OPINIÃO
30/05/2014 11:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

A vida "funcional", essa chatice desumanizadora

Stuart Minzey via Getty Images

Seres humanos, atravessados pelas forças mercadológicas, tornam-se bem bobinhos, não é mesmo? Lembram do tomate seco com rúcula? E do queijo de búfula? Quando isso apareceu no Brasil, o frisson foi incontido. Era tomate seco pra cá, rúcula e queijo de búfula pra lá. Que tal tudo isso num ciabatta? O supra-sumo da alegria pequeno-burguesa! Pobre dela, tão longe dos livros e tão perto da Contigo! Basta uma globalzinha qualquer aparecer propagandeando os seus métodos para a barriga negativa, uma bunda sem celulite e empinada (nós brasileiros gostamos muito), um cabelo sedoso e unhas brilhantes e pronto! Estão dentro, presas, submetidas à utopia da perfeição pessoal. Esse infame restolho da "vida feliz", mistura de crença na plenitude pessoal no mundo imanente com o que sobrou do imaginário cientificista.

A mais nova praga é o "funcional". Tudo, de uma hora pra outra, passou a ser acompanhado por esse adjetivo que é a cara de uma pretensa racionalização que sequestra nossa vida pessoal em favor de... Mais vida! Alimento funcional, exercício físico funcional, saúde funcional, leitura funcional. Tudo se tornou passível de carregar o "funcional" junto de si. Uma desgraça só. E olha que ainda nem pensaram em "sexo funcional", imagina? O gozo funcional. Mas nosso abismo é sem fim, e há de chegar o seu momento. Como seria? Monitorando o gasto calórico dos amantes? Cronometrado? Sempre de preservativo pra ficar tudo limpinho? Sistematizado em seus movimentos? "Assim não pode amor, nossa terapeuta da funcionalidade sexual disse que tem que ser daqui pra ali, dali pra cá".

E o intelectual funcional? Ah, esse já existe, e há algum tempo, antes mesmo do conceito se tornar esse viral insistente. É aquele atravessado pelas exigências do sistema, quantificado em sua produção, burocratizado em seu pensamento. Peraí? O que pesquisarei amanhã? Preciso pensar em palavras-chave que encantarão meu avaliador, se não nada de verba... Hum, qual será? O que anda na moda? O intelectual funcional é o famoso homo Lattes, aquele que faz referência à plataforma de currículos dos pesquisadores brasileiros. O Lattes é uma espécie de Tamagotchi - se é que alguém lembra disso -, que sem comidinha mensal (produtos) - melhor seria semanal - emagrece, definha e morre. Uma lástima, coitadinho!

Quando tudo vira "funcional" a vida perde a graça, submetida ao manto de uma burocratização e controle de suas delícias. Assume-se, de vez, que nada pode ser e sair do esquema de uma determinada funcionalidade - uma utilitarização da existência pessoal, como se tudo, da comida ao caminhar, da leitura ao sexo, tivesse que ter uma função primeira, que controlada pelos "padrões científicos", levariam-nos aos graus máximos da satisfação e felicidade. É a devastação da simplicidade e da vida cotidiana. A onipresença do utilitômetro e suas (des)funcionalidades.

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