OPINIÃO
05/04/2016 19:11 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Daqui de cima do muro dá para ver vocês dois

Eu não sou muito fã de utopias, por isso mesmo não considero que minha postura tenha origem na expectativa de que todos entrem em consenso e a sociedade viva uma época de ouro de paz e consciência coletiva. Mas acredito que é possível substituir o ego por um pouco de razão no debate político. O que eu vejo daqui de cima do muro são duas pessoas iguais querendo coisas semelhantes, mas em lados diferentes. Se vocês dessem um pulo aqui em cima, talvez o primeiro consenso seria rir da situação.

Anos atrás, no trabalho, eu tive contato com uma colega que tinha o costume de colocar a ideologia à frente da razão. As conversas com ela eram curiosas, principalmente, porque eu insistia em ponderar sobre o que estávamos conversando. E ela não entendia muito bem como era possível fazer isso.

Ela falava sobre distribuição de renda, eu ponderava. Falava sobre ações afirmativas, mais uma ponderação. Ela falava sobre o capitalismo... e lá íamos nós de novo. Por mais que eu não tomasse posições de forma enfática, ela - como era de se esperar - começou a considerar que eu era contrário a sua ideologia. Quando eu dizia que não, a coisa ficava mais séria.

Segundo ela, eu precisava escolher um lado. Por quê? Porque é assim que funciona. E a metáfora de "ficar em cima do muro" surgia invariavelmente como uma forma de mostrar que eu preferia me omitir e não tomar decisões. A covardia é um argumento de autoridade bastante efetivo.

Tomar decisões políticas é algo sério. A maioria de nós não tem contato com o ambiente das grandes decisões e tende a simplificar esse complexo mundo. Entendemos que as nossas intenções estão acima da própria realidade e, quando percebemos que nossos desejos não estão sendo atendidos, consideramos má vontade ou maldade. Muitas vezes, eu fico aliviado por não ter que tomar decisões tão difíceis quanto reformar o sistema previdenciário ou fiscal. Inclusive, porque não tenho preparo para tratar de tais assuntos.

É complicado ser ativo em um mundo com base principalmente na razão, porque, acima de tudo, é preciso entender como o mundo funciona. E essa tarefa demanda muita reflexão.

Para lidar com os problemas sociais, nós acabamos por formar grupos e essa organização pressupõe alguma afinidade. Afinidade é emoção. Pode parecer que nossas decisões políticas são baseadas apenas em fatos, mas não é bem assim. Há muito em nós que o grupo ajuda a construir. Se não ficarmos atentos, o grupo pode começar a pensar por nós. Ao terceirizarmos a reflexão política, perdemos o equilíbrio e, usando a metáfora do muro, caímos para um dos lados. Curiosamente, de um lado do muro perdemos a visão do outro.

Viver é passar o tempo. E a política faz parte de nossa vida de forma tão intensa que nos acostumamos a passar o tempo a discutindo. E criamos personalidades políticas, de tal forma que viramos "a esquerda", "a direita", "o liberal", "o conservador". E, quando alguém critica alguma dessas ideologias, está nos criticando diretamente. Nosso ego não lida muito bem com críticas.

O meu objetivo não é concordar ou discordar de você, mas sim entrar em consenso. Só com um debate equilibrado é possível realizar mudanças sociais realmente positivas. Na marra, a coisa vai pra frente, mas de uma forma meio torta, porque vamos nos separando no meio do caminho.

Eu não sou muito fã de utopias, por isso mesmo não considero que minha postura tenha origem na expectativa de que todos entrem em consenso e a sociedade viva uma época de ouro de paz e consciência coletiva. Mas acredito que é possível substituir o ego por um pouco de razão no debate político. O que eu vejo daqui de cima do muro são duas pessoas iguais querendo coisas semelhantes, mas em lados diferentes. Se vocês dessem um pulo aqui em cima, talvez o primeiro consenso seria rir da situação.

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