OPINIÃO
06/05/2014 10:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Pobres de nós: os arremedos de 1964 e as nossas (in)culturas políticas

Um dos resultados dessa anacrônica marcha que ocorreu em março passado, que teve meia dúzia de gatos pingados, são os usos (e abusos) de conceitos para se autoidentificarem, no caso "conservadores" e "liberais".

Estadão Conteúdo

Às vezes, quando abro o jornal nesses dias que correm, sinto-me como que transportado para 50 anos atrás. Fora um arremedilho de Guerra Fria, com Putin e Obama protagonizando atos que os analistas escatológicos se deleitam como nunca e um "papa que vai mudar o rosto da Igreja", o que me faz lembrar João XXIII e o impacto gerado na opinião pública com a sua convocação do concílio Vaticano II (1962-1965), ao olhar para o nosso próprio quintal pressinto que alguns dos fantasmas que giram em torno de nossa memória histórica insistem em nos assombrar.

São aqueles do mundo obscuro das ideologias políticas que marcaram o século 20, mas ainda com um montão de gente se engalfinhando em favor de uma delas. Fukuyama não poderia prever toda essa fantasmagoria depois do "fim da história", que não aconteceu, por certo. Citamos um exemplo. Enquanto uma comissão - nomeada pelo governo do Partido dos Trabalhadores, ligado, por seu turno, íntima e historicamente aos movimentos revolucionários de esquerda que tinham como objetivo implantar o socialismo no Brasil naqueles idos 1960/70, motivo que levou a serem perseguidos pelo Estado militarizado anticomunista - escarafuncha arquivos da ditadura civil-militar com o intuito de punir aqueles agentes do Estado (o que acredito justo, justíssimo) que agiram de forma violenta e criminosa contra os seus inimigos políticos - às vezes exalando certo revanchismo e uma posição não condizente com os limites epistemológicos do "saber histórico", já que se diz uma "Comissão da Verdade" -, outros, não menos cheios de certezas históricas e verdades postuladas, se acreditam como defensores da pátria frente a um "novo perigo vermelho" e organizam nos moldes daquela de 1964, uma "Marcha da Família com Deus pela liberdade". Sua bandeira? "Intervenção militar constitucional" com dissolução do congresso. É de arrepiar.

Um dos resultados dessa anacrônica marcha que ocorreu em março passado, que teve meia dúzia de gatos pingados - mesmo que possa ser compreendida como justas algumas das preocupações que verbalizam, partindo do pressuposto de que num Estado democrático a livre expressão é uma garantia -, são os usos (e abusos) de conceitos para se autoidentificarem, no caso "conservadores" e "liberais".

O despropósito semântico que assinala os usos desses conceitos no país, que faz parte inclusive do jogo político rasteiro no qual são utilizados no mais das vezes com propósitos difamatórios, é aprofundado drasticamente por esses que acreditam fazer algo de positivo pelo país - ao gritar pela família e liberdade - mas que no fim das contas acabam por unicamente alimentar descompassos conceituais e a ignorância política geral.

Fora o conteúdo material de suas teses, pouco nuançadas pelo o que de fato, diria, caracterizaria um certo "conservadorismo", como bem apontou Gustavo Nogy. Além disso, arremedam um clima de inter sacrum et saxum stare ("entre a bigorna e o martelo") do pré-1964, o que ao meu ver não condiz com a realidade atual do país, e que, por fim, só faz caricaturizar suas posições políticas.

O que é trágico, no final das contas, é a superficialidade de nossa cultura política, tão rafeira, prostrada e servil aos anseios desses ou daqueles grupos que querem ter a dominância na estruturação simbólica do mundo circundante. Pobres de nós!