MPB tem um sexo, ah, ele é feminino. Já o nome... Pode ser Anna, Cecília, Carolina, Beatriz, entre tantos outros que inspiraram o tema que mais ilustra as canções de amor: a mulher. Encontrei, ao todo, 33 musas reais, fictícias e fulgazes -aquelas que apareceram por um momento e sumiram, ou que existiram, mas já se foram. Se todas elas possuem um elo em comum, é que, em algum momento, foram objeto de desejo, admiração ou amor dos artistas que inspiraram. Confira o resumo de algumas histórias aqui.

Desde que passou por Tom e Vinicius com seu "doce balanço a caminho do mar", a carioca Helô Pinheiro transcendeu a praia de Ipanema. Sua canção ganhou mais de 500 versões, do japonês ao esperanto, e é a segunda mais tocada no planeta depois de Yesterday, dos Beatles. Mas e as outras? E a Camaleoa do Caetano? Alguém conheceu a Conceição do Cauby? E que fim levou a Kátia Flávia do Fausto Fawcett?

Descobrir quem são as mulheres nas entrelinhas das partituras musicais é o projeto da minha alma. Uma busca que começou há uma década e resultou no livro-reportagem "Musas e Músicas -A mulher por trás da canção" (Tinta Negra Bazar Editorial), lançado esse mês. Se a MPB tem um sexo, ah, ele é feminino. Já o nome... Pode ser Anna, Cecília, Carolina, Beatriz, entre tantos outros que inspiraram o tema que mais ilustra as canções de amor: a mulher. Alguns até tentam disfarçar a identidade da musa em apelidos como Espanhola, Pérola Negra, Risoflora.

Encontrei, ao todo, 33 musas reais, fictícias e fulgazes -aquelas que apareceram por um momento e sumiram, ou que existiram, mas já se foram. Se todas elas possuem um elo em comum, é que, em algum momento, foram objeto de desejo, admiração ou amor dos artistas que inspiraram. Confira o resumo de algumas histórias aqui:

1. Lígia (Tom Jobim)

Ah, Lígia, Lígia... Os olhos verdes da carioca Lygia Marina de Moraes são morenos na letra de Lígia. Tom tentou disfarçar a identidade da musa, mas não adiantou... Tom conheceu sua musa numa tarde chuvosa, no lendário Bar Veloso (atual Garota de Ipanema). Lygia, na época, era professora primária de Beth, filha do compositor.

A canção fala, de fato, de tudo o que não aconteceu: eles nunca foram ao cinema nem andaram pela praia até o Leblon. Tudo se resumiu a uma carona no fusca azul-claro de Tom, depois que Lygia o acompanhou até a casa da escritora Clarice Lispector, onde ele daria uma entrevista. Anos se passaram, Lygia se casou com o escritor Fernando Sabino, e sempre esteve entre a turma da música, da literatura. Um belo dia, na Cobal (ponto de encontro, no Rio), quando ela já estava separada, Tom admitiu, ao vê-la se aproximar: "Está chegando a minha musa..." .

2. Anna Júlia (Los Hermanos)

Nem mesmo o líder e vocalista da banda, Marcelo Camelo, havia imaginado tamanho sucesso para os versos que escreveu para ajudar um amigo tímido a conquistar uma colega de faculdade. Naquele tempo, em 1998, Los Hermanos ainda era uma promissora banda universitária. Os meninos se reuniam ao pé da escada principal do prédio da PUC/Rio.

Por ali passava a estudante de jornalismo Anna Julia Werneck, uma versão anos 90 da Garota de Ipanema, com seu doce balanço a caminho da sala de aula. "Quem te vê passar assim por mim, não sabe o que é sofrer", seria a primeira frase da letra, inspirada na paixão do amigo tímido, estudante de direito e produtor da banda, pela doce -e também tímida -Anna Julia. Ela também não chegou a pensar que um dia seu nome cairia na boca do Brasil inteiro. "Eu não conseguia andar na PUC sem ser apontada", lembra. No papel de musa, viveu durante um ano seus quinze minutos de fama. Ainda hoje, conta que quase diariamente alguém pergunta: "Você é a Anna Júlia da música?"

3. Gilda (Vinicius de Moraes e Toquinho)

Das nove mulheres de Vinicius de Moraes, ela foi a última --e a única a ter uma música com seu nome. A canção "Gilda" foi um presente de aniversário do poeta da paixão para sua amada, Gilda de Queirós Mattoso, a musa derradeira. "Foi uma música premonitória", acredita o cantor e compositor Toquinho. "Era como se Vinicius estivesse indo para outra esfera e quisesse levar Gilda junto. Ele sempre dizia que ela era sua última companheira", conta o autor da melodia, embalada para presente com a letra do poeta. Viveram juntos por apenas um ano e onze meses. Ela lamenta: "Pena que durou tão pouco".

4. Dona (Sá & Guarabyra)

Quando o compositor Guarabyra conheceu sua "Dona", ela era uma estudante de veterinária que organizava festivais de música em Jaboticabal, no interior de São Paulo. "A Dona tinha ciúme da Espanhola", conta ele, citando outra musa que deu título a um de seus maiores sucessos. O encontro aconteceu no final dos anos 70, no bar Dama da Noite, reduto de artistas e boêmios, em Higienópolis.

Marisa Saad, a futura "Dona", andava em busca de uma atração especial para o festival de música da faculdade -e ofereceu um cachê simbólico à dupla Sá & Guarabyra. Meses depois do show em prol dos formandos, o músico e a futura veterinária iniciaram um romance qeu durou 10 anos, entre idas e vindas. "O Gut foi uma paixão muito louca, de muitos anos", resume Marisa. Sobre a música, atualmente na trilha sonora da novela "Império", ela diz: Como na canção, tenho o lado tirano e o lado meigo. 'Dona' é um retrato meu. Fico sem graça ao falar sobre o assunto porque é um retrato divulgado!".

5. Preta, Pretinha (Luiz Galvão e Moraes Moreira)

Ele, o poeta. Ela, "a moça mais bonita da cidade", na definição do compositor Luiz Galvão, parceiro de Moraes na canção que é um dos maiores sucessos comerciais dos Novos Baianos. Maria do Perpétuo Socorro Nogueira e Luiz Galvão foram noivos em Juazeiro (BA), cidade dos dois. O romance durou dois anos, mas cada um seguiu seu rumo na vida. Anos depois, quando escrevia o trecho "Só, somente só...", Galvão se Le lembrou de "So...corro". A musa não hesita em afirmar: "Luiz foi meu grande mestre", surpresa com o título. "Sempre ouvi um zunzum de que a música tinha sido feita para mim, mas nunca vi isso escrito." Agora viu.

6. Vera Gata (Caetano Veloso)

Caetano Veloso descobriu que a atriz Vera Zimmermann era uma "gata exata" em 1980, durante a turnê de seu disco Cinema Transcedental. "No camarim, quando fomos apresentados, Caetano olhou para mim e falou 'Beleza Pura'..., conta a musa da canção "Vera Gata", gravada no LP Outras Palavras, de 1981. E por aí vai... "Ser musa é ganhar um presente. Nunca desejei ou sequer imaginei viver esse papel. Quando você corre atrás dessas coisas, elas não acontecem. Virei a 'Vera Gata' por acaso, é assim até hoje. De vez em quando cruzo com Caetano, tem sempre um carinho entre a gente", conta Vera Zimmermann, em seu depoimento.

7. Madalena (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza)

A Madalena, sucesso na voz de Elis Regina e de Ivan Lins, quem diria, se chama Vera Regina. Deu trabalho rastrear o paradeiro da moça, uma ex-namorada do compositor Ronaldo Monteiro de Souza, letrista da canção. Mas a investigação foi em vão. Vera Regina, bem casada, segundo o recado de um primo dela, prefere continuar incógnita em seu nome composto.

Saiba mais: "Musas e Músicas --A Mulher por trás da canção" (Tinta Negra Bazar Editorial), de Rosane Queiroz, 160 páginas, R$ 45

Fotos: arquivo pessoal Lygia Marina/Gilda Mattoso/Maria do Socorro Nogueira/Vera Zimmermann