OPINIÃO
06/05/2015 18:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

O dilema do futuro: tecnologia, desigualdade e desenvolvimento

A política contemporânea vive um dos seus maiores desafios históricos. De um lado, precisa decidir se abraça sem hesitação as novas modalidades de dirupção e de aumento da produtividade trazidas pelos nossos tempos, ou se foge ou resiste a elas.

Nathan Meltz, now on my wall. I quote: "Part critique, part fascination, the art I create examines the infiltration of technology into every facet of our lives, from family and food to politics and war. Nightmarish industrial creations are set against images of grand mechanical constructions, an off-kilter vision of technology."" data-caption="A great gift by K., yeah for original art! "This Machine Kills Fascists" by Nathan Meltz, now on my wall. I quote: "Part critique, part fascination, the art I create examines the infiltration of technology into every facet of our lives, from family and food to politics and war. Nightmarish industrial creations are set against images of grand mechanical constructions, an off-kilter vision of technology."" data-credit="sebastien.barre/Flickr">

A política contemporânea vive um dos seus maiores desafios históricos. De um lado, precisa decidir se abraça sem hesitação as novas modalidades de dirupção e de aumento da produtividade trazidas pelos nossos tempos, ou se foge ou resiste a elas.

São muitas as tendências diruptivas, que terão impacto sobre os níveis de emprego, renda, sobre a produtividade e sobretudo, com relação à desigualdade. Dentre essas tendências é possível citar: a expansão ilimitada da conectividade entre coisas e pessoas trazida pela internet; a descentralização, democratização, barateamento e pulverização das possibilidades de manufatura, exemplificada pelo movimento "maker" (dos "fazedores"); os avanços da engenharia genética e seu impacto tanto para a produção quanto para o próprio ser humano; o processo de rápida substituição da mão-de-obra humana por mão de obra robótica, que vai começar a se pronunciar nos próximos anos, não só no plano industrial, mas também no plano dos serviços (em outras palavras, em breve, quando alguém ligar para um call center poderá ser atendido por um robô).

Para lembrar do artigo de Michael Osborne e Carl Frey da Universidade de Oxford que dizem que na próxima década 47% de todos os empregos dos Estados Unidos serão automatizados. Para entender o porquê, o professor do MIT Erik Brynjolfsson entra em cena.

Ele diz que estamos prestes a entrar em um momento de aceleração exponencial de um tipo muito peculiar de inovação: a capacidade das máquinas de desempenhar tarefas que acreditávamos ser possíveis apenas para nós, humanos. Ele chama essa nova onda de "a segunda era das máquinas".

Há duas diferenças importantes sobre ela. A primeira é a disponibilidade de um grande volume de dados. Com eles, as máquinas podem aprender em detalhes como fazemos as coisas. Se os empregos vão desaparecer o avanço tecnológico, qual a solução?

Uma resposta vem da economista Mariana Mazzucato, que foi apelidada de "herege" pela revista Forbes. Sua heresia é acreditar que o Estado tem um papel a desempenhar nessa charada. Autora do livro O Estado Empreendedor, ela lembra que todas as principais tecnologias embarcadas nos smartphones foram financiadas por recursos públicos: o GPS, a tela sensível ao toque, o sistema de reconhecimento de voz e a própria internet.

Mariana faz questão de reforçar o papel do estado como investidor de risco, e não só como garantidor do investimento dos outros. O setor público costuma ficar com os prejuízos, mas não com o lucro gerado pelo risco.

Na visão dela, o Estado deveria receber dividendos do capital gerado pelos investimentos em inovação e assegurar que seja reinvestido.

Em outras palavras, em um mundo regido por robôs, é preciso assegurar que todos sejam um pouco donos deles. Outro ponto é assegurar que o conhecimento seja distribuído da forma mais ampla possível. E, é claro, para isso é necessário investimento em edução (e "empreendedorismo") maciço do setor público.

Tudo isso se materializa-se na recente disseminação de produtos baseados em "inteligência artificial", que reforçam a possibilidade de substituição das várias atividades humanas. Muitas já parecem estar com os dias contados: como citado acima, recepcionistas, atendentes de telemarketing e não tão longe assim, motoristas de ônibus e de táxis, substituídos por carros se autodirigem.

Todas essas tendências têm o potencial de provocar um aprofundamento sem precedentes da desigualdade. Decidir o que fazer com elas é tarefa em aberto. O radar político, seja ele da esquerda ou da direita, ainda não assimilou as agendas que emergem dessas tendências hoje praticamente inevitáveis.

A esquerda, por exemplo, fica em um dilema: abraçar essas tendências e partir para uma política claramente aceleracionista (no sentido Marxista da palavra), abraçando, incentivando e perdendo o medo desses avanços técnicos?

Ou resiste bravamente a elas, propondo novas formas de vida orgânicas e desaceleradas; novas modalidades de produção comunitárias locais, uma reorganização do tempo e das necessidades; um retorno ao território valorizando as capacidades locais; e até mesmo um desejo, talvez bucólico, de construir um novo momento em que as necessidades humanas possam ser atendidas de forma mais simples?

Esse dilema é hoje um dos enclaves políticos mais difíceis de serem superados. Sem sua compreensão, todas nossas escolhas relativas aos problemas do que aqui e agora ganham dimensão de importância reduzida. É como se no horizonte se formasse um enorme tsunami e a reação coletiva a ele fosse ir ao cinema.

Da minha parte, não vejo nenhuma das tendências descritas acima como um problema em si. O problema é não se decidir, como sociedade, o que queremos fazer com elas. O problema é deixar que elas solapem e reorganizem, com todo seu poder diruptivo vastas áreas da vida sem que nós, seres humanos, sejamos protagonistas dessa decisão. Em outras palavras, o que está em jogo nesse dilema contemporâneo é se queremos continuar sendo sujeitos. Ou se seremos meros predicados de forças econômicas autopoiéticas, que com sua destruição criativa, podem nos deslocar do centro de decisões do que fazer com relação ao nosso planeta.

Este post é parte de uma série que comemora os 10 anos de HuffPost através das opiniões de especialistas que olham para a próxima década em suas respectivas áreas. Leia aqui todos os posts da série.