OPINIÃO
20/08/2014 19:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Os arrebatados e os remanescentes - "The Leftovers"

Será que os que se foram também não são as alegorias mortas-vivas de crenças, formas de ser e fazer que não conseguem subsistir no mundo da modernidade tardia?

Divulgação

"We are living reminders"

Num 14 de outubro, milhões de pessoas desaparecem não deixando quaisquer sinais. Eis o momento desencadeador da série The Leftovers, da HBO - adaptação do romance homônimo de Tom Perrotta que caminha para seu nono episódio da primeira temporada.

Aquele que vai ligar a TV em busca de entertainment, diversão fácil e descompromissada, com pipoca e guaraná, pode acabar com uma azia danada. Os dramas pessoais vividos pelos personagens que "perderam" seus parentes e amigos no dia do "arrebatamento" e o contexto de turbulência psicológica que se constrói em torno do misterioso desaparecimento em massa, leva o espectador de volta às perguntas fundamentais: aquelas que giram em torno do luto, da esperança, do sentido, de Deus.

Entre os remanescentes - os leftovers - há alguma possibilidade de se encontrar sentido para continuar vivendo, num mundo que parece, junto com aqueles que se foram, ter sido subtraído qualquer possibilidade de esperança? Mas esperar o quê? Há ainda alguma porta a ser aberta, que não os jogue para dentro do abismo?

Frente às questões que parecem nortear os dramas humanos, empurrando alguns personagens no desespero, surge toda uma plêiade de gurus religiosos e seitas, que passam a agir nesse contexto que parece não permitir qualquer possibilidade, além do nada. É o horizonte niilista, desértico, o fundo do palco aonde os atores desenrolam seus papéis. É através da secura existencial que peregrinam as almas que sobraram, sofrendo o acachapante peso do absurdo que parece ser a única coisa a vibrar. Camus caminha entre os escombros.

Muito além de um cansaço ontológico, o que pesa sobre alguns leftovers é um tipo de esgotamento, exatamente o cerrar das portas do possível, que levam alguns à espera escatológica embaladas pelos novos gurus. Parece que o movimento temporal que atravessa a narrativa fílmica escoa em direção a um evento que deve se suceder e que, por fim, clareará as incertezas e dúvidas que atravessam os personagens.

Talvez somente esse evento de vislumbre se torne a única esperança de desvendamento do misterioso arrebatamento e de seus significados. Mas, como lembra David Lapoujade em "Potências do tempo" (N-1 edições), nada acontece àqueles que esperam, "nada, a não ser o fato de terem esperado em vão" (pelo menos até agora!). Uma melancolia invertida, que em vez de se entregar ao "tudo acabou, é tarde demais", volta-se a esperar um inaudito desvelar.

Será que os que se foram também não são as alegorias mortas-vivas de crenças, formas de ser e fazer que não conseguem subsistir no mundo da modernidade tardia? Os que se foram, não seriam aqueles "alicerces" pelos quais acostumamos a nos apoiar como muletas, e que agora parecem não estar mais presentes entre nós, mas apenas seus sucedâneos mal-acabados? E mais: qual a nossa culpa? "Senhores K" remanescentes que não param de buscar respostas para "o que nós fizemos para merecer isso?".

A trilha sonora marcada pela música abissal de Max Richter compõe o ambiente no qual mergulha o espectador no drama da consciência humana e seus paradoxos em busca do sentido da existência, quando aqueles (ou aquilo) que se foram parecem levar também qualquer possibilidade de encontrá-lo.

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