OPINIÃO
07/08/2014 10:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

Eu também vou reclamar

Além da ausência de qualquer coisa que lembre um jogo de futebol, as partidas chamam atenção pela quantidade de reclamações dos jogadores. Todos reclamam. Até aqueles que não treinam fundamentos, não se preparam fisicamente ou não cumprem as regras do jogo.

EDUARDO MARTINS/AGÊNCIA A TARDE/ESTADÃO CONTEÚDO

Não são raras as vezes que nosso futebol reflete vícios da sociedade.

Ultimamente, insisto em contrariar a sensatez assistindo às partidas dos campeonatos nacionais que, além da ausência de qualquer coisa que lembre um jogo de futebol, chamam atenção pela quantidade de reclamações dos jogadores. Todos reclamam. Até aqueles que não treinam fundamentos, não se preparam fisicamente ou não cumprem as regras do jogo.

Óbvio, a reclamação não é um fenômeno recente. Aposto que por essas terras há registros desde o paleolítico sobre o hábito de se reclamar de qualquer marcação desfavorável do juiz ou de qualquer atitude do adversário. Porém, nunca vi as reclamações ocuparem tanto espaço. Os jogadores não acertam um passe, não chutam ao gol, não driblam, não lançam, não antecipam, não jogam. Mas reclamam. E muito. Às vezes, penso se não é uma tática do treinador:

"Zé, hoje você vai reclamar na orelha direita do juiz. O João só vai reclamar quando o árbitro estiver de costas e o Tadeu, que é nosso capitão, pode reclamar à vontade. Só para quando levar amarelo. Mas não sem antes reclamar de que levou cartão."

Agora, reclamar não é exclusividade de quem deveria jogar. Os técnicos, muitos deles mal preparados, armam seus times para não levar gols, para evitar riscos, para fugir do jogo. E quando o resultado não vem, reclamam de seus jogadores, reclamam do juiz, reclamam do excesso de jogos, do campo, e, talvez, reclamem da torcida se - adivinhem! - ela reclamar ou não apoiar o time.

Só que até o torcedor, o único com salvo conduto para reclamar, também ficará lembrado no ano da Copa do Mundo do Brasil por ter abusado desse direito, reclamando até da fila do sanduíche padrão Fifa e se esquecendo de que, de vez em quando, poderia ter empurrado mais o time.

E não é que fora do campo também se reclama? A mais recente lamúria partiu até de quem, até dia desses, aparentemente não tinha do que reclamar. Segundo reportou o jornalista Daniel Castro, a Rede Globo protestou junto aos dirigentes de clubes afirmando que se o nível das partidas não melhorar e a audiência continuar desabando, o futebol corre o risco de cair fora da grade de programação da emissora. E não adianta reclamar! Apontaram até o descaso com a formação de jogadores, argumento que os dirigentes reclamam - que original - não ser da competência da televisão. No que eles têm razão, já que ninguém é mais culpado pela falta de novos bons jogadores do que a própria cartolagem.

No caso da Rede Globo, que nunca se mostrou preocupada com os horários das partidas que transformam em martírio a locomoção dos torcedores aos estádios e que jamais se posicionou contra a estrutura viciada da CBF, que arruína cada vez mais os clubes e a seleção, soa oportunista reclamar só quando seus interesses são afetados. Por mais que tenha toda a razão no que diz respeito ao baixo nível dos jogos. Mas disso não vou reclamar. Faço voto de que com tanto poder a emissora possa dar início a uma reviravolta no futebol brasileiro.

E antes que alguém reclame que esse texto é só uma reclamação, proponho para o futebol brasileiro uma "consciência do reclamante", uma mentalidade em que se permita a reclamação desde que se esteja com o mínimo das obrigações quitadas. Porque reclamar sem fazer sua parte não acontece só no futebol. É uma atitude que se repete como modus vivendi de toda a sociedade brasileira, onde todo mundo reclama que não há pão, mas ninguém quer por as mãos na massa. Aliás, o governo que durante a Copa reclamava e prometia mexer com a banda podre do futebol brasileiro, anda meio sumido nessa área.

Como cantava Raul Seixas na música Eu também vou reclamar: "falam em nuvens passageiras, mandam ver qualquer besteira e eu não tenho nada pra escolher".

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