OPINIÃO
20/10/2014 16:20 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

As tentações de Francisco e a conclusão do Sínodo

Franco Origlia via Getty Images
VATICAN CITY, VATICAN - OCTOBER 20: Pope Francis, flanked by former Vatican Secretary of State cardinal Angelo Sodano (L) arrives at the Synod Hall for ordinary public consistory on October 20, 2014 in Vatican City, Vatican. The day after the closing of the Synod on the themes of family, Pope Francis held the celebration of the Third Hour and the Ordinary Public Consistory for the canonization of Blessed Giuseppe Vaz and Blessed Maria Cristina of the Immaculate Conception. (Photo by Franco Origlia/Getty Images)

O Sínodo foi concluído. Caminhando com coragem por terrenos espinhosos e movediços, Francisco avança. O encontro que terminou, em Roma, com a beatificação de Paulo VI deixa um texto conclusivo (relatio synodi) a ser trabalhado pelas igrejas particulares espalhadas pelo mundo até o Sínodo Ordinário em outubro de 2015.

O papa inovou mais uma vez. Cada parágrafo do documento traz os números de votos favoráveis e contrários à forma que se apresenta o texto. Francisco quer passar uma mensagem de transparência no processo. Dias atrás, depois da publicação da relatio ante disceptationem, alguns bispos externaram desconforto com o fato de que as intervenções em aula (as reuniões de debate) não eram publicadas como nos sínodos anteriores.

Três parágrafos específicos do texto não obtiveram os necessários dois terços de aprovação: os parágrafos 52 (sobre os divorciados), 53 (sobre a comunhão espiritual dos divorciados) e o 55 (sobre os homossexuais). O último deles, que havia causado uma grita geral devido à forma apresentada na relatio ante disceptationem, foi mitigado de alguma forma, já que o trecho sobre os "dons e as qualidades" que os homossexuais teriam a oferecer à comunidade cristã sumiu. Como afirmei em texto no Brasil Post, seria preciso aguardar o final do sínodo para observarmos como a questão apareceria.

Isso não significa que a sua tematização não esteja no texto final do sínodo, mas lá aparece temperada com expressões e posicionamentos que recordam o ensinamento tradicional da Igreja sobre a questão. A ideia de que as uniões entre pessoas do mesmo sexo não podem ser equiparadas com ao matrimônio entre o homem e a mulher continua ("Não existe fundamento algum para assimilar ou estabelecer analogia, nem mesmo remota, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimônio e a família").

O documento reafirma a independência da Igreja frente as pressões ao contrário. Segundo a relatio synodi, "é de todo inaceitável que os Pastores da Igreja se submetam às pressões nessa matéria e os organismos internacionais condicionem às ajudas financeiras aos países pobres se há a introdução de leis que instituem o 'matrimônio' entre pessoas do mesmo sexo". A diferença da segunda versão para a primeira é que essa falava em "leis inspiradas na ideologia gender".

Mantêm-se, obviamente, a parte que afirma que a Igreja não deve evitar qualquer "injusta discriminação", citando o documento da Congregação para a Doutrina da Fé (Considerazioni circa i progetti di riconoscimento legale delle unioni tra persone omosessuali, 4).

No final do briefing no Vaticano, uma jornalista insistia nesse parágrafo, o que o Pe Lombardi, diretor da Sala de Imprensa do Vaticano, deu a entender ao respondê-la: as coisas são bastante simples, pegue o catecismo e leia. Isto é: nada referente a esse tema se transformou.

O discurso de Francisco

O discurso de conclusão do Sínodo proferido por Francisco arrancou palmas de seus participantes por alguns minutos, segundo noticiado no briefing. O papa afirma que esses dias, com belos e consoladores momentos, também foram também marcados por aqueles de desolação, tensão e tentação. Como em outro discurso pronunciado no ano passado, concentrou-se nas tentações pelas quais os participantes do sínodo passaram:

"- Uma: a tentação de enrijecimento hostil, isto é, de querer fechar-se dentro do escrito (a letra) e não deixar-se surpreender por Deus, pelo Deus das surpresas (o espírito); dentro da lei, dentro da certeza daquilo que conhecemos e não daquilo que devemos ainda aprender e atingir. Desde o tempo de Jesus, é a tentação dos zelosos, dos escrupulosos, dos cuidadosos e dos assim chamados - hoje - "tradicionalistas" e também dos "intelectualistas".

- A tentação do "bonismo" destrutivo, que em nome de uma misericórdia enganadora, enfaixa as feridas sem antes curá-las e medicá-las; que trata os sintomas contra os pecadores, os fracos, os doentes (cf. Jo 8,7), isto é, transformá-los em "fardos insuportáveis" (Lc 10,27).

- A tentação de descer da cruz, para acontentar as pessoas, e não permanecer ali, para realizar a vontade do Pai; de submeter-se ao espírito mundano ao invés de purificá-lo e submeter-se ao Espírito de Deus.

- A tentação de negligenciar o "depositum fidei", considerando-se não custódios, mas proprietários ou donos ou, por outro lado, a tentação de negligenciar a realidade utilizando uma língua minuciosa e uma linguagem "alisadora" (polida) para dizer tantas coisas e não dizer nada". Os chamavam "bizantinismos", acho, estas coisas... (todos grifos nossos).

Francisco faz, com essas palavras, uma fotografia das forças em jogo no sínodo. No Sínodo por que na Igreja povo de Deus. Busca também com essas palavras equilibrar os passos que são dados sempre com a vigília. Não há outra forma: o caminhar da Igreja na história em sua tarefa de interpretar os sinais dos tempos, sem vigilância e oração.

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