OPINIÃO
19/10/2015 14:35 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

O socialista liberal e a progressista pragmática

Olhar a política americana pela perspectiva do debate ideológico brasileiro pode ser um tiro no escuro, o que geralmente conduzirá a interpretações equivocadas e até mesmo bastante rasas.

Erik Kabik Photography/MediaPunch/IPx
LAS VEGAS, NV - October 13: Bernie Sanders and Hillary Clinton pictured at the 2015 CNN Democratic Presidential Debate at Wynn Resort in Las Vegas, NV on October 13, 2015. Credit: Erik Kabik Photography/ MediaPunch/IPX

Olhar a política americana pela perspectiva do debate ideológico brasileiro pode ser um tiro no escuro, o que geralmente conduzirá a interpretações equivocadas e até mesmo bastante rasas.

O primeiro alerta que deve ser feito é que os conceitos de esquerda e direita são, sob um certo ângulo, uma questão referencial: estão intimamente relacionados ao ponto de referência pelo qual se observa. Provavelmente, Luciana Genro está à esquerda de Marina Silva, que está à esquerda de FHC, que está à esquerda de Aécio, que está à esquerda de Cunha que, incrivelmente, consegue ficar à esquerda de Jair Bolsonaro. Assim, encarando-se essa questão referencial, pode-se dizer sem hesitação que o Partido Democrata representa a esquerda americana, que está, na média, à direita da esquerda brasileira.

A segunda observação providencial diz respeito ao sistema bipartidário dos Estados Unidos: como os partidos são muito grandes e com expressiva representação por todo o território nacional, é comum que neles se encontre um leque muito diverso de pensamentos. E o Partido Democrata não é exceção a essa regra: nele estão presentes correntes muito variadas como socialistas democráticos, sociais-democratas, sociais-liberais e radicais de centro.

A terceira questão que precisamos entender diz respeito aos efeitos da Guerra Fria e da demonização das esquerdas na mentalidade do americano médio, principalmente quando se fala de gerações mais velhas que viveram de forma mais intensa o período que antecedeu à queda do muro de Berlim.

Uma pesquisa recente publicada pela Gallup revelou que, por exemplo, 50% do país não votaria em um candidato socialista. O que já é um índice de rejeição bastante expressivo para eleições que são definidas por margens percentuais apertadas. O fato que este número revela é que, a despeito de transformações geracionais (69% dos jovens entre 18 e 29 anos votariam num candidato socialista), o capitalismo continua, na média, bastante popular entre os americanos. Entre republicanos, especialmente, o capitalismo continua como uma quasi-religião, em que o fundamentalismo de mercado é o maior paradigma.

Feitas as devidas observações, é importante ressaltar o conceito do democrata médio, que seria uma síntese das duas correntes razoavelmente distinguíveis no partido: os "moderados", composto majoritariamente por sociais-liberais, centristas e adeptos da "terceira via" (da social-democracia), como os Clinton; e o "liberal left", que abriga sociais-democratas mais radicais, socialistas democráticos e uma esquerda bastante expressiva herdeira do legado de Franklin Roosevelt. Nessa corrente encontraremos, por exemplo, o pré-candidato Bernie Sanders, ícone do liberal left, e a senadora e professora Harvadiana Elizabeth Warren (guardem esse nome).

No trânsito entre as duas correntes está o presidente Barack Obama, que apesar de ter tendências significativas ao liberal left, consegue integrar muito bem o discurso do pensamento comum a ambos os lados fazendo a figura do Democrata médio, pelo qual começamos esse tópico: defensor de direitos humanos e de políticas afirmativas, ambientalista, feminista, desconfiado de uma Economia altamente desregulada - e ainda assim razoavelmente liberal.

A disputa das primárias democratas não é nada mais do que a disputa entre essas duas correntes. E ganhará aquele que, como Obama, conseguir encarnar a síntese do Democrata médio e ainda provar ser capaz de conseguir fazer frente à incursão da ultra-direita republicana representada por Trump e pelo Tea Party, que ameaçam constantemente acabar com conquistas históricas da era Obama, como o programa de seguros de saúde publicamente financiados (Obamacare).

Para ganhar as primárias, o candidato democrata terá não apenas de encarnar o Democrata médio, mas também atrair o americano médio: centrista e que pode se assustar diante de discursos mais radicais para os padrões americanos.

O Socialista Liberal

Bernie Sanders, socialista democrático do liberal left, tem uma carreira invejável para quaisquer padrões da política internacional. Carismático, com um histórico de votações impecável e ícone dos movimentos por direitos civis - ele marchou com Martin Lutherking na década de 60 - Bernie tem todas as qualidades para se tornar um Tio Sam levemente avermelhado e lembra-nos o pedetista Cristovam Buarque. Mas Sanders falha no discurso e na inflexão necessária para alcançar o democrata moderado e o americano centrista.

No último debate promovido pela CNN, ganhou pontos ao se afirmar como contrário ao "processo capitalista de casino pelo qual muitos tem tão pouco e poucos tem muito", mas errou quando não definiu o tipo de capitalismo que defende (como já fez em outras ocasiões). Nesse momento, ainda teve sua luz ofuscada pelo adendo de Hillary que, em palavras atraentes ao eleitorado centrista, apresentou sua plataforma como uma tentativa de "salvar o Capitalismo de si mesmo".

Bernie poderia ajustar um pouco mais o discurso sem desidratar as ideias, como fez num comício recente na Liberty University, em que se apresentou como um social-democrata que busca modelos parecidos com o dos países nórdicos (bastante liberais em muitos aspectos). Se Bernie fizer essa inflexão no discurso em futuros eventos, talvez sua campanha tenha chance combinar a imagem de homem público respeitável com a de um "esquerdista moderado" e vencer as primárias democratas no país do Capitalismo. Seja qual for o resultado, o fato é que o destaque da plataforma Sanders demonstra que o liberal left está cada vez mais forte.

A Progressista Pragmática

Já Hillary, tanto no debate, quanto na campanha, acertou mais ao se apresentar como uma progressista pragmática "who likes to get things done". Ela se aproxima da base democrata e do eleitor centrista, colocando-se como proposta viável num possível embate contra Trump. No mais, fez incursões significativas em direção ao liberal left, como a recente retirada do apoio ao tratado de livre comércio do pacífico.

Tem contra si a imagem de uma política viciada representante do stabilishment, em cuja carreira o pragmatismo talvez tenha engolido a capacidade de produzir algum "progresso". Caberá a ela demonstrar se apesar do histórico contraditório, será capaz de transmitir alguma autenticidade. Pelo tom do debate da CNN, talvez ela tenha atingido esse objetivo, mas num possível embate Clinton - Fiorina (ex-presidente da HP e única mulher concorrendo às primárias republicanas), prevejo dores de cabeça para Hillary.

Por fim, num mundo ideal, Sanders seria o presidente mais votado da história dos EUA. Num mundo real, a terceira via dos Clinton ainda parece mais palatável ao eleitorado majoritário. Das primárias às eleições gerais ainda há muita coisa para acontecer. Mas no país em que os candidatos da oposição declaram categoricamente, um após o outro, que acabarão com o Obamacare no primeiro dia após suas possíveis posses: dez vezes Sanders a Clinton e mil vezes Clinton a qualquer republicano.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: