OPINIÃO
17/02/2014 12:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

'12 Anos de Escravidão' é um filme sobre o Brasil

Divulgação

Assisti "12 Anos de Escravidão". Eu adorei "Django", mas Django é um super-herói do Tarantino. Solomon Northup é pra valer. É um homem comum, sem habilidades com cavalos, óculos estilosos ou revólveres. Um homem que não precisa só sobreviver, mas também ter paciência para fazer isso sem se dobrar demais nem se arriscar a morrer na mão do primeiro capataz que teve um dia ruim.

Não exagero* quando digo que esse é o filme definitivo sobre racismo (a não ser que o Will Smith queira entrar nessa barca e fazer uma triologia em que destrói caubóis robôs nazistas). O filme que leva qualquer um que esteja hoje em fevereiro de 2014 lendo esse post, que caso ainda não tenha sacado, a finalmente entender o presente em que vivemos, com reflexos da desigualdade de séculos sendo chamados de "bandidinhos de merda" e amarrados em postes por garotos brancos da zona sul carioca.

Eu acho impossível o cara assistir a essa fita** e não sacar que o racismo é muito maior e presente do que ele imagina. Sua herança ainda é forte. Porque embora não exista mais escravidão (bem... tecnicamente), nem brancos caçando negros por aí (bem... tecnicamente), o cenário em que um cara negro nasce, mesmo quando rico, apresenta mais adversidades para ele fazer qualquer coisa do que o cenário onde um cara branco nasce. Desde adquirir ensino de qualidade até a pegar um táxi sozinho a noite.

Ou entrar no banco. Ou andar livremente. Não ter medo da polícia. Eu posso continuar o dia inteiro...

12 years slave

E falo com conhecimento -- de um dos lados, pelo menos. Eu sou um cara branco (pros padrões brasileiros do que é ser branco, embora logicamente não seja caucasiano europeu) e que mesmo tendo nascido bastardo no Complexo do Alemão, eu tenho certeza que a vida foi em incontáveis momentos mais fácil para mim do que para muitos caras negros da Zona Sul -- menos, tão ou mais espertos do que eu.

Isso é evidente. Embora não exista Ku Klux Klan* no Brasil, o racismo está nas oportunidades. Elas surgem mais para os brancos do que para negros. As boas, é claro. Há outras oportunidades. Por exemplo, vai sobrar para quem vender toda essa droga que circula no Brasil?

"Oportunidades" pode ser uma palavra com diversas interpretações, né? ¯\_(ツ)_/¯

E esse filme, absolutamente emocionante, bonito tecnicamente, com uma direção corajosa e excelentes sutilezas no roteiro, mostra para o mais tapado comentarista de portal que ainda há reparações a serem feitas. Isso é dito literalmente aos senhores do engenho, mas sem dúvida nenhuma foi um recado para os racistas-casuais de hoje. Não há mais escravidão, mas você acha que os tataranetos dos escravos e dos senhores de engenho representados no filme estão jogando o Jogo da Vida no mesmo nível de dificuldade? Ou você não acha que tem uma galera jogando no nível "beginner" enquanto outros jogam no "FUCK YOU!"?

12 years slave

Veja "12 Anos de Escravidão". Tem absolutamente a ver com nosso momento, com o que está sendo dialogado no Brasil. Falei pouco sobre o filme diretamente pois acho que um longa-metragem desses é algo feito com esmero o bastante para que você possa tranquilamente não precisar conhecer qualquer aspecto dele através de um texto mal escrito meu. Assista. Assista enquanto eu fico aqui, sentado na minha piscina pensando num filme do Will Smith onde ele mata caubóis robôs nazistas.

* As vezes eu sou meio exagerado mesmo, é meu estilo. Minha noiva não gosta muito disso.

** Tão pretensioso.

*** O Conselho Mundial da Ku Klux Klan decidiu que aquelas roupas de fantasma e tochas eram muito chamativas e decidiram só usar roupas de balada e tacos de beisebol. E Ku Klux Klan era um nome muito difícil de pegar na televisão caso uma de suas representantes mais destacadas na mídia de algum país latino quisesse exaltar o grupo no telejornal que comanda. Então mudaram para "Justiceiros".