OPINIÃO
27/06/2014 15:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

Vaticano divulga o documento "Os desafios pastorais da família"

Desde sua eleição, Francisco busca aproximar mais a Igreja dos dilemas dos homens e mulheres contemporâneos, visando uma Igreja menos auto-referenciada e mais atenta às "periferias existenciais" dos tempos que correm. É necessária fazer ouvir as vozes que chegam das Igrejas particulares de todo o mundo.

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Pope Francis looks on during his general audience at St Peter's square on June 11, 2014 at the Vatican. AFP PHOTO / VINCENZO PINTO (Photo credit should read VINCENZO PINTO/AFP/Getty Images)

Foi divulgado pela Santa Sé o relatório baseado nas respostas ao questionário de 39 perguntas enviado às dioceses de todo o mundo com o objetivo de colher pareceres sobre as questões que nortearão os debates da III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos que ocorrerá em outubro próximo no Vaticano.

Desde sua eleição, Francisco busca aproximar mais a Igreja dos dilemas dos homens e mulheres contemporâneos, visando uma Igreja menos auto-referenciada e mais atenta às "periferias existenciais" dos tempos que correm. É necessária fazer ouvir as vozes que chegam das Igrejas particulares de todo o mundo.

A convocação da III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos tem como objetivo de fundo, pensar e propor práticas pastorais tendo como referência as questões contemporâneos que emergem numa das áreas mais importantes para a doutrina católica: a família. A instituição familiar passa, nas últimas décadas, particularmente no Ocidente, por mudanças profundas, além de todo tipo de ataque, que requerem uma atenção pastoral mais abalizada e atenta.

Chama atenção as inúmeras vezes que aparece a preocupação com a circulação e influência cada vez maior da ideologia chamada gender theory. Essa teoria, de acordo com o documento, defende que "o gender de cada indivíduo resulta ser apenas o produto de condicionamentos e necessidades sociais, deixando, deste modo, de ter plena correspondência com a sexualidade biológica." (n. 23)

Para o documento, fator que interroga a Igreja em sua ação pastoral e "torna complexa a busca de uma atitude equilibrada em relação a esta realidade é a promoção da ideologia do gender, que nalgumas regiões tende a influenciar até o âmbito educacional primário, difundindo uma mentalidade que, por detrás da ideia de remoção da homofobia, na realidade propõe uma subversão da identidade sexual." (n. 114)

Não faltaram solicitações para que "se aprofunde, também através de organismos específicos, como por exemplo as Pontifícias Academias das Ciências e para a Vida, os sentidos antropológico e teológico da sexualidade humana e da diferença sexual entre homem e mulher, capaz de fazer face à ideologia do gender." (n. 117)

Segundo o documento, a ideologia do gender, "tende a modificar algumas estruturas fundamentais da antropologia, entre as quais o sentido do corpo e da diferença sexual, substituída pela ideia da orientação de gênero, a ponto de chegar a propor a subversão da identidade sexual". (n. 127) O texto aponta para a necessidade de resposta à essa ideologia de maneira fundamentada, e não simplesmente com "condenações genéricas contra tal ideologia cada vez mais invasiva". (n. 127). O que significa menos lugares-comuns e mais ciência.

A questão em foco toca uma das diversas e complexas facetas do debate em torno dos "direitos humanos" e da concepção cristã da "lei natural", perspectiva fundamental e central na compreensão antropológica, que ultrapassa a questão propriamente do gênero, tocando numa reflexão que acompanha a história do mundo ocidental, qual seja, a concepção de natureza. Os problemas pastorais que se referem ao tema e impelem a Igreja a se mover, ligam-se a todo um caldo cultural que se constituiu por séculos, e que tem como um de seus ideais centrais a ideia de autonomia do ser humano, o que remonta às raízes filosóficas e teológicas do século XIII europeu.

No início do segundo milênio da era cristã, os desafios antropológicos pelos quais a Igreja Católica é obrigada a responder (não só ela!) são os de maior monta, particularmente pelo fato de que a "lei natural" é compreendida como uma "herança superada" (n. 22), já que reduzida a uma simples contingência histórica.

O "direito natural" é um problema político fundamental no qual a Igreja aparece como um dos atores com grande capacidade de reflexão e condução do debate. A pergunta de ampla magnitude que resta é sobre os riscos na rejeição completa do "direito natural", abrindo um caminho de conseqüências imprevisíveis.

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