OPINIÃO
16/10/2014 18:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

O Sínodo de Francisco: "Revolução na Igreja"?

Dizer que a Igreja precisa reconhecer nos homossexuais "dons e qualidades que podem oferecer à comunidade cristã", é de fato uma linguagem inédita.

AP

Que o tom da relatio ante disceptationem é inovador, documento preliminar que traz os resultados dos primeiros dias de discussões no Sínodo Extraordinário realizado em Roma, não há dúvida. Dizer que, como afirma em um de seus momentos altos, que a Igreja precisa reconhecer nos homossexuais "dons e qualidades que podem oferecer à comunidade cristã", é de fato uma linguagem inédita sobre a questão. O tom que perpassa todo o documento ultrapassa qualquer perspectiva condenatória (a palavra "pecado" aparece três vezes), bem no "estilo Francisco", o que faz ser recordado como um papa que está intimamente ligado à herança do Concílio Vaticano II (1962-1965), a reunião dos bispos de todo o mundo que se reuniram em Roma por quatro anos a fim de responder às mudanças profundas pelas quais passava o mundo, e que exigiam uma pastoral renovada e/ou reformada da Igreja. Foi de lá que saíram documentos importantes como a constituição pastoral Gaudium et spes, que, em seu início, afirma: "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo" (n.1) -- trecho, por sinal, bastante discutido nos anos posteriores: para alguns, sinais da abertura de que a Igreja tanto necessitava, para outros, otimismo por demais em relação ao mundo. Para outros ainda, o fim da Igreja. Eis o pano de fundo que também se desenrola o sínodo.

O documento é a expressão dos grupos que estão envolvidos nas discussões sinodais, que fazem saber dos temas que estão sendo discutidos. Um esboço para a construção do documento final do sínodo. Não possui autoridade vinculante, diríamos, mesmo que possa ser recepcionada pelos fieis e hierarquia de maneira simbólica, agora instados de maneira clara a uma atitude de respeito em relação aos homossexuais, por sinal, já delineado no Catecismo (1992), quando afirma que "devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza"(n. 2358). Junto das palavras e impactantes gestos de Francisco nesse um ano e meio de papado, o documento acaba por ser uma das facetas de sua influência no episcopado, reverberando de alguma forma nas igrejas particulares do mundo como uma 'autorização' para uma pastoral mais marcada pela misericórdia do que pelo "legalismo". Foi esse o sentido que desejei dar quando afirmei que, "na verdade, muitas dessas perspectivas já existem de fato [...] com um documento como esse, elas ficam 'institucionalizadas'" (Folha de S. Paulo).

Mas é preciso ir devagar com o andor, pois o santo é de barro. Certas posições que apareceram em reação ao documento na grande imprensa, não veem nada menos do que uma "revolução" na Igreja. Adoram ver "primaveras" por todos os lados. Nesses dois dias, multiplicam-se os comentários, levados pelos desejos de "mudanças", sedentos por eventos históricos. Muitos deles forçam o antagonismo entre Francisco e Bento XVI -- algo bastante corriqueiro, por sinal, desde a eleição de Bergoglio.

Clóvis Rossi, por exemplo, comentando o documento em sua coluna na Folha, diz que "ao saltar da qualificação para os homossexuais de "intrinsecamente desordenados" para eventuais portadores de "dons e qualidades a oferecer", o Vaticano dá um gigantesco passo, mesmo sem mudar a doutrina (por enquanto) em uma única vírgula." Que é um passo, isso é inegável, que seja gigantesco, aí é por conta do jornalista. E por quê? Primeiro pelo fato já exposto de que o documento não tem caráter vinculante. Segundo por que a qualificação "intrinsecamente desordenados" continua no Catecismo da Igreja: a "tradição sempre declarou que 'os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados'"(n.2357). Observa-se que a expressão aparece pela primeira vez em documento de 1975 produzido pela Congregação para a Doutrina da Fé sob a chefia de Franjo Card. Šeper. Intitula-se "Declaração sobre certas questões de ética sexual". Gostando ou não da expressão, que parece forte demais e até mesmo desnecessária, nada se transformou sobre o juízo de fundo da Igreja sobre o tema por causa da relatio. Basta ver a posição de alguns bispos que participam do encontro: correram para explicar que nada mudou sobre esse juízo, e até mesmo que o documento não expressava a opinião da maioria dos bispos do sínodo.

A nossa atenção agora se volta para os resultados do Sínodo, o documento final da discussão, quando saberemos se as perspectivas que aparecem nessa relatio serão mitigadas, mantidas ou descartadas. Será 2015 o ano-chave, quando o caminho aberto pelo papa Francisco chegar a um de seus termos no Sínodo Ordinário.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.

Para saber mais rápido ainda, clique aqui.

TAMBÉM NO BRASIL POST:

Galeria de Fotos As várias faces do papa Francisco Veja Fotos