OPINIÃO
07/05/2014 13:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Sonho de uma convocação do Felipão

- Walter! - Antes mesmo do som da letra r, à gaúcha, sair entre os bigodes de Scolari, já se escutava um longo e duradouro "Oh!" da plateia de jornalistas.

Estadão Conteúdo

Esta noite sonhei com a convocação da seleção brasileira.

Enquanto dormia, assistia Felipão pronunciando, nome por nome, os eleitos para disputar a Copa do Mundo em casa.

Menos influenciado pela convocação em si, é possível que esse sonho tenha me arrebatado por certa ansiedade que começa a bater conforme o início do Mundial se aproxima.

Também é provável que eu nem me lembrasse desse sonho, não fosse pelo último nome que saiu de boca do treinador:

- Walter!

Antes mesmo do som da letra r, à gaúcha, sair entre os bigodes de Scolari, já se escutava um longo e duradouro "Oh!" da plateia de jornalistas. Murtosa, impávido escudeiro, se mantinha firme com um sorrisinho que dizia a todos: "eu já sabia".

Mais surpreendente ainda, foi o fato que naquele momento confirmou que eu estava em meio a devaneios: a reação dos jornalistas. Ao contrário do que esperava, em vez de críticas duras ou uma penca de perguntas sobre o que teria levado o treinador a essa decisão (certamente a atitude mais transloucada do técnico), ouviram-se apenas aplausos. Não poucos.

Era possível identificar o clamor popular pela presença do gordinho na lista. Nos botecos, nas padarias, nas portarias dos prédios não se falava de outra coisa.

Pela primeira vez, parecia que o tal espírito da Copa havia contagiado a todos. Graças a tal "surpresa" que Felipão prometera, mas que praticamente ninguém botava fé que viria.

Até que à noite, o jornal da TV anunciava que Walter, para estar em perfeitas condições de disputar a Copa do Mundo, entraria para um célebre reality show em que os participantes se esforçam para perder peso.

Logo, o que parecia ousadia para garantir os gols da seleção ou uma atitude para dar mais autenticidade a um time cada vez mais desgastado por contratos de patrocínio, jogos sem importância e a distância do torcedor, era uma jogada para garantir pontos no ibope de uma emissora de TV.

Claro, a verdade veio com um discurso mais ou menos lapidado por uma equipe de especialistas. A intenção era envolver mais a torcida com o time rumo ao objetivo nobre de derrubar barreiras para conquistar a hexa.

Inventaram até a hashtag #WalterNaCopa.

Acordei.

Fiquei sem saber, no meu sonho, como as pessoas reagiriam à armação midiática.

Ri com o tom surreal tão comum em sonhos. Afinal, Felipão não é dado a surpresas.

Mas é bom deixar claro: surreal seria a convocação de Wálter.

O enredo nem é tão inverossímil.

Esse é o pesadelo.