OPINIÃO
14/06/2014 15:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Dilma, as vaias e a hermenêutica hipócrita-seletiva

JF DIORIO/ESTADÃO CONTEÚDO

"Quando se pretende comover o campo das ações humanas ao nível mais simplista, utiliza-se a palavra 'povo'". Agustina Bessa-Luís

Esses primeiros dias de Copa do Mundo no Brasil mostram bem como o ressentimento, o ódio e a vitimologia se manifestam na alma da nação brasileira, que de cordial não tem nada. O desfile de interpretações nonsenses e boçais que pôde ser lido nas redes sociais no primeiro dia da Copa é revelador. Vaias e palavras de baixo calão tendo como alvo a presidente da república tornaram-se parte da guerra político-partidária na qual estamos metidos. Na expressão da insatisfação com a presidente que veio das arquibancadas, viram de tudo: desrespeito inaceitável, ódio de classe, machismo e misoginia. No mundo dos ativistas e militantes políticos tudo vira capital simbólico a ser explorado. O que chamou atenção foi a desproporcionalidade e o grau de indignação de muitos contra os xingamentos a Dilma Rousseff, os mesmos que se posicionaram de maneira veemente desde o ano passado em defesa do direito de uma parcela da população manifestar seu descontentamento com a situação nossa de cada dia. Arquibancada pode tornar-se sim um lugar de sua expressão. Mas a indignação e o espanto de alguns com a falta de educação do brasileiro médio que se manifestou dessa forma no estádio, o se "horrorizar" com o que estava acontecendo, foi mais um ato de uma hermenêutica hipócrita-seletiva de alguns - aqueles emparelhados fielmente com o governo federal.

Tais "hermeneutas" logo sacaram aquele expediente, dos mais antigos e queridos de sua "tradição revolucionária" (contradição em termos?): o antagonismo de classes, embebido, no caso, por um preconceito racial asqueroso. Divide-se o "povo" brasileiro entre os que admiram e aplaudem a presidente e seus feitos, o povo stricto sensu, e aquele que nem mereceria tal designação, aqueles que a vaiaram e se manifestaram: a tal "elite branca", termo de uma esquerda ressentida, irrascível, e vejam, "branca", estudada e com grana, que o saca nessas horas infames. Não precisa ser nenhum scholar pra entender os usos desse métier mais do que rasteiro e estúpido. Tal antagonismo simplista e demagógico está no seu DNA. Adora essas formulações abstratas, já que não dizem nada da realidade, mas que só joga fumaça no debate. A própria presidente da República o utilizou um dia depois em reação ao acontecido, dizendo que "o povo brasileiro não age assim, não pensa assim, e, sobretudo, não sente dessa forma". Talvez o "povo brasileiro" também não se encontrasse nesse show do Rappa em final de maio passado em Ribeirão Preto, quando uma multidão entoou o mesmo grito que se ouviu no Itaquerão: "Ei, Dilma, vai tomar...". Onde então ele estará?

No seu ótimo "Ira e tempo. Ensaio político-psicológico", que sorvo lentamente nos últimos meses, Peter Sloterdijk trata num de seus capítulos do "banco comunista da ira". Segundo o filósofo, esse "banco", com seus depósitos de ira, é atravessado pela "ilusão de que o de cima e o de baixo ainda acabariam logo em seguida por trocar de lugar". O que nota é o ressentimento que atravessa esse tipo de narrativa, baseado por sua vez na tríade "orgulho-ira-indignação". Faz parte de sua estratégia medular a estimulação do 'thymós' dos humilhados - as exigências de reconhecimento, os desejos de fama, a manifestação do orgulho, a indignação. A insistente e recorrente contraposição entre grupos, "os debaixo", "os de cima", principalmente na conclamação mítica da palavra "povo", é a mais visível e banal faceta de sua narrativa. A função dos partidos de esquerda, diz Sloterdijk, é "a organização do thymós dos prejudicados", o colocar em andamento o seu desejo de vingança contra seus possíveis algozes. São propriamente os legítimos e ungidos "organizadores da ira".

A insistente contraposição entre grupos, "os debaixo", "os de cima", principalmente com a conclamação mítica da palavra "povo", faz parte dessa estimulação do 'thymós' dos humilhados, tão caro, fundamental e constitutivo da militância política desses grupos desde o século XIX. O que continua fazendo fileiras, mas sem conseguir abafar como antes o cheiro de mofo que exala disso tudo.