OPINIÃO
23/06/2014 13:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

Não confio em gente com "consciência crítica"

A nau dos demagogos corre livre, e nesses tempos turbulentos e radicais pelo qual passamos nessa terra de ninguém chamada Brasil, proliferam os discursos retóricos, que visam ganhar as palmas de uma plateia que não sabe pra onde olha, e sequer, aonde está.

A nau dos demagogos corre livre, e nesses tempos turbulentos e radicais pelo qual passamos nessa terra de ninguém chamada Brasil, proliferam os discursos retóricos, que visam ganhar as palmas de uma plateia que não sabe pra onde olha, e sequer, aonde está.

Um dos recursos utilizados nas controvérsias políticas semanais que se espalham pela imprensa e redes sociais, é o convite à tal "consciência crítica". "Precisamos de ter uma consciência crítica sobre os fatos", dizem o puritano. O que significa isso se não o desejo de dar ao vocabulário utilizado em sua descrição de determinada faceta da realidade um verniz de maior plausibilidade? Não confio nessa gente. Eles querem nos cooptar à sua causa de maneira irrefletida, já que são aqueles que veem as coisas de forma "crítica" - acessam algo que nós, simples mortais, não acessamos. Urticária.

O que aparece, de fato, com esse desejo de pleitear uma validade universal à sua fala com esse recurso à "consciência crítica", é a dificuldade em lidar com a pluralidade de posições, o contraditório, o dissenso. O demônio é o outro. Não eu. O fundamentalista é o outro. Não eu. O radical é o outro. Não eu. O fanático é o outro. Não eu. Eu sou "crítico". O autoritarismo viceja nessas almas puras. Adoram gente batendo palmas. Deliciam-se com a concordância geral.

Essa tal "consciência crítica" é só mais um lugar-comum desses que querem impor sua visão das coisas, manifestando, por sua vez, a impossibilidade de sair da linguagem com um esse recurso ginasial. Nada mais do que uma mãozinha à serviço de sua auto-imagem.

Repete-se a mesma história, catastrófica, por sinal, se levada aos seus últimos termos: querem separar os bons dos maus. "Consciência crítica" só eu. Os outros estão destinados à penumbra do obscurantismo.

Resumo da ópera: o único tipo de poder que os seres humanos experimentam em relação ao mundo está ligado à sua capacidade, e coragem, de reconhecer a contingência e o sofrimento. Fora isso, tomemos vinho.

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