OPINIÃO
12/08/2014 09:32 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

Considerações sobre a vida acadêmica no pós-Junho

Queria eu ser estudante hoje e estar circulando nos corredores das universidades para fazer política estudantil. Desde os anos 1990, não se via o ativismo e o interesse político de maneira tão ampla e viva.

EVELSON DE FREITAS/ESTADAO CONTEUDO

Após um ano das Jornadas de Junho já se observam algumas de suas marcas deixadas no ambiente acadêmico.

Inicialmente, eu destacaria o papel que a Filosofia tem desempenhado como disciplina fundamental para a compreensão dos movimentos sociais. Por causa de sua formação humanista, ampla e universalista, os/as filósofos/as conseguiram ler rapidamente a profundidade das Jornadas, em suas dimensões nacionais e internacionais, sincrônicas e diacrônicas. Os/as cientistas sociais e historiadores/as, igualmente, não se furtam de seu papel crítico e reflexivo.

Todavia, também percebo a resistência de um grupo de pesquisadores conservadores metodologicamente que não se arrisca para além de seu quadrado empírico, pesando que as Jornadas foram carnavalescas se recusando a fazer parte pedagogicamente desse amplo processo de transformação social. Para esses, resta sentar e assistir ao bloco passar. Vejo alguns colegas que não ousam a pensar o fenômeno porque simplesmente têm medo de não estudarem o tema e serem levianos em suas análises.

Estamos atravessando por um momento histórico em que a covardia intelectual não pode ser um luxo a que podemos nos dar. Vivemos um momento de polarização no cenário político brasileiro, de criminalização dos movimentos sociais e de ataque da democracia. Soma-se a isso o apoio e/ou a vista grossa dos setores mais conservadores da população brasileira.

Para a nova geração de pesquisadores que vive o pós-Junho, fica-nos a lição de que a especialização é importante, mas não é tudo. E que o papel dos estudos humanistas vai muito além da iniciação científica.

No tocante às novas gerações de estudantes de ciências humanas, só resta-me a inveja. Queria eu ser estudante hoje e estar circulando nos corredores das universidades para fazer política estudantil. Desde os anos 1990, não se via o ativismo e o interesse político de maneira tão ampla e viva. Se atualmente "ser de esquerda é modismo", como acusam por aí, isso só nos diz sobre os valores que vigoram nas novas gerações de pensadores sociais. Afinal, o entusiasmo (que os ressentidos chamam de modismo) é o primeiro passo para o profundo (e perturbar) processo de politização e consequente mudança social.

Essa geração de universitários tem ânsia por professores politicamente engajados, sonhadores e ainda indignados com injustiças sociais. Afinal, é por isso que ingressamos no curso aos 18 anos de idade. Amadurecer é preciso. Se especializar também. Um dia, teremos que entrar no mundo do capital e em toda a sua força alienante e desagregadora. Mas isso não pode ser feito como uma condição excludente que simplesmente abafa a força motora que entra junto com os "bixos". A academia não pode se tornar uma "máquina da despolitização" - para citar o título da obra do antropólogo James Ferguson.

Por esses motivos, Essa nova geração se identifica com os intelectuais e ativistas das ruas e das redes sociais e, às vezes, não se ajusta na ortodoxia de algumas disciplinas, porque, simplesmente, tem ânsia de se engajar nos novos coletivos que surgem e demais formas de mobilização.

Em suma, observa-se a emergência de novas sensibilidades e subjetividades políticas entre os universitários, as quais entendem que estamos vivendo um profundo processo de transformação social e procuram fazer parte disso. Como toda transformação é marcada pelo limpo e confusão, o engajamento crítico com os clássicos e com uma formação humanista e interdisciplinar, torna-se fundamental para jogar luzes sobre o obscurantismo e romper com a alienação. E é papel do professor estimular em sala de aula e fora dela o pensamento crítico sobre o mundo que nos rodeia - ou seremos engolidos por ele.

Por fim, diz-se que há um novo grupo de intelectuais de esquerda no país que surgiu entre os movimentos de Junho de 2013 a Junho de 2014 - o ano que não acabou. Novamente, apesar de muitas de essas figuras serem jovens, não se trata de uma questão de geração (Paulo Arantes é tão necessário quanto Pablo Ortellado nesse contexto). É simplesmente uma questão de engajamento político, pessoal e profissional. Daqui a dez anos eu poderei avaliar esse tópico melhor. Mas arrisco um palpite: acredito que sim, espero que sim, precisamos que sim.

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