OPINIÃO
18/06/2015 09:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Um papo com o hacker que invadiu o Twitter da Igreja Universal

Durante 75 minutos, o hacker espalhou aos 111 mil seguidores mensagens de amor a gays e de repúdio a ações da Igreja Universal.

Montagem/Estadão Conteúdo e Twitter

Na tarde de ontem (17), o perfil da Igreja Universal no Twitter foi invadido pouco antes das 16 horas. Durante 75 minutos, o hacker espalhou aos 111 mil seguidores mensagens de amor a gays e de repúdio a ações da Igreja Universal.

Quando digo "o hacker", uso o artigo masculino no singular porque sei que foi trabalho de um homem só, e não de uma mulher ou de um grupo. Sei disso porque, quando ele começou a tuitar e ficou notório que se tratava de uma invasão, enviei um tweet a @IgrejaUniversal.

Sou curioso por natureza e ofício. Queria saber quem estava por trás da invasão e das mensagens tão distintas às pregadas pela Universal. Francamente, eu não esperava que o autor da invasão respondesse à mensagem.

Na noite de ontem, contudo, ele me adicionou no Skype. Conversamos por 30 minutos, depois que prometi anonimato. O resultado da conversa está a seguir:

Quem é você?

Eu estou na casa dos 30 anos. Considerando a média brasileira, eu tive pouca escolaridade -- quase nenhuma. Sou de classe média-alta. Tive chances de "homens brancos", por assim dizer. Morei em outro país por alguns anos da minha vida. E... Não sei mais o que posso falar sobre mim.

Politicamente, como você se define?

Acho que, neste maniqueísmo de direita-esquerda tão em voga hoje em dia, eu me definiria como alguém de direita. Eu sou liberal, gosto de me inspirar em países onde direito privado e liberdades individuais são coisas respeitadas. Onde a religião tem pouco espaço enquanto a educação tem muito. Mas não posso cravar que sou de direita. Tem muita coisa que não gosto na direita e tem muita coisa que não gosto na esquerda. Eu quero que as pessoas tenham liberdade e não sejam controladas por governos ou religiões.

Um político que você pensa "este me representa", quem seria?

Eduardo Suplicy. Gosto muito do trabalho dele.

Sua invasão à conta da Universal foi um ato político?

Para mim, sim. Não que eu represente alguém, mas para mim, sim. Eu acho que o Brasil deveria ser um país laico e ter uma bancada evangélica não é algo do qual se deveria ter orgulho. Sendo a Igreja Universal a maior do Brasil, acho interessante mostrar um pouco de sua fraqueza.

Por que invadir o perfil de Twitter da Universal?

Nunca tive o desejo de entrar no Twitter. Eu nunca tive essa curiosidade. Aí, um dia, aconteceu: eu consegui acesso. Não achei interessante perder essa chance. Mas devo ressaltar: este foi um ataque à instituição, não à fé. Os primeiros tweets foram denúncias com citações à Bíblia, então acho que todos aqueles que seguem a Bíblia não se ofenderam com os tweets. E depois dos primeitos tweets, foi só zoeira, mesmo.

Você, de fato, cita a Bíblia em alguns tweets. Você é uma pessoa religiosa?

Não. Nunca fui religioso. Nunca tive uma educação religiosa no meio familiar. Mas depois que eu cresci, estudei muito as religiões. Acho importante conhecer as religiões e saber o que elas pregam. Por isso, posso dizer que sei que a Igreja Universal usa esses ensinamentos de forma coerciva. Já estudei bastante o Novo Testamento e tive aula sobre o Antigo Testamento. Não leio a Bíblia por hábito. A gente cresce numa sociedade católica e acaba aprendendo bastante coisa, mesmo que seja por influência. O conhecimento que mostrei nos tweets foi bem básico, algo que todo mundo pode ter.

Você, que é favorável ao Estado laico, mencionou "sociedade católica" com naturalidade. Por que atacou a Igreja Universal e não a Católica?

Porque a Universal é famosa.

Famosa pelo quê?

Famosa no Brasil. A Igreja Universal é muito mais visível que a própria Igreja Católica, que historicamente tem raízes mais profundas. A Universal está em todos os lugares que você olha. [O ataque] Foi uma forma de chamar a atenção e eu me divirto com a ideia de eles espalharem que "foi ataque de ateu", "foi ataque de gay", "foi ataque de cristofóbico"... Isso me diverte.

Então o ataque foi por diversão, apenas.

Sim. Eu não estou representando gays, lésbicas, ateus ou qualquer outro grupo. Eu represento apenas as minhas ideias; talvez algumas pessoas se identifiquem com elas.

E quais são as suas ideias?

Neste ato, foi demonstrar um ponto fraco na forma de comunicação deles que é, inclusive, um dos meios que eles mais usam para manipular pessoas. Eu quero mostrar a essas pessoas algumas coisas que, talvez, elas não saibam. Eu quis mostrar que eles [a Universal] são fracos, e acredito que atos como este incentivam outros do gênero. Eu acho que vou inspirar outros a fazerem o mesmo.

Qual é a sua opinião sobre a Igreja Universal?

Pessoalmente, eu não gosto. Acho que alguns fiéis são fanáticos. Eles acabam ofendendo pessoas. Ela não é violenta, mas é tão destrutiva quanto outras seitas destrutivas.

Quais seitas?

Shoko Asahara, Jim Jones, Estado Islâmico, Charles Manson...

Ao falar de evangélicos assim, no plural, você não está sendo intolerante?

Não. E mesmo que estivesse, seguindo o que a Bíblia ensina, no final dos tempos o mundo irá contra os crentes. Haverá mortes, perseguição etc. Os que acreditam nisso sabem que devem se manter firmes e amar o próximo como a si mesmos.

Você teme repressão por ter invadido a conta da Universal?

Não. Acho que, para fazer algo assim, você... Uma coisa que Malcolm X respondeu quando perguntado se ele tinha medo de morrer: "Eu sou um homem que acreditava estar morto 20 anos atrás e eu vivo como um homem que já morreu". Eu sei o que eu fiz, os riscos que corro... Mas acho que vale a pena. Não tenho medo das consequências.

Você citou Malcolm X, que lutou contra uma das formas de preconceito: o racial. Como vê a cristofobia, o preconceito contra grupos religiosos?

Cristofobia é como falar de orgulho hétero ou orgulho branco. Aqueles que alegam cristofobia... Quem tem cristofobia é porque sofre repressão há muitos anos. E chega uma hora em que ou você se torna um pouco mais agressivo para impor o seu espaço ou acaba engolido. Talvez os evangélicos aleguem cristofobia e digam que estão sendo perseguidos -- e, em algum nível, isso existe --, mas isso é culpa deles próprios. Se não tivessem exercido essa repressão por tanto tempo, talvez a cristofobia não existisse. E eles se apóiam nos atos de uns poucos, quando a maioria nem liga para os evangélicos. O que a sociedade precisa é de um Estado laico e é sempre complicado falar disso. As pessoas não têm educação para entender o Estado laico. Elas acham que você vai entrar numa igreja com marretas e destruir tudo. E não é isso! Estado laico é o respeito a todas as religiões, inclusive a nenhuma delas. O Estado laico vai existir quando a sociedade for mais educada e tiver mais empatia.

A que tipo de repressão exercida pelos evangélicos você se refere?

Eu já vi evangélico parar gays na rua e tentar exorcizá-los. Veja, por exemplo, a ideia da cura gay. É algo absurdo! Antigamente ser gay era crime. E há, ainda hoje, gente que criminalize isso. Gente que responde à crucificação simbólica de uma travesti com faixas e Pai-Nosso na Câmara, ato que mostra a imposição religiosa por parte deles. Então quem combate essa repressão está em seu direito. Enquanto isso, os repressores se fazem de vítimas.

Você mencionou a Câmara. Um editorial da Folha fez uma analogia do nosso cenário com o enredo do livro "Submissão", de Michel Houellebecq, em que a França é governada por radicais muçulmanos. Acredita que seremos governados por evangélicos?

Eles não vão conseguir levar [as ideias da bancada evangélica] adiante. Vão acabar como qualquer outro político que, ao chegar numa posição maior, percebe que há muita coisa entre ideologia e gestão. Os evangélicos têm muitos representantes políticos, mas não conseguirão exercer poder sobre a sociedade. Não teremos um futuro distópico porque eu penso no conceito de destruição mútua assegurada [doutrina usada como estratégia militar, que prevê o uso maciço de armas nucleares por um dos lados como a destruição efetiva tanto de quem ataca quanto de quem se defende]. Se os evangélicos forem muito radicais, eles vão se destruir. Além disso... Tem um livro do Steven Pinker, Os Anjos Bons da Nossa Natureza, que mostra como a violência tem diminuído. Lendo o livro, percebi que muito disso se deve à internet. Hoje temos acesso a muita informação e isso gera mais empatia pelo próximo (que antes não era tão próximo). Cria-se uma resistência mais sólida. Não acredito que seremos uma nação controlada por uma religião, como vemos em alguns lugares do mundo.

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