OPINIÃO
14/05/2014 12:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

O revés da esperança: papado de Francisco tem seu primeiro teólogo censurado

O pontificado de Francisco tem seu primeiro 'caçado'. O jesuíta indiano Michael Amaladoss sofre censura da congregação devido às suas crenças cristológicas pouco ortodoxas.

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O pontificado de Francisco tem seu primeiro 'caçado' pela Congregação para a Doutrina da Fé, o dicastério vaticano que zela pela ortodoxia da doutrina e que é presidida atualmente pelo alemão Gerhard Mueller: o indiano e jesuíta Michael Amaladoss, especialista em diálogo inter-religioso e cristologia. Segundo notícia vinculada pela edição do The Huffington Post Religion, Amaladoss sofre censura da congregação devido às suas crenças cristológicas pouco ortodoxas.

Segundo a matéria, o jesuíta participou de um escrutínio sobre alguns pontos de sua obra no escritório da Congregação em Roma há mais ou menos um ano. Mueller pediu ao teológo, em janeiro de 2014, que escrevesse um artigo endossando a compreensão do Vaticano, caso contrário seria penalizado com o silêncio obsequioso. Em abril, Amaladoss encontrou novamente Mueller e concordou com a demanda da Santa Sé de repensar os pontos criticados de seu trabalho pelo Vaticano. Tudo de conhecimento do Papa Francisco.

A censura foi sentida como um balde de água fria entre aqueles que vêem em Francisco uma "ruptura", uma mudança de rota daquela percorrida por João Paulo II e Bento XVI, que se demonstraram bastante vigilantes em relação ao pensamento teológico católico que se afastava do Magistério eclesiástico. O que é possível notar nas primeiras reações entre teólogos brasileiros frente à notícia foi um profundo mal-estar. Tal sensação decorre de dois fatores, um mais geral e outro pontual.

Comecemos pelo segundo. Gerhard Mueller, desde sua nomeação para encambeçar a Congregação para a Doutrina da Fé, foi propalado, aos quarto ventos, especialmente na América Latina, como o "amigo da Teologia da Libertação", o que conotava que a Congregação poderia seguir novos rumos no que concerne à reflexão teológica, com menos vigilância e mais liberdade aos teólogos. Os teólogos da libertação latinoamericanos não têm boas lembranças dessa Congregação, já que ela condenou em meados de 1980, pelas mãos de Joseph Ratzinger, as expressões mais radicais dessa teologia, devedoras da epistemologia marxista. O primeiro ponto, que se liga de alguma forma com o segundo, relaciona-se com o modo que a eleição de Jorge Mario Bergoglio ao sólio papal foi recepcionada entre esses teólogos. Desde os seus primeiros momentos na Cátedra de Pedro, a interpretação hegemônica entre eles partiu da chave da esperança. Esperam ver em Francisco o nascimento de uma era pós-Ratzinger, quando não teríamos mais condenações. O caminho de uma Igreja da excomunhão para aquela do diálogo, que segundo essa mesma chave interpretativa, teria começado com o pontificado de João XXIII (1958-1963) e o Concílio Vaticano II (1962-1965), e freada por João Paulo II e Bento XVI. Da Igreja que parte da negatividade para aquela da positividade frente ao mundo moderno e seus valores.

Todavia, tal passagem é assinalada por inúmeras contradições e os seculares automatismos que marcam a instituição católica não são ultrapassados tão rapidamente como muitos desejariam e de maneira tão simplistamente linear. Ao meu ver, a sensação de mal-estar desencadeada por esse censura demonstra, mais uma vez, que as esperanças são mais expressões de desejos, de um horizonte de expectativa específico, do que de análises que partem da concretude histórica e das dinâmicas institucionais, sempre intimamente relacionadas com as preocupações em torno de sua conservação no tempo.