OPINIÃO
10/06/2014 10:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Protestos entre quatro paredes: sobre os vira-latas da Copa

Eu era criança quando aprendi que, às vezes, somente a coerção externa pode resolver problemas domésticos, especialmente quando nossas lideranças ignoram nossos apelos. Em minha insciência infantil, eu achava que merecia um brinquedo. Depois de muito tempo lutando em vão, decidi espalhar cartazes na redondeza de minha casa, que diziam: "Eu quero uma boneca. Ass. Rosana". Minha liderança imediata, meu pai, atendeu minha demanda e me deu o brinquedo juntamente com um bilhete que dizia que eu havia exposto nossas deficiências familiares para a vizinhança e que problemas domésticos deveriam ser mantidos entre quatro paredes. Minha vizinha se inspirou na minha conquista e resolveu fazer o mesmo. Ela, porém, não ganhou o brinquedo e ainda levou uma surra.

Como uma narrativa mitológica, alguns argumentos que estão em jogo nesta Copa do Mundo repetem estruturalmente a estória de minha pequena manifestação. Os meios justificam os fins? A coerção externa é, de fato, a melhor estratégia para pleitear? Valia a pena arranhar a imagem de uma coletividade por causa de um brinquedo? Eu era parte da família contra a qual eu protestava e, certamente, seria afetada pela imagem que eu mesma havia criado. Estava eu agindo de forma imediatista sem avaliar os custos futuros? Não sei. Talvez.

Escuto, a todo o momento, que vira-latas estão equivocados por expor os problemas domésticos para a mídia internacional justamente quando o país estava prestes a mostrar para o mundo aquele momento tão esperado: o império que nunca fomos.

Se compararmos os problemas de uma nação com os de uma família, é possível compreender os argumentos do governo. São muitos anos de governo para que o Brasil chegasse a esse momento de visibilidade e prestígio internacional - e a Copa coroaria essa fase. Mas, agora, nós mesmos - que deveríamos estar orgulhosos de nossas próprias conquistas e lidando com nossas deficiências internamente -, estamos colocando tudo a perder. Somos um bando vira-latas expondo as brigas de nossa grande família para o mundo. #NãoVaiTerCopa é um prato cheio para os secadores do desenvolvimento brasileiro.

Eu consigo, nessa linha de raciocínio, me solidarizar com o argumento nacionalista. Escrevendo sobre os BRICS, seguidamente sou tomada por um sentimento de indignação. Na mídia internacional, diversas notícias frequentemente retratam o "fiasco" do Brasil nos BRICS, que deveria se transformar em apenas RICS. O fato de o Brasil ser o único país do bloco que está lidando com a questão da desigualdade social é ignorado. E tudo isso, obviamente, é narrado com aquele tom nauseante de lição de moral imbuída de ironia, poder e autoridade. A velha e boa fórmula: cantar de galo no quintal dos outros é fácil. Nesse contexto internacional em que as nações desenvolvidas temem as economias emergentes, o fracasso da Copa viria a calhar muito bem e, em última instância, contribuiria manter o status quo da governança global. Ou seja, tudo em seu devido lugar: mantendo o sistema internacional injusto e desigual.

Ainda que eu seja capaz de compreender a difícil posição da Presidenta Dilma Rousseff - pois os protestos alimentariam a inveja da oposição e da mídia internacional - eu acredito que o argumento nacionalista é tão pobre quanto conservador. É pobre porque se baseia em argumentos que podem ser comparados aos usados pelo meu pai em meu pequeno ato de rebeldia. É conservador justamente porque é pobre. Ou seja, porque apela para a narrativa estrutural acerca da grande família cujos problemas deveriam ser mantidos entre quatro paredes para espantar a inveja alheia.

Isso até me lembrou a China. Confúcio dizia que devemos ser leal ao imperador, assim como somos leais aos nossos pais. Proteger nosso núcleo é o caminho da harmonia.

Sabemos que, se tem algum país que coage seus cidadãos a promover um discurso em fina sintonia com o governo "em nome do que é bom para a nação", esse país não é o Brasil. Ao completar 25 anos do Massacre da Praça Celestial de Tiananmen, a China continua a lidar com os protestos como crime contra a nação. E os chineses, ainda que não todos, continuam a dizer que direitos humanos devem ser tratados com características chinesas, afinal nenhum país ocidental tem o direito de intervir no rumo do desenvolvimento chinês. Em nome do que é bom para o povo, o discurso nacionalista se mantém há séculos, independe dos regimes políticos a que a China atravessa. Logo, nesse contexto, se protestar, apanha - mais ou menos como pensava o pai de minha amiga.

Entretanto...

O Brasil não é a China. Ou não deveria ser. O Brasil é uma democracia. Os protestos não são por uma boneca. São por direitos humanos. A nação não é uma grande família, mas uma coletividade civil, complexa e descontinua. E, finalmente, eu não sou vira-lata. Eu sou cidadã.

Como eu mencionei acima, num exercício de alteridade, eu posso compreender a posição do governo. Não acho que seja simples. E acredito que os protestos podem igualmente trazer resultados negativos para a política externa brasileira. Mas também entendo que existem grupos invizibilizados que precisam da visibilidade da Copa para reivindicar seus direitos historicamente negados: trabalhadores, sem-teto, indígenas, pessoas que tiveram seus lares destroçados e removidos, etc. Independente de o governo avaliar que os protestos são um erro estratégico, o direito à cidadania é um princípio fundamental da democracia. Os protestos não necessariamente danificam a imagem da nação: eles podem igualmente mostrar vitalidade civil brasileira. O que não pode acontecer é repressão, a qual tem sido ensaiada e reforçada por meio de diversos aparatos que têm sido criados nos últimos dias para coibir as manifestações. Isso sim é uma questão de imagem externa. Como pontuou recentemente o filósofo Pablo Ortellado: o que podemos expor, no final das contas, é a fragilidade de nossa democracia.

A lição que eu extraí de meu pequeno ato de rebeldia foi valiosa. Aprendi que quando nossas lideranças imediatas não nos escutam mais é preciso usar da coerção externa, que funciona como um espelho que amplia nossas deficiências e coloca-nos o cone da vergonha. Entendi também que todo o protesto envolve algum sacrifício, mas somente o futuro dirá se valeu a pena ou não a exposição. Apesar de meu ato ter acarretado em algum dano pela exposição da fragilidade de minha própria família, a maior lição que eu levei da experiência foi que, independente da reinvindicação, eu tenho o dinheiro de protestar sem apanhar. Diferentemente do terrível fim de minha vizinha, esse ato deve ser plenamente autorizado sem qualquer tipo coibição por meio da violência física ou simbólica.

Por favor, Presidenta, não reduza minha cidadania a vira-latisse.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para ver as atualizações mais rápido ainda, clique aqui.


MAIS COPA NO BRASIL POST:

Protestos embolam a Copa no meio de campo