OPINIÃO
20/07/2014 13:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Falta filosofia ao futebol brasileiro

Netherlands' forward and captain Robin van Persie (front) and Brazil's defender David Luiz react during the third place play-off football match between Brazil and Netherlands during the 2014 FIFA World Cup at the National Stadium in Brasilia on July 12, 2014.  AFP PHOTO / VANDERLEI ALMEIDA        (Photo credit should read VANDERLEI ALMEIDA/AFP/Getty Images)
VANDERLEI ALMEIDA via Getty Images
Netherlands' forward and captain Robin van Persie (front) and Brazil's defender David Luiz react during the third place play-off football match between Brazil and Netherlands during the 2014 FIFA World Cup at the National Stadium in Brasilia on July 12, 2014. AFP PHOTO / VANDERLEI ALMEIDA (Photo credit should read VANDERLEI ALMEIDA/AFP/Getty Images)

A primeira vez que, em uma roda de amigos meio embriagados, lancei a ideia de que ao futebol brasileiro falta filosofia, fui meio ridicularizado. Naquele dia, entendi que, em se tratando de futebol, é difícil defender uma linha lógica de raciocínio quando resultados, que não seguem lógica alguma, podem contrariar seus argumentos. Mas não desisti de formular um pensamento sobre isso.

À época, critiquei a substituição de Mano Menezes por Felipão. Não por gostar mais de um do que de outro. Minha tese era de que a troca seguia critérios puramente políticos. Nada tinha a ver com esporte. Era o recibo de que não tínhamos sequer um esboço de planejamento para ganhar a Copa em casa.

Naquele momento, escrevi um texto sobre isso dizendo que a administração da seleção brasileira era tão cheia de contradições que, mesmo fazendo tudo errado, corríamos o risco de dar certo e sermos campeões do mundo. Não seria a primeira vez. E apesar de o tempo todo torcer para o errado dar certo (o que também é paradoxal, admito), o que sobrou da Copa foi um grande vazio existencial.

Quando me refiro à falta de filosofia, obviamente não pretendo insinuar que a Alemanha ganhou a Copa do Mundo porque possui em sua história de pensamento um Nietzsche, um Schopenhauer ou um Kant, embora isso indique que o hábito de pensar por lá é valorizado. Ao bater na tecla de que nos falta uma filosofia, quero dizer que é preciso refletir mais sobre nossa própria existência, nossos valores e a nossa estética futebolística.

Todos falam da organização, da disciplina, da tecnologia e de tantos fatores que levaram os alemães a ganhar a Copa no Brasil, mas pouco se fala do exercício de pensamento que os alemães encararam depois de perder a Copa em 2002 para o Brasil.

Que tipo de jogadores queremos formar? Qual é o estilo de jogo que vamos praticar? Qual perfil de treinador procuramos? De que forma vamos atuar para alcançar aquilo que traçamos como ideal? Qual preparação é mais adequada para esse tipo de campeonato? Concentração longe das mulheres e da família ainda faz sentido no século XXI?

Essas e, provavelmente, muitas outras questões foram pensadas e repensadas nos detalhes, não só para que a Alemanha ganhasse uma Copa, mas para que permanecesse no topo do futebol por um longo período. Um campeonato nacional fortíssimo, título na Liga dos Campeões e uma seleção que, no mínimo, chega às semifinais nos últimos quatro mundiais confirmaram isso.

A filosofia estabelecida pelos dirigentes alemães não foi feita para ganhar o próximo torneio, mas para se firmar como potência nas próximas décadas. É isso que temos visto desde então. Um pensamento claro, com valores morais e estéticos permanentes que não se abalaram quando veio a primeira derrota, justamente na Copa de 2006, sediada pelos próprios germânicos.

Aliás, é importante ressaltar: uma filosofia no esporte não serve para vencer todas as competições. Nem quero dizer que qualquer filosofia não necessite de ajustes e mudanças ao longo do tempo. Se até a teoria da relatividade de Einstein (outro alemão!) pode passar por revisões, o que dizer de um conjunto de pensamentos sobre o futebol?

Mas uma filosofia no esporte, com preceitos bem definidos, serve para estabelecer metas claras daquilo que se pretende nessa vida e facilita a pavimentação do caminho para alcançar esse objetivo. O vôlei brasileiro é um exemplo. Não ganhamos todos os títulos que disputamos, mas há quanto tempo conseguimos nos manter entre os melhores?

Quando Bernardinho ou Zé Roberto passam por uma turbulência, como quando precisam renovar a equipe, não deixam que se abalem certas convicções adquiridas durante um longo e sério trabalho. Calma, não estou dizendo que um ou outro deva treinar um time de futebol, mas que seus exemplos podem servir de inspiração.

No Brasil, cultua-se muito o valor do improviso. E não há dúvidas de que dessa característica é possível se tirar proveitos. Mas sem uma estratégia, com metas claras a serem perseguidas, a tal capacidade de improviso se torna apenas um remendo mal feito. Aliás, se tivéssemos gente preparada e atenta ao que acontece no futebol mundial, veríamos que tanto a capacidade de improviso quanto a miscigenação de uma equipe que permite contar com os mais variados tipos de atleta, deixaram de ser uma exclusividade nossa e pesar apenas a nosso favor.

Há tempos, o Brasil monta times que em nada representam sua história de jogar bola. Abdicamos do passe, de um meio de campo criativo e da formação de jogadores talentosos. No lugar, colocamos volantes e zagueiros fisicamente privilegiados e um time simplesmente combativo. Não há filosofia tática e abandonamos nossa filosofia técnica. Falo isso com a segurança de um fã do catenaccio italiano, como alguém que sempre valoriza a importância de uma defesa consistente e também a garra e a disposição típica dos argentinos e uruguaios. Porém, esses componentes devem somar aos nossos valores tradicionais, nunca substituí-los.

No entanto, com as cabeças fracas que temos no comando do esporte é muito difícil acreditar que uma filosofia surja dali para nortear o futebol nas próximas décadas. Com gente da estirpe de José Maria Marín e Marco Polo Del Nero, o máximo que alcançamos é o pensamento pueril de tentar ganhar o próximo campeonato, desde que até lá seja possível lucrar ao máximo. Uma mentalidade tacanha, sustentada por um pragmatismo que pode nos levar a um poço ainda mais fundo.

A última coletiva de imprensa da CBF, para anunciar o "ex-empresário" Gilmar Rinaldi como coordenador da seleção, é a prova de que por ali ninguém tem ideia do que precisa ser feito, exceto quando o objetivo em questão é tirar proveito próprio de alguma situação. Essa, sim, uma filosofia tradicionalmente brasileira.

Dizer que essa é a pior crise do futebol brasileiro pode até ser exagero. Mas não há dúvida que se não houver uma reformulação na cúpula do futebol brasileiro, o eterno 7x1 nos servirá apenas como uma lembrança amarga de uma época que nunca ficará para trás. Aí, a única filosofia que acabará vingando é a de que a seleção brasileira merece o nosso desprezo.

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